20/03/2013

Pedro, João e a fonte.

Um dia, caminhando pelo deserto, Pedro encontrou João. Este descansava no alto de uma duna observando pacientemente o horizonte que mais uma vez mostrava-se o mesmo, sem fim. A ele, Pedro dirigiu-se de súbito:
__ João, procuro por Lucas?
Surpreso com o desconhecido que de longe, fazia tempo, via se aproximar, Lucas fixou o olhar sobre o homem e por algum tempo permaneceu calado. Somente o som dos ventos e um estranho e descabido ruído de águas correntes revelavam o quanto ambos não sofriam de surdez. 
Então, Lucas, com a voz baixa e embargada pela areia que se acumulava na garganta, respondeu, intercalando à resposta, perguntas e afirmações.
__ Senhor, por que perguntas por Lucas? Sou eu João, filho de Ezequiel, filho de David, filho de Joé, filho de Jacó, filho Sabú, filho de mais alguém que não sei quem e nada sei sobre Lucas. Ele lhe deve, senhor? Caminho pelo deserto da vida, por essas areias escaldantes deste mundo sem fim, faz anos e como vê, apontando para o horizonte, nada muda por aqui. Não vi Lucas ou quem quer que seja passar por mim, momento algum
Franzindo a testa suada, Pedro serenamente respondeu:
__ João, na vida tudo é possível mudar-se, mas Lucas deve-me, sim. Deve-me sua palavra. 
__ A palavra, senhor? A minha palavra? Lucas lhe deve a minha palavra?
__ Não, João, não seja tolo, ouça-me, escuta-me e ouvirás o teu eu, Lucas deve-me a palavra dele.
__ Oh! Compreendo, senhor. Interpreto agora o sinal que me trazes, a luz que me alcança e que me orienta, mesmo aqui tão distante. Mas como vê, senhor, apontando novamente para o horizonte, em nada posso ajudá-lo, se me permite, preciso continuar meu caminho.
João levantou-se apoiando-se em seu bastão e sob o olhar de Pedro, foi-se, deixando-o às costas.
Já distante, Lucas, ainda perplexo, virou-se e notou que Pedro estava logo atrás. Incomodou-se, porém, prosseguiu calado o seu destino.
Por horas Pedro seguiu João em completo silêncio. João, virava-se e via o homem quieto, obstinado, passo a passo a lhe seguir.
No final no dia a sirene tocou e todos no pátio se recolheram calmamente, permanecendo apenas, Pedro e João que insistiam caminhar ao redor da fonte que movimentava águas cristalinas, constantes como num moto-continuo.
Dois assistentes trajando aventais brancos se aproximaram e com destreza profissional,  os convidaram ao refeitório, pois o jantar seria servido em instantes e hoje desfrutariam de um saborosíssimo arroz com feijão, dois pedaços de frango de panela e salada de alface com tomates frescos. A sobremesa eles receberiam caso fossem obedientes. E assim se deu, fartaram-se do alimento e mais à noite descansaram, pois o dia seguinte prometia outras longas caminhadas.
Li ontem uma matéria na Folha de São Paulo que dizia que o bispo RR Soares, para renovar seu contrato com a Band pela exibição diária em horário nobre, teria que pagar mensalmente 8 milhões de reais. Hoje ele paga 6 milhões. A mesma matéria dizia que seu concorrente no negócio da fé, um tal de Waldomiro, paga atualmente pelo arrendamento do Canal 21, do mesmo grupo, cerca de 20 milhões todo "santo" mês. Fiz as contas rapidamente e cheguei ao número de 336 milhões por ano que ambos deixarão nos cofres do grupo de comunicação. A dúvida veio: qual o melhor negócio, ter uma igreja ou uma rede de televisão? O fato é que ambos parecem ser bons negócios. E certamente quem paga a conta é o cara da fé. Vejo que realmente a fé move montanhas e nesse caso, montanhas de dinheiro. 
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