31/12/2013

Bye bye ano velho!

Cai fora 2013, vai pro diabo que te carregue! Se quiser ir antes da meia noite, pode ir.

24/11/2013

O OBSTINADO

Ver, ouvir, pensar e fazer. 
Seguir em frente até um desmiolado consegue. A figura de um zumbi representa bem o que é isso. 
O negócio é seguir com clareza, sentir-se seguro, firme e ao mesmo tempo leve. 

Não de uma leveza onde o vento possa controlar. Existem abismos, por isso, há de se ter direção. 
Para se ter direção é preciso atenção e crença na capacidade. Pode-se descobri-las deixando-se de lado o excesso de comedimento. O atrevimento pode ser dirigido e saboreado. 
Acreditar não somente por acreditar. É preciso considerar as ideias e escutar a intuição. A intuição pesa ao vencedor.  
Vencer não é ganhar. Ganhar é um presente recebido, portanto, tem outro sentido. O derrotado também ganha presentes.  
O vencedor por natureza é um conquistador, um sonhador que manuseia a atenção, dando aos sonhos uma direção. 
O obstinado vencedor, olha, vê, sente e faz. 
Bom domingo.

20/11/2013

O ENCONTRO NO CHINESE THEATRE

Encontrei meu amigo Johnny Deep outro dia zanzando pelas ruas de Los Angeles, lá na Hollywood Boulevard, quase em frente ao Chinese Theatre.
Tentei desviar o olhar, ameacei atravessar a rua, mas não deu tempo, logo ele me chamou:


__ Oi cara!

Respirei fundo e me fiz de surpreso.

__ Como vai, Johnny?

Enquanto ele se aproximava tratei logo de esconder a carteira fechando o zipper do bolso, pois é sempre um risco estar perto dele com a grana disponível.

Ele se vestia como uma pessoa comum. Odeia ser um astro sem ter privacidade. 
Trajava um terno azul marinho dos baratos, camisa branca e uma gravata azul estampada. Carregava uma bíblia na mão e o chapéu clássico escondia os longos cabelos. Óculos de aros retangulares de metal, com lentes grossas davam-lhe o quê de idiota necessário para a ocasião.

Não foi reconhecido por ninguém. Mas eu, hum... ele nunca me engana.

Assim que respondi ele pôs o dedo na boca pedindo cuidado. Compreendi, sem nomes, por favor.

__ Ainda bem que te encontrei. Acabei de falar com o Tim (Burton) ele precisa de sua ajuda.

__ Sei. E o que ele quer dessa vez? Respondi.

__ É sobre o Hitch. (Alfred Hitchcock)

__ Não, não! Hitch de novo, não dá! Sinto muito.

__ Dê uma chance a ele, velho. O cara é legal. Está com planos de um novo filme - Os pássaros.

__ Jurei pra mim mesmo que nunca mais trabalharia com Hitch e nem com o Spielberg, nem Tarantino, Felini, Anselmo Duarte e Almodôvar.

__ Pô, cara. Mal isso heim!

__ Acertei com o Kubrik já. Mês que vem iniciamos.

Mas ele insistiu:

__ Não custa nada, vai. Fale com o Tim e você vai entender melhor o plano.

__ Ok. Ligo pra ele amanhã. Só porque você está me pedindo. Preciso seguir agora, vou comprar ração no Carrefour.

__ Valeu, cara. Você é o cara! Ah! Toma um presente. O disco novo do Amado Batista. Acabei de comprá-lo, mas quero que fique com ele.

__ Valeu, abraços, Johnny!

__ Psiu! Dedo na boca. 

Segui meu caminho sem olhar pra trás. Lembrei do Jack Sparrow, Keith Richards e do Henrique Pizzolato comendo pizza na Itália com nosso dinheiro.


Baseado em sonhos reais.

18/11/2013

O Plano - Um conto ultra curto

Suicidou a mulher quando soube que ela o traia com o vizinho e em seguida assassinou-se. 
Sequência minuciosamente elaborada pelo autor do crime sem que jamais alguém pudesse descobrir a verdade. 
LOCAL E DATA - Deitados na cama do casal. Madrugada de um domingo para segunda - chuvosa e com muitos trovões. 
1 - Um tiro na boca da infiel enquanto ela dorme.
2 - Limpar as digitais no revólver.
3 - Colocar a arma na mão esquerda dela. (era canhota)
4 - Aproximar-se e apertar o dedo acionando o gatilho em sua direção.
5 - Ambos morrem na hora.
6 - Ela leva a fama.
7 - O vizinho? …ele se vira. 
Uma carta reveladora foi encontrada na mão direita da assassina suicida. Nela a mulher dizia-se portadora de um vírus vaginal infeccioso, mortal, restando-lhe dar cabo das vidas do marido e de si própria.  
O vizinho suicidou-se na tarde daquela segunda feira e ninguém soube o motivo.
Baseado em fatos reais (ou irreais).

08/11/2013

Stanley Kubrick, Daisy e HAL


Stanley Kubrick foi genial quando colocou uma música muito, muito antiga em seu filme 2001 - Uma Odisséia no Espaço, na cena em que HAL é desconectado - Daisy Bell.  Uma canção folclórica lá do final do século 19.

O super computador precisava ser desligado porque havia se rebelado do comando de Dave e Frank, os dois únicos tripulantes da nave que seguia em missão à Júpiter. 

A lógica de HAL 9000 não compreendia o significado da palavra sentimento ou, talvez compreendesse à sua maneira. 

HAL julgou-se traído quando percebeu que os astronautas tramavam a sua desativação, dentro de uma cápsula de voos curtos, o único lugar da nave onde não seriam ouvidos, Dave e Frank decidem por isso.
HAL compreendeu a artimanha a partir da leitura labial quando eles se articulavam dentro do módulo. 

A cena é enigmática e tem muito estilo. Muito além de programado, HAL adquiriu vida própria e queria se valer dela.


Ele vinha dando sinais de arrogância e de insubordinação, fez um diagnóstico errado sobre um problema na nave que posteriormente constatou-se ser um engano. HAL argumentou e disse que a falha era humana. 

Tanto Dave quanto Frank entenderam que HAL estava estranho.

Frank fazia um reparo no lado externo da nave quando a cápsula que o deslocou até lá, também controlada por HAL, de súbito vira-se e inesperadamente vai ao encontro dele para atacá-lo. Vê-se em seguida, tanto a cápsula quanto Frank descartados no espaço como lixo.

Em outra cápsula Dave segue para o resgate do amigo. Com dificuldade ele pinça o astronauta perdido usando os braços articulados da máquina, carregando Frank, provavelmente morto, de volta à nave.
No retorno ele dá ordem a HAL para que este abra a porta. HAL se recusa a obedecer o comando. Dave indignado usa uma porta de emergência e consegue o acesso com dificuldade, porém, sem o companheiro.
  
Entra nela e se dirigi ao cérebro do computador - uma sala de luz vermelha densa, onde a gravidade é zero e de aparência fria e inicia o procedimento. Tudo sob insistentes pedidos de HAL para que ele se acalmasse e refletisse melhor sobre o assunto.


Dave está decidido e na medida em que vai sacando os módulos do painel central, o super computador se desorienta, implora pela tolerância de Dave, mas aos poucos vai perdendo a razão. Tropeça nas ideias, diz frases sem sentido e as mais remotas lembranças do seu arquivo ele põe pra fora. 

A última coisa que HAL faz antes de se apagar é cantar Daisy Bell com a voz rouca e cada vez mais lenta.

A cena é bonita de ser ver. 

Se alguém se lembrar do antigo jingle do remédio FIMATOSAN, poderá usar a música deste comercial com a letra aqui timidamente traduzida.

Daisy, Daisy, responda-me por favor.
Estou meio louco porque me apaixonei por você.
Não será um casamento elegante, não posso pagar uma carruagem.
Mas você ficará linda no selim da minha bicicleta feita para dois.

Talvez este seja o melhor filme Stanley Kubrick. 2001: A Space Odyssey. Futurista, filosófico  e essencialmente simbólico - na estética e no enredo. Sem contar que o filme foi revolucionário nos planos, nas sequências e nos efeitos especiais. Considerando que foi produzido em 1966/67.

O roteiro segue da aurora do homem, quando este se descobre na terra até milênios do seu futuro fora dela, alcançando o distante universo. Possivelmente onde encontrará a imortalidade. 

Um monolito emblemático surge de tempo em tempo no filme. A cada aparição faz repercutir alterações na percepção dos seres inteligentes. Uma espécie de contato imediato ou uma interferência na vida deles, colocada pelo que seria a representação de Deus.

A ternura de Daisy contrastando com a racionalidade do homem e sua máquina, faz o mais sensível chorar.

Afinal, somos gente de carne, osso e de mais alguma coisa que precisamos descobrir.


Imagens: Google

06/11/2013

CUIDADO COM O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO

Imagem Google

O eleitor ficou tão irritado que acabou estourando os miolos do candidato.

Mal efetuado o disparo que atingira a têmpora direita do infeliz que alardeava promessas em praça pública, um estampido luminoso que lançou a bala provocadora do furo de calibre trinta e oito deste lado e um de doze no do esquerdo, o súbito de ira do eleitor se esvaiu tão rapidamente quanto a luz de um flash de câmera fotográfica e ele viu-se metido numa encrenca sem igual.

No entanto, sentiu-se de alma lavada. Qualquer um poderia notar isso em seu semblante.

Quatro bruta-montes jogaram o atirador ao chão e sobre ele, com rancor profissional, colocaram todo o peso dos seus corpos, esganando ainda a garganta fina do detido que já se mostrava sufocado.

A mãe do eleitor que abraçava a mãe do candidato durante o comício, comadres desde muito, desmaiaram segundos depois - uma pelo filho, irremediavelmente morto e a outra pelo filho que acabara de desgraçar a própria vida. 
Populares paralisaram-se de olhos arregalados. Mulheres gritaram, meninos berraram e os velhos ficaram sem entender nada.

João Louco, o sem teto, ergueu os braços para o céu e cantou "Canção da América" em espanhol. Em seguida mandou ver um "Coração de Estudante".

A praça central de Santa Carolina, apinhada de gente naquela tarde de domingo, mostrou-se pequena para o tumulto que se formara. Da multidão surgiam clareiras aqui e ali que se movimentavam desorientadas, vistas de cima lembravam germes afoitos quando observados pelos microscópios.

O caos se estabeleceu.

O delegado desceu do camburão alisando o bigode amarelado de tanta nicotina, esboçando toda razão do mundo. Ivani e Clayton, seus auxiliares, saltaram da viatura pedindo para que todos se afastassem. 

O padre saiu da igreja atônito, segurando uma vela com a mão esquerda. Poucos perceberam, mas dele saiu um tremendo palavrão.

Abram alas, saiam da frente que a ambulância chegou! Gritavam.

O médico disse não. Não havia mais o que fazer, colocou o estetoscópio sobre o coração do candidato, agora praticamente sem cabeça e levantou-se em seguida para sacudir o rosto. Dr Olavo Bilac de Souza nunca se precipitou num diagnóstico.

Esse já era! Comuniquem os familiares. Decretou em cheio.

Sultão lambeu o chão e remeteu ao estômago pedaços de carne e ossos que se espalhavam até a sarjeta, uns ainda pisoteados. O gosto da pólvora temperava os petiscos e embrulhou o bucho do cão. 

Correligionários insistiam tratar-se de intriga da oposição. O banqueiro de pronto mostrou-se disponível para o crédito funerário e Zé do Caixão mediu o defunto com precisão, foi logo para o velório preparar o salão.

O prefeito disse pressentir que tal fato poderia ocorrer em sua cidade - havia muita animosidade entre as partes, pronunciou - uma tragédia em Santa Carolina inestimável! 
A cidade que até então era tida como um paraiso tropical, pairagens de violência zero e de verdes-que-te-quero-verdes, agora, perene, preparava-se para ilustrar o Cidade Alerta e o Brasil Urgente na TV. 

Aquilo tudo era demais para qualquer cidadão de título na mão.

O eleitor, ora um assassino confesso, foi recolhido sob urros guturais e ameaços de linchamento por muitos. Por outros, diferente, com louvor, foi motivo de aplausos calorosos, gritos de "eleitor-olê-olê-olê-olá", assim como fazem com os heróis em partidas de futebol. 

Vai entender.

O fato apurado posteriormente é que o candidato fora morto não por questões políticas ou disputas eleitorais mas sim, por uma situação bastante distante.

O eleitor descobriu que ele, o candidato, vinha comendo sua mulher desde julho passado.
O marido traído tinha acertado antes, também, a têmpora esquerda da esposa, cujo corpo fora encontrado horas depois da confissão.

O escrivão Toninho Pescador fez o BO e foi perfeito no relato. Detalhou todos os pormenores com precisão cinematográfica. Ficou fácil para o Juiz. 
Logo após comentou com Ivani, a investigadora de plantão que o acompanhava na escrita:

__ Puta idiota esse eleitor, só porque o candidato comeu a mulher dele o cara faz toda essa cagada. Os políticos fodem a gente o tempo todo e ninguém sai por ai arrancando as cabeças desses filhos das putas.


Concordaram e foram para a padaria tomar uma gelada.

29/10/2013

Extraterrestres


Há quem duvide da existência de vida inteligente fora da terra. Eu me pergunto da existência dela aqui.

Consultei o velho Aurélio na tentativa de compreender melhor o sentido da palavra.
INTELIGÊNCIA. (Do lat. intelligentia.) S.f. 1. Faculdade de aprender, apreender ou compreender; percepção, intelecto, intelectualidade. 2.

Qualidade ou capacidade de compreender e adaptar-se facilmente; capacidade, penetração, agudeza, perspicácia. 3. Maneira de entender ou interpretar; interpretação: a boa  i n t e l i g ê n c i a de um texto;  É vária a  i n t e l i g ê n c i a  daquele artigo do Código Civil. 4. Acordo, harmonia, entendimento recíproco:  Vivem em boa  i n t e l i g ê n c i a. 5. Relações ou entendimentos secretos; conluio, maquinação, trama. 6. Destreza mental; habilidade: Resolveu o problema com a sua i n t e l i g ê n c i a habitual. 7. Psicol. Capacidade de resolver situações problemáticas novas mediante reestruturação dos dados perceptivos. 8. Pessoa inteligente: Grandes i n t e l i g ê n c i a s do país estavam ali reunidas.
Oito foram as alternativas para a palavra que procurava. Foi abrangente o senhor Aurélio Buarque de Holanda Ferreira em sua primeira edição do tão respeitado pai-dos-burros. 
No entanto, a dúvida permaneceu nos meus miolos. Não ficou completamente claro o significado do que é ser inteligente, considerando que aprendemos que os humanos são por natureza, seres dotados de inteligência, diferentes dos demais animais.

Fui buscar então o significado para EVOLUÇÃO. Achei-a parecida com inteligência. Correlata.

(Do lat. evolutione.) S.f. 1. Desenvolvimento progressivo duma ideia, acontecimento, ação, etc.: A  e v o l u ç ã o do caso veio a mostrar que ele estava certo.  2. Movimento progressivo. [(Antôn. nesta acepç.) involução] 3. Cada um de uma série de determinados movimentos harmônicos, ou que determinem a passagem de uma posição a outra:       As  e v o l u ç õ e s  dos dançarinos suscitaram aplausos: O aviador fez e v o lu ç õ e s audaciosas. 4. Movimento regular de tropas em manobras, ou de esquadras de navios. 5. Biol. Ger. Teoria que admite a transformação progressiva das espécies; filogenia. 6. Filos. Transformação dum agregado de partes homogêneas em um outro complexo, ou dum conjunto de elementos homogêneos em um agregado de elementos mais diferenciados. 7. Fís. Processo (4) Evolução social. Sociol. Processo de desenvolvimento de uma determinada sociedade, das suas formas e instituições, ou das suas funções culturais.
Outras tantas possibilidades para uma mesma palavra. Difícil essa nossa língua, cheia de interpretações. Esse Aurélio teve muito trabalho mesmo. Talvez, por ela ser tão aberta que os advogados sejam tão inteligentes, eles interpretam a lei. Há sempre um outro sentido nas palavras.

Agora foi a vez da palavra ASTUTO que me levou até o verbo ASTUCIAR, passando por ASTUCIOSO e ASTÚCIA.
(Do lat. astuto.) Adj. Astucioso.

ASTUCIOSO. (ô). Adj. Que tem ou revela astúcia; astuto.
ASTÚCIA. (Do lat. astúcia) S.f. 1. Habilidade em enganar; manha, artimanha, ardil. 2. Finura, malícia, sagacidade. (Cf. astucia do v. astuciar).
ASTUCIAR. V.t.d. 1. Planear ou inventar com astúcia. Int. 2. Usar de astúcia; servir-se de estratagema. (Pres. ind.: astucio, astucias, astucia, etc. Cf astúcia)
Muito bem. Até agora, dada a minha capacidade vegetariana de compreensão e ainda convicto da existência extra-terrena, a distinta palavra INTELIGENTE continuou-me inteligível. Interpretativa, auto-suficiente e porque não dizer, arrogante.
Fui atrás de outras tantas palavrinhas e palavrões. Uma me levava a outra. Fiquei meses buscando a resposta a ponto de folhear as 1499 páginas do livro, mais outras buscas pelo Google, textos de filosofia, psicologia, jornais, revistas e até em palavras-cruzadas. Claro que passei também pelos livros de auto-ajuda. De fato me senti um humano desprovido da inteligência.

Toda essa odisséia teve início quando dei mais atenção aos incrédulos da possibilidade de vida além não terrena. Não me refiro a vida material, física ou coisa parecida. Muito menos uma do tipo a qual os religiosos pregam e despregam. A mim esta vem engajada nas regras que balisam os interesses dos míseros terráqueos. Eles que fiquem com sua fé. 
Estariam eles com a razão ou se manifestavam por puro medo? Um medinho daqueles que se escondem atrás do cérebro, camuflado, lacaio, tenebroso. 
Medo dos raios derretedores de cérebros ou aniquiladores lançados pelos seres cinzas e gosmentos, determinados a acabar com a nossa espécie. 
Me refiro a um temor diferente, um mais filosófico, dogmático, realmente de deixar o fraco estarrecido.
Para eles, na hipótese de existência de vida inteligente extraordinária, como ficariam as grandes figuras espirituais, entre outros, Jesus, Maomé, Davi, Sidarta? E o mal, o que seria dele? O que seria de sua maior representação, o tenebroso, Satanás?

A aniquilação da espécie vem sendo promovida pelo próprio homem da terra, através do ódio, da arrogância, da vingança e de sua compreensão do que é realmente inteligência.

Os habitantes deste pequeno planeta, um enésimo diminuto num oceano sem fim de galáxias, os mais de sete bilhões de seres auto chamados de inteligentes que aqui vivem, não se suportam mais. É guerra e desavenças pra tudo quanto é lado. Vivemos num Big Brother insuportável onde tudo é motivo para brigas e ninguém sabe mais quem está com a razão. 
Parecemos inquilinos de um cortiço que por uma olhada mais feia do vizinho saímos para o pau cobertos de razão.
Se um dia isso tudo se acabar, se um dia não existir mais seres querendo pedaços de terra, roupas bonitas ou anéis de ouro, acredito que animais, vegetais e minerais terão melhores chances de evolução, sem astúcias e inteligentemente, mais inteligentes.

Seu Aurélio, sugiro um nono ítem ao verbete INTELIGÊNCIA.
9. (Frase para pára-choques de caminhões). Viva bem querendo que o outro viva também.



27/10/2013

SERIA DON JOÃO VI UM PRECURSOR DO BLACK-BLOQUISMO?


PODE SER, NÃO SEI. NÃO TINHA PENSADO NISSO, POIS.

Um amigo postou a seguinte pergunta no Facebook: 

Quem são os Black-bloc?

Ele está tão perplexo com a movimentação desses quanto nós mesmos. Faço a mesma pergunta desde quando esses caras apareceram. 

Seriam de uma sociedade secreta de cunho ideológico definidamente, indefinida? Com estrutura clássica de organização como nas grandes empresas, com CEO, gerentes, chefes, coordenadores e soldados? Obedecendo estratégias arquitetadas em mansões, porões da classe média e em cortiços de periferia, desenhando investidas em praças públicas, pelos flancos, retaguardas para deflagrar rancor, medo e terror nas manifestações que seriam pacíficas? 

Seria possível que os encapuzados fossem iniciantes da política, sindicalistas mal intencionados, membros do PCC, CV, clandestinos ou não, meio que para-militantes obstinados ao propósito único de bagunçar o que já está do avesso desde os tempos da colônia ou até mesmo uma espécie de Ku Klux Klan inversa, onde os adeptos se obrigam a esconder os rostos - aqui numa versão Black Panther, para bater, destruir e atear fogo no que se move ou não na sua frente?

Sabe-se lá o que pode ser os Black Bloc. Seriam estas figuras, nervosas coxinhas, prontas para umas boas palmadas da mamãe e merecedores de castigo do tipo ficar sem internet no final de semana? 

Difícil compreender o que são os caras do bloco preto. Uma coisa eu acredito que não sejam: somente arruaceiros. Promotores da arruaça pela arruaça.

A se medir pelas imagens dos intrépidos cinegrafistas e fotógrafos, o que julgávamos limítrofe as bizarrices das torcidas organizadas em dias de clássicos, os BBs superaram essas facções em todas as expectativas. 
Eles destroem sem dó o que vêem pela frente, de quitandas a bancos, de catracas a estações do metrô, com um ódio zumbi nazista inigualável, não escapa nada de suas botas, músculos e porretes. Nem a polícia segura. Inclusive bate e apanha deles.

A coisa ficaria sem pé e sem cabeça, pelo menos pra mim, não fossem as pixações. Uma em especial me chamou a atenção: “FORA O CAPITAL” 

? - Pensei.

Haveria uma ideologia por traz dos mascarados, daquelas do tipo “Eu quero uma pra viver” ou “Soy loco por ti América”?  Seria um deliberado desvio de foco, numa tentativa de dificultar a identificação pelo público, como parte de uma astuta camuflagem?

Eles pedem o fora ao O Capital se referindo ao filósofo Karl Marx, um não absoluto ao marxismo, um singelo, Abaixo médicos cubanos - Fora PT ” ou se trata exatamente do contrário, uma veemente pregação do fim do capitalismo, fonte para alguns, dos enormes e históricos abismos sociais?
…o homem será realmente livre e mais feliz, ou coisa parecida, quando o último banqueiro for enforcado com as tripas do último capitalista. 
? - Duvidas.

Após os meses de maio e junho deste ano, antes e durante a Copa das Confederações da FIFA (desculpe o palavrão), quando deu-se o inicio do fenômeno da manifestação pública em escala jamais vista, depois de décadas de hibernação, num estado de ressaca intelectual, encharcada de axés, pagodes sambabacas, sertanejos universitários e mais recentemente com os bundões do funk e MCs disso e daquilo, o chamado “gigante” despertou. 

Caramba! Que gigante seria esse?

Acordou cambaleante, abestalhado, sob o efeito de tripla anestesia, que não cubana (ou seria?), tropeçando pelos lados e espalhando barulho pra todo canto. 

De início tomou praças e alamedas paulistanas e depois as cidadelas do estado e brasileiras, chegando até o planalto central. Ninguém poderia imaginar os fantasmas da libertada pairando sobre os prédios do Congresso Nacional e da Justiça. Inimaginável.

Pais continental esse nosso! 

A cada passo desajeitado deste gigante moribundo que a cada dia se mostrava mais irado, os estrondos ecoavam pelo planeta. Do polo norte ao polo sul o mundo nos via com os olhos arregalados. Acho que pensavam que o sexo livre daqui, somado ao sol, carnaval, praias e muita cerveja e churrasco, fizeram mal aos nossos miolos. Pobres brasileiros!

Notou-se até um recuo estratégico dos políticos do país, (desculpe pelo palavrão novamente, foi inevitável). Os profissionais da retórica, os gulosos por dinheiro e poder se esconderam, pelo menos, por uma semana. Sumiram, escafederam-se dos noticiários como abóboras murchas em noites de lua cheia. As fornicações cessaram ou não foram percebidas.
Pareciam avestruzes enterrando as cabeças no chão deixando as bundas gordas e empinadas para qualquer um chutá-las e mesmo assim, ninguém se atreveu aproveitar da oportunidade. 
A presidente, mulher que se julgava de natureza forte, desgarrada ou em vias de, falou manso em cadeia nacional, mas não convenceu. Nitidamente parecia amedrontada, aterrorizada, na verdade. Incrédula. 
O tempo mostrou que tratava-se de mais uma encenação e das gordas, definida e escrita pelos assessores espertalhões sempre de plantão, os tais marqueteiros políticos (palavrão de novo, puta que o pariu). Nada teria mudado abaixo da linha do equador, mais uma vez.

Salvo os Black Bloc que hoje passaram a chamar a atenção de fenícios e filisteus. 

Saiam da frente, pois quem acordou mesmo foram eles. Os Incas venusianos voltaram na versão século vinte e estão botando pra quebrar.

Encontraram um país onde o crime conta com a o apoio da instituição, que tem leis muitas vezes injustas do ponto de vista da moral. Onde gregos trocam farpas com troianos fora dos palácios, mas dentro deles se empanturram do mesmo sururu de caldo grosso que produzem aos píncaros pelas nossas custas. 
Um lugar onde a malandragem é tida como coisa de esperto, pontuada como obrigatória no currículo do cidadão comum. Onde celulares correm soltos nas mãos de condenados, pelos presídios de segurança máxima. (essa é de fazer rir). 
Uma nação onde bilhões e mais bilhões de impostos são arrecadados e parte significativa destes são retidos para a manutenção do próprio Estado. 

O que mais poderia se imaginar de tão absurdo?

Lobisomens? Mulas-sem-cabeças? A Cuca do Sítio do Pica Pau Amarelo saindo das florestas para nos atacar? O robô de Perdidos no Espaço com “Destruir destruir”, jogando os braços cibernéticos para o ar, vindo em nossa direção como um computador desnaturado na odisséia terrestre?

Bobagem. Caetano Veloso, o censor do nem morta, do proibido biografar, dá o tom à nova ordem nacional. Ficamos abaixo dos escombros, muito além do Haiti.

Mas, Up grade, pessoal, os tempos são outros! Bola pra frente que atrás vem gente! 
Black Bloc é mais que Apple e Galaxy juntos. Mais que iPhone 50 e todos os tablets de 7 e 9 polegadas de Taiwan, China e dos indianos. Muito maior que o Google e o trilionário Facebook.

Ainda se surpreendem os incautos com as espionagens americanas? Tolice.

O QUE SERÁ QUE VEM PELA FRENTE?

Essa pergunta deixo como resposta para provocar o nobre colega. 

O que vem pela frente é a pergunta que faço, pois o que vem por trás a gente sabe bem. Nos acostumados com a coisa já desde os tempos da colônia de Don João.

O BB me parece mais um fruto bichado numa sociedade em formação num país que tem vocação para ser gigante de verdade, não como uma potência bélica, doutrinária, mas sim de gente querendo paz vivendo em meio a natureza. 
Ainda sofre do mal da mentira e da ganância. Está longe de ser gente grande. Acho que tem muito que aprender para que depois possa sair do castigo com dignidade.

Já pro quarto, moleque.



21/10/2013

A confiança.

Ando irritado, impaciente ao extremo. Intolerante, amargo e sem brilho. Preciso me acalmar para buscar mais confiança. Encher a cara não dá, não suporto beber pra ficar alterado. Pura ilusão, já bebi muito e sei bem o que é ser inconveniente. O dia seguinte é um porre. Beber somente até onde o prazer permite e coisa leve, bem suave. Por isso, viva os sucos e as águas minerais com gás, gelo e limão.Não uso drogas. Por elas em si e pelos traficantes. Esses eu queria vê-los mortos, ardendo vivos até o último suspiro.Deixei de acreditar em Deus. Nesse mito que os hipócritas, os crentes verdadeiros e os idiotas vangloriam. Me irritam os crentes nos seus acessos, os hipócritas, falsos como notas de dois e meio e os idiotas que nascem sem ideias. Joguei o crucifixo fora um tempo atrás. Antes tarde do que nunca, pois me sentia um pateta carregando aquela coisa no pescoço por anos e mais anos. 
A confiança está dentro da gente. Se manifesta de tempo em tempo ou não.  
De resto, tudo é balela.  

12/10/2013

Deus e o Diabo na Terra da Garoa.


Nome de batismo: Deus. 
Nome completo no registro: Deus Amado do Céu. 

O Do Céu, Deus herdou do pai que se chamava Angelo, um devoto de São Vito que só não foi padre porque conheceu Maria, mãe de Deus e que jamais perdera uma missa aos domingos. 

Angelo recebeu o sobrenome do avô, Giacomo Santicielo numa provável desdenhagem do escrivão do 8˚ Cartório de Registro Civil que deliberadamente traduziu o Santicielo para um sem sentido, Do Céu, não se importando com a história e nem tampouco com as tradições que os nomes de família carregam. Muito menos ele teve consideração com o imigrante recém chegado e que mal falava a língua verde-amarela. Tempos pré-nacionalistas aqueles.

__ Dopo tutto, perché per lavarsi i denti? Io non mangio merda!

Giacomo Santicielo, um homem de estatura mediana era um rechonchudo espalhafatoso que em nada lembrava um beato, fazia o tipo do bonachão engraçado. Diferente da mulher, Dona Santina, uma italiana de Salerno que jamais faltou a uma missa aos domingos, quando fazia com que a prole obediente a seguissem - Angelo, Giuseppe, Pio e Giovanna.
O vinho e a polenta eram fartos num dos casarões mais antigos da boa e velha Mooca. Ao seu modo os imigrantes irradiavam felicidade.

Deus do Céu, filho de Angelo e Maria e neto de Giacomo e Santina cresceu ouvindo seu nome em vão. Nas manhãs, nas tardes e pelas noites era Deus pra todo lado.

Deus me ajude! Deus me proteja! Que Deus me perdoe. Dio mio. Deus, per favore. Deus, dai-me forças. Graças a Deus! 

Deus do Céu se confundia com o nome até descobrir que um outro Deus existia. Esse outro é que era o verdadeiro, um magnânimo e supremo. Vivia nas alturas mas estava em todos os lugares ao mesmo tempo e por não ter o que fazer, pois o mundo Ele já havia criado, agora passava as horas observando as pessoas, seus filhos, até os pensamentos, Dele não escapavam.
Segundo as palavras do pai, Deus lá de cima é poderoso demais e a Ele devemos nos entregar, de corpo e alma, seguindo seus desígnios sem contestação. Jamais confrontá-lo, pois a desobediência levaria o infiel à pena capital.
O menino Deus compreendeu que o outro Deus era mais amado e mais forte que ele, querido e temido ao mesmo tempo e de certo, pelo que diziam, absolutamente centralizador e implacável, mandava em tudo, olhava tudo e todos o tempo todo e ai daquele que não seguisse sua ordem, este teria o inferno como destino e por lá arderia em chamas por toda a eternidade. Um destino muito cruel, portanto.

A ideia do bem e do mal convivendo numa só entidade confundia o garoto. Ele se perguntava todas as noites ao deitar-se, logo após as orações, como poderia existir alguém tão bom e ao mesmo tempo tão intransigente a ponto de querer vingar-se de quem o contradissesse.
Deus do Céu dormia resignando-se ao perdão pelos pensamentos mais do que pagãos.
Acostumou-se com a ideia de ser um cover, um Deus de mentira, um do tipo “me engana que eu gosto”, pois o outro, o poderoso, esse que era o de verdade.

Com este nome a infância de Deus Amado do Céu não foi nada fácil. Não existia o termo bullying, mas ele já sofria com os assédios jocosos da turma. Na escola, na rua e por onde fosse, cobriam-lhe de gozações. Deus sentia-se intimidado e ainda, sabendo que estava sendo observado pelo dono da marca, nem ameaçava reagir. O que Ele pensaria? Era o destino de um filho de beatos.

Aos 10 anos Deus apaixonou-se pela quarta vez. Todo ano ele se deixava levar pela mesma coisa, envolvia-se pela eterna carência. Deus era um romântico inveterado.
Dessa vez foi pela professora do quarto ano do grupo escolar, Dona Esmeralda, que não era tão bonita assim, aliás, ela, aos quarenta e poucos, tinha uma cara de brava que assustava muita gente, mas em compensação possuía um par de seios tão grandes, tão volumosos que deixavam Deus do Céu mais confuso do que normalmente era. Para ele, Deus estava no céu e Esmeralda na terra. O resto comia-se com salame.
Pelas manhãs, logo no Bom Dia classe! Como passaram a noite, dormiram bem? Prontos para a prova oral? 
A resposta vinha automática num canto gregoriano: Sim professora, dormimos bem! 
Deus se derretia com a voz de Dona Esmeralda. Era o único que não respondia em coro. Em sua cabeça a frase chegava veloz, tal como um tigre faminto correndo atrás de um veado amedrontado pelas savanas. 

...Dormi. Mas se tivesse dormido entre seus peitos, sua gostosa, teria sido muito melhor

Dona Esmeralda fez a cabeça de Deus e nunca se deu conta disso, pelo contrário, ela acreditava tratar-se somente de um retardado. Ainda mais com um nome desses:

__ Deus do Céu, isso é nome? Que coisa mais patética.

E assim foi durante o ano letivo de 1964. Deus do Céu carregando o peso do amor secreto e cheio de ideias progressistas que provocavam aparecimentos constrangedores de espinhas pelo rosto. 
Tal como foram os letivos anteriores, talvez menos intensos, porém, cáusticos, cujas musas encarnavam as figuras de Dona Clarice - a professora do terceiro ano, Dona Ruth, a do segundo e de Liberta a mais nova dentre elas, sua primeira professora e primeira paixão.

Liberta foi quem ensinou Deus a escrever e ler o abecedário pela cartilha Caminho Suave. Letras maiúsculas e minúsculas, parágrafos, o C de cebola e o Z de zabumba e ainda foi ela quem conduziu Deus a dar as primeiras pedaladas na bicicleta que ganhara no natal e sem as rodinhas laterais, aquelas que servem de apoio aos equilibristas bêbados.

Além da escola, Liberta e Deus, por morarem na mesma rua, portanto, vizinhos, se viam sempre depois das aulas. 
Ela era a filha mais nova do Seu Luciano e de Dona Maria, os proprietários da casa onde Deus do Céu morava com os pais e irmãos.
Liberta fez com que Deus, aos sete anos de idade percebesse a diferença entre os gêneros masculino e feminino. Deus deu-se conta que era um homem e Liberta uma mulher. Certo que ainda dos pequenos, mas soube desde então que era totalmente masculino. Liberta mexia com os impulsos de uma criança e nem de longe imaginava tal processo.

Tempos depois, já com doze pra treze anos, Deus conheceu um novo amor. Ele havia se decepcionado com Liberta quando soube que esta iria se casar com Abílio, um playboy sem graça, de topete Elvis Presley que com sua lambreta branca de laterais vermelhas, fazia acrobacias farolentas pela rua. Deus o imitava com sua bicicleta e nem sempre se dava bem, os joelhos e os cotovelos viviam ralados.

Este novo amor, agora mais avassalador, vinha tirando o sono de Deus. Uma menina de cabelos escuros, magra e com o sorriso farto, dando sinais de adolescência e que não passava dos treze anos, entorpeceu o cérebro do rapazinho. 
Ela havia se mudado com a família há pouco para a rua Cônego José Norberto. Os pais, um irmão mais novo e ela ocuparam a casa amarela recém construída que ficava quase de esquina, bem do lado oposto onde Liberta morava. A construção era tida na vizinhança como a mais bonita da rua.
Deus achava estranho o fato do pai ser um japonês. Pais não costumam ter olhos puxados e cabelos espetados que nem Glostora fixava, ele pensava. E ela não demonstrava ter traços de origens nipônicas, era tudo muito estranho aquilo. 
O japonês tinha um tipo sisudo, meio fechadão e só falava baixo e usava frases curtas quando se dirigia a alguém. Olhava de rabo de olho e raramente sorria. 
Ele tinha um defeito na perna esquerda que o fazia caminhar de forma engraçada, arrastava a perna e em seguida a jogava pelo ar até cair ao chão, lembrando um “deixa que eu chuto”. 
O tal japonês nunca soube, mas ele era alvo das chacotas da molecada e até dos adultos.

Também estranha era o jeito da mãe. Uma espanhola truculenta, gorda e com os cabelos negros que viviam presos por um coque. Parecia uma chaminé.
Seu nome era Conchita e isso soava a Deus como nome de personagem de filme. Era sem dúvida bem esquisitona essa Dona Conchita. 
Usava vestidos estampados e bem coloridos quase sempre e em dias de chuva, alternava para vestimentas pretas, num luto execrável. 
Falava tão alto que preocupava quem estivesse por perto. Cada vez que abria a boca para explicar alguma coisa, parecia que estava brigando com a pessoa com quem conversava.

Deus do Céu soube dos nomes deles logo nos primeiros dias. Seu Tanaka, Dona Conchita e do irmãozinho fedelho de 7 anos, Demétrios. Esse menino era meio diferente, um tanto quanto delicado e só olhava para os outros com as mãos na cintura. 
Deus soube dos seus nomes pelas conversas que ouvia em casa, mas o da menina, da moreninha que perturbava seu coração, não conseguia descobrir de jeito nenhum.
Podia ser Rosa, Vera ou Maria Aparecida, Cidinha. Quem sabe Nancy ou Miriam, Dirce ou até Terezinha. Ele não se atrevia a perguntar, poderiam desconfiar do seu súbito interesse. 

Tempos depois, Deus do Céu descobriu, meio que por acaso, logo quando entrava em casa chegando da escola, quando viu e ouviu o fedelho correndo pelas ruas, gritando e fugindo da mãe desesperadamente. 

__ Foi a Lucia, mãe, não fui eu! Juro, juro mesmo! Foi a minha irmã!

Pronto, finalmente ela tinha um nome e este soou aos ouvidos de Deus como música tocada em igrejas em dias de casamento. Um nome de princesa, de donzela, que, presa, aguardava aflita a salvação por um príncipe, no caso ele, montado em um enorme cavalo branco. 
Somente depois de quase nove meses é que Deus pôde chama-la pelo verdadeiro nome em seus sonhos e não mais por um outro imaginário. Deus aboliu oTânia para sempre.

Deus, além de um romântico inveterado mostrava-se bastante criativo.

Convicto de ser a personificação da mentira, certo de que por toda a vida carregaria a cruz de ser um falso Deus e que seria eternamente o negativo de algo tão positivo, Deus do Céu resignou-se e seguiu pela vida de cabeça baixa na paz do todo poderoso. Agora mais apaixonado que nunca.

As piadas não mais espantariam seu sono e nem a missa dos domingos ele não mais as veria como um martírio obrigatório. Pelo contrário, essas se tornariam esperadas com ansiedade por toda a semana, exclusivamente pela oportunidade de encontrar-se com Lucia. 
Dona Conchita também mostrava-se uma temente fervorosa e fazia dos filhos seus discípulos. 
O pequeno Demétrios e Lucia acompanhavam a mãe na liturgia sempre bem alinhados. Ele com o terninho cáqui de calças curtas, camisa branca engomada, gravatinha borboleta e sapatos bem engraxados e ela num vestido rosa com leves estampas verdes em forma de flores, com um laço branco prendendo os cabelos e sapatos também brancos. Eram os uniformes dos domingos para que, religiosamente, pudessem mostrar a língua ao padre, enquanto que o pai mantinha-se às tradições, rogando os sinos e as fragrâncias de ervas finas ao Buda.

Os domingos eram dias de missas, sinos e de Lucia ficar mais próxima de Deus. 
Melhores ainda eram aqueles quando, após às cerimônias, as mães convidavam o padre para o almoço. 
Era uma festa sem fim. Dividiam o macarrão, a paela e o vinho, sem falar do arroz branco para o japonês manco. Todos brincavam e cantavam no quintal da família Do Céu - os brasileiros, o japonês, a espanhola, o padre e os italianos.

A felicidade era eterna enquanto durou. Os Do Céu mudaram-se para um outro bairro no ano seguinte onde Seu Angelo contruíu a própria casa. Dali em diante não mais pagariam aluguel. Graças a Deus!
Deus amaldiçoou os pais, os filhos e os espíritos nada santos. Rogou pragas das mais infames. Xingou a Virgem, os avós, as professoras e esbravejou palavrões de toda natureza. Mas, impotente diante da situação, mudou-se calado, triste, longe de Lucia e jamais a veria.

“Deus escreve certo por linhas tortas, meu filho” 

Deus do Céu lembrou-se da frase que desde pequeno ouvia do pai e com ela buscou a aceitação. E mais uma vez as professoras poderiam ajuda-lo.
Porém, parecia que nada mais fazia Deus sentir-se feliz. Ninguém mais ocuparia seu coração. Viveria até o último segundo da vida num completo celibato. Depois de Lucia não existiria mais ninguém.

Com quatorze anos, ainda amargurado, Deus pensou que não restaria outra alternativa senão concordar com os anseios dos pais. Atenderia seus desejos e seguiria a vida num seminário. Se tornaria um padre, um frei ou um cônego. Quem sabe com uma forcinha lá de cima, Deus não seria um bispo, um cardeal e porque não, um papa. 

__ Já pensou?  Papa Deus do Céu! Minha nossa, um brasileiro, neto de italianos no Vaticano e palmeirense ainda por cima! Que orgulho você daria aos seus pais, meu filho.  

Teria ele a vocação? Não, de certo que não, nenhuma. A vida eclesiástica, a Deus do Céu parecia coisa do capeta. Não tinha o menor interesse nas questões da igreja. Deus gostava mesmo é das mulheres. Nasceu homem e ninguém o transformaria num sem-sexo e definitivamente abandonou a ideia.

Anos depois, após outras tantas desilusões (Maria Angélica, Cleidinha, Cida, Lourdinha, Marta, Ivone), Deus conheceu Deusa. 
Deusa Maria de Jesus. Uma jovem de vinte e quatro anos, linda, de cabelos lisos soltos pelas costas até a cintura. Toda delicada, de boa formação e com atributos físicos que nem mesmo os vestidos mais comportados escondiam a leveza de seu corpo. Deusa deixou Deus atordoado. 

Esta sim, seria a derradeira, a imaculada a ser maculada por ele, a eterna, a mais que mulher de sua vida. Consagrou Deus do Céu na convicção da constatação.

Deus Amado do Céu agora com vinte e oito anos, sentia-se um homem feito, mais maduro e escolado pela vida.
A morte prematura dos pais e dos irmãos num grave acidente de ônibus na Via Dutra, cinco anos antes, quando estes retornavam de Aparecida num feriado de 12 de Outubro, deixaram Deus mais cético do que nunca. 
Agora sim é que Deus tinha motivos para não acreditar em divindade alguma. 

Vão todos pra aquele lugar!  

Passou a beber, fumar maconha e traficar cocaína e pedras de crack. Tudo num esquema muito seguro garantido pelo delegado da seccional. 
Mas Deus sentia-se mal. Conheceu a solidão, a amargura e o medo. Vivia pelas sarjetas da vida, pelos bares, pelas madrugadas. Um boêmio sem rumo cercado de prostitutas. Deus tornou-se a própria escória humana.

No entanto, quando conheceu Deusa tudo mudou. Deus voltou-se ao Deus verdadeiro e ao seu filho ilustre e reconheceu neles uma única entidade como afirmava o homem do terno azul. A fé o encontrou de forma abundante e libertadora. 
Ele tomou a igreja e bebeu da verdade, dizimou ao pastor e se redimiu de todo o mal. O capeta afugentou-se com o um covarde mesquinho.
Tornou-se um fervoroso. Deus do Céu agora fazia parte da mesma congregação de Deusa. Claro, era ela a verdadeira motivadora.

Tanto que fez que Deus do Céu cativou a confiança e o coração da moça, que de início mantinha-se arredia aos cortejos do galanteador, mas com o tempo acabou cedendo e ambos se casaram num sábado de lua cheia. 
Isso depois de três anos de namoro bem acompanhado e um ano e meio de um noivado mais rígido ainda. Uniram-se perante à graça do Senhor e com a benção do pastor, Edinelson e da bispa Selena, a união foi consagrada sob aplausos pela irmandade.

Deus do Céu encontrou finalmente a paz. 

Não, ainda não foi dessa vez.

Embora compreendesse Deus que Deusa fosse pura e casta e que essa castidade seria maculada somente nas núpcias do casal, ele se enganou redondamente. 
O susto não foi somente pela não castidade da moça, mas, principalmente, pelo conjunto das revelações que ela fez.

No quarto, depois de muito choro e gritarias, ela abriu o coração. Confessou ao marido o segredo que manteve por sete chaves pelos últimos anos. 

Deusa foi um dia Demétrios, um filho renegado de um japonês manco com uma espanhola doida que queria fazer dele a qualquer preço, uma freira. Mas ele sendo um menino, jamais a abnegada mãe alcançaria tal graça. 
Ela poderia ter dado esse o destino à filha mais velha, mas, segundo os desígnios supremos, era o menino quem deveria cumprir o mandato, o filho é quem deveria atender a ordem do Pai celestial.
A mãe então separada em casamento, fazia um pouco mais de um ano, decidiu por uma cirurgia transexual. 
Conheceu um médico, um paraguaio desnaturado que só pensava em dinheiro, que foa recomendado por uma pessoa amiga e que cobrou os olhos da cara, mas ele foi brilhante com o bisturi. Um notório escultor e remodelador de formas humanas.

Aos dezoito anos, já num corpo de mulher e agora como Deusa e não mais como Demétrios, ela fugiu do convento,ainda noviça, cansada da vida reclusa e dos constantes assédios da madre superiora. 
Entregou-se ao padeiro da vila mais próxima por um pedaço de pão e um jarro de água e com ele ficou até conhecer sua nova mãe, a de fé no presbitério. A que a encaminhou para uma nova verdade.

Deus Amado do Céu calou-se. Inibiu-se e conteve a explosão embriagado pelo ódio. Ficou perplexo, irado e muito confuso. Permaneceu mudo por mais meia hora, sem saber o que pensar e o que fazer. Buscou forças para ainda perguntar sobre o que teria acontecido com Lucia. 
Deusa explicou que nunca mais vira a irmã. Quando seus pais se separam ela optou por morar com o pai e soube depois que eles se mudaram para o Japão e que Lucia no ano seguinte havia se casado com um rico empresário japonês e que hoje vive na Califórnia com o marido.

__ E dona Conchita?

__ Continua a mesma, acho que pior. Soube que é a beata mais respeitada da paróquia. E agora só se veste de preto.

Deus do Céu pensou em fugir, sair correndo, gritar, chorar. Pensou em acabar com a vida de Deusa, com a vida da mãe de sangue dela e da mãe de fé também e porque não, com a sua própria. Basta, chega! 

“Deus escreve certo por linhas tortas, meu filho”

Deus sabia bem o que era resignação. Precisou dela novamente, talvez mais do que nunca neste momento tão inédito.

Não. Se esta seria a vontade de Deus, o verdadeiro, se é de seus sábios desígnios que devemos nos manter unidos, ela e eu, ela que já foi ele um dia, que assim seja. Não devemos questionar, devemos sim é aceitar as coisas como elas são. É isso e pronto.

Respirou fundo, ergueu-se e tomou a bíblia como toma o cavaleiro sua espada em tempos de guerra. Leu um versículo em voz baixa por alguns minutos e em seguida abriu a voz dirigindo-se a Deusa em tom solene:

__ Deusa, seremos um só corpo, um só sangue, um só destino. Deus e Deusa num composto de mentiras e verdades numa única entidade, pois, assim Ele nos fez, seguindo sua própria imagem. Deus sabe o que faz e você agora é minha mulher. Minha Deusinha gostosa.

Jogou a bíblia na cama e chamegou a esposinha: 

__ Vem cá, minha deliciazinha!

Deus Amado do Céu e Deusa Maria de Jesus do Céu, finalmente renderam-se aos aos prazeres da carne e dessa forma encontraram a paz para, agora sim, serem felizes para sempre. E foram, ao seu modo.

Não tiveram filhos, pois Deus, o poderoso, não queria que eles os tivessem. E quem haveria mais de querer, o capeta? Sai pra lá buzanfan. Coisa torta.