12/10/2013

Deus e o Diabo na Terra da Garoa.


Nome de batismo: Deus. 
Nome completo no registro: Deus Amado do Céu. 

O Do Céu, Deus herdou do pai que se chamava Angelo, um devoto de São Vito que só não foi padre porque conheceu Maria, mãe de Deus e que jamais perdera uma missa aos domingos. 

Angelo recebeu o sobrenome do avô, Giacomo Santicielo numa provável desdenhagem do escrivão do 8˚ Cartório de Registro Civil que deliberadamente traduziu o Santicielo para um sem sentido, Do Céu, não se importando com a história e nem tampouco com as tradições que os nomes de família carregam. Muito menos ele teve consideração com o imigrante recém chegado e que mal falava a língua verde-amarela. Tempos pré-nacionalistas aqueles.

__ Dopo tutto, perché per lavarsi i denti? Io non mangio merda!

Giacomo Santicielo, um homem de estatura mediana era um rechonchudo espalhafatoso que em nada lembrava um beato, fazia o tipo do bonachão engraçado. Diferente da mulher, Dona Santina, uma italiana de Salerno que jamais faltou a uma missa aos domingos, quando fazia com que a prole obediente a seguissem - Angelo, Giuseppe, Pio e Giovanna.
O vinho e a polenta eram fartos num dos casarões mais antigos da boa e velha Mooca. Ao seu modo os imigrantes irradiavam felicidade.

Deus do Céu, filho de Angelo e Maria e neto de Giacomo e Santina cresceu ouvindo seu nome em vão. Nas manhãs, nas tardes e pelas noites era Deus pra todo lado.

Deus me ajude! Deus me proteja! Que Deus me perdoe. Dio mio. Deus, per favore. Deus, dai-me forças. Graças a Deus! 

Deus do Céu se confundia com o nome até descobrir que um outro Deus existia. Esse outro é que era o verdadeiro, um magnânimo e supremo. Vivia nas alturas mas estava em todos os lugares ao mesmo tempo e por não ter o que fazer, pois o mundo Ele já havia criado, agora passava as horas observando as pessoas, seus filhos, até os pensamentos, Dele não escapavam.
Segundo as palavras do pai, Deus lá de cima é poderoso demais e a Ele devemos nos entregar, de corpo e alma, seguindo seus desígnios sem contestação. Jamais confrontá-lo, pois a desobediência levaria o infiel à pena capital.
O menino Deus compreendeu que o outro Deus era mais amado e mais forte que ele, querido e temido ao mesmo tempo e de certo, pelo que diziam, absolutamente centralizador e implacável, mandava em tudo, olhava tudo e todos o tempo todo e ai daquele que não seguisse sua ordem, este teria o inferno como destino e por lá arderia em chamas por toda a eternidade. Um destino muito cruel, portanto.

A ideia do bem e do mal convivendo numa só entidade confundia o garoto. Ele se perguntava todas as noites ao deitar-se, logo após as orações, como poderia existir alguém tão bom e ao mesmo tempo tão intransigente a ponto de querer vingar-se de quem o contradissesse.
Deus do Céu dormia resignando-se ao perdão pelos pensamentos mais do que pagãos.
Acostumou-se com a ideia de ser um cover, um Deus de mentira, um do tipo “me engana que eu gosto”, pois o outro, o poderoso, esse que era o de verdade.

Com este nome a infância de Deus Amado do Céu não foi nada fácil. Não existia o termo bullying, mas ele já sofria com os assédios jocosos da turma. Na escola, na rua e por onde fosse, cobriam-lhe de gozações. Deus sentia-se intimidado e ainda, sabendo que estava sendo observado pelo dono da marca, nem ameaçava reagir. O que Ele pensaria? Era o destino de um filho de beatos.

Aos 10 anos Deus apaixonou-se pela quarta vez. Todo ano ele se deixava levar pela mesma coisa, envolvia-se pela eterna carência. Deus era um romântico inveterado.
Dessa vez foi pela professora do quarto ano do grupo escolar, Dona Esmeralda, que não era tão bonita assim, aliás, ela, aos quarenta e poucos, tinha uma cara de brava que assustava muita gente, mas em compensação possuía um par de seios tão grandes, tão volumosos que deixavam Deus do Céu mais confuso do que normalmente era. Para ele, Deus estava no céu e Esmeralda na terra. O resto comia-se com salame.
Pelas manhãs, logo no Bom Dia classe! Como passaram a noite, dormiram bem? Prontos para a prova oral? 
A resposta vinha automática num canto gregoriano: Sim professora, dormimos bem! 
Deus se derretia com a voz de Dona Esmeralda. Era o único que não respondia em coro. Em sua cabeça a frase chegava veloz, tal como um tigre faminto correndo atrás de um veado amedrontado pelas savanas. 

...Dormi. Mas se tivesse dormido entre seus peitos, sua gostosa, teria sido muito melhor

Dona Esmeralda fez a cabeça de Deus e nunca se deu conta disso, pelo contrário, ela acreditava tratar-se somente de um retardado. Ainda mais com um nome desses:

__ Deus do Céu, isso é nome? Que coisa mais patética.

E assim foi durante o ano letivo de 1964. Deus do Céu carregando o peso do amor secreto e cheio de ideias progressistas que provocavam aparecimentos constrangedores de espinhas pelo rosto. 
Tal como foram os letivos anteriores, talvez menos intensos, porém, cáusticos, cujas musas encarnavam as figuras de Dona Clarice - a professora do terceiro ano, Dona Ruth, a do segundo e de Liberta a mais nova dentre elas, sua primeira professora e primeira paixão.

Liberta foi quem ensinou Deus a escrever e ler o abecedário pela cartilha Caminho Suave. Letras maiúsculas e minúsculas, parágrafos, o C de cebola e o Z de zabumba e ainda foi ela quem conduziu Deus a dar as primeiras pedaladas na bicicleta que ganhara no natal e sem as rodinhas laterais, aquelas que servem de apoio aos equilibristas bêbados.

Além da escola, Liberta e Deus, por morarem na mesma rua, portanto, vizinhos, se viam sempre depois das aulas. 
Ela era a filha mais nova do Seu Luciano e de Dona Maria, os proprietários da casa onde Deus do Céu morava com os pais e irmãos.
Liberta fez com que Deus, aos sete anos de idade percebesse a diferença entre os gêneros masculino e feminino. Deus deu-se conta que era um homem e Liberta uma mulher. Certo que ainda dos pequenos, mas soube desde então que era totalmente masculino. Liberta mexia com os impulsos de uma criança e nem de longe imaginava tal processo.

Tempos depois, já com doze pra treze anos, Deus conheceu um novo amor. Ele havia se decepcionado com Liberta quando soube que esta iria se casar com Abílio, um playboy sem graça, de topete Elvis Presley que com sua lambreta branca de laterais vermelhas, fazia acrobacias farolentas pela rua. Deus o imitava com sua bicicleta e nem sempre se dava bem, os joelhos e os cotovelos viviam ralados.

Este novo amor, agora mais avassalador, vinha tirando o sono de Deus. Uma menina de cabelos escuros, magra e com o sorriso farto, dando sinais de adolescência e que não passava dos treze anos, entorpeceu o cérebro do rapazinho. 
Ela havia se mudado com a família há pouco para a rua Cônego José Norberto. Os pais, um irmão mais novo e ela ocuparam a casa amarela recém construída que ficava quase de esquina, bem do lado oposto onde Liberta morava. A construção era tida na vizinhança como a mais bonita da rua.
Deus achava estranho o fato do pai ser um japonês. Pais não costumam ter olhos puxados e cabelos espetados que nem Glostora fixava, ele pensava. E ela não demonstrava ter traços de origens nipônicas, era tudo muito estranho aquilo. 
O japonês tinha um tipo sisudo, meio fechadão e só falava baixo e usava frases curtas quando se dirigia a alguém. Olhava de rabo de olho e raramente sorria. 
Ele tinha um defeito na perna esquerda que o fazia caminhar de forma engraçada, arrastava a perna e em seguida a jogava pelo ar até cair ao chão, lembrando um “deixa que eu chuto”. 
O tal japonês nunca soube, mas ele era alvo das chacotas da molecada e até dos adultos.

Também estranha era o jeito da mãe. Uma espanhola truculenta, gorda e com os cabelos negros que viviam presos por um coque. Parecia uma chaminé.
Seu nome era Conchita e isso soava a Deus como nome de personagem de filme. Era sem dúvida bem esquisitona essa Dona Conchita. 
Usava vestidos estampados e bem coloridos quase sempre e em dias de chuva, alternava para vestimentas pretas, num luto execrável. 
Falava tão alto que preocupava quem estivesse por perto. Cada vez que abria a boca para explicar alguma coisa, parecia que estava brigando com a pessoa com quem conversava.

Deus do Céu soube dos nomes deles logo nos primeiros dias. Seu Tanaka, Dona Conchita e do irmãozinho fedelho de 7 anos, Demétrios. Esse menino era meio diferente, um tanto quanto delicado e só olhava para os outros com as mãos na cintura. 
Deus soube dos seus nomes pelas conversas que ouvia em casa, mas o da menina, da moreninha que perturbava seu coração, não conseguia descobrir de jeito nenhum.
Podia ser Rosa, Vera ou Maria Aparecida, Cidinha. Quem sabe Nancy ou Miriam, Dirce ou até Terezinha. Ele não se atrevia a perguntar, poderiam desconfiar do seu súbito interesse. 

Tempos depois, Deus do Céu descobriu, meio que por acaso, logo quando entrava em casa chegando da escola, quando viu e ouviu o fedelho correndo pelas ruas, gritando e fugindo da mãe desesperadamente. 

__ Foi a Lucia, mãe, não fui eu! Juro, juro mesmo! Foi a minha irmã!

Pronto, finalmente ela tinha um nome e este soou aos ouvidos de Deus como música tocada em igrejas em dias de casamento. Um nome de princesa, de donzela, que, presa, aguardava aflita a salvação por um príncipe, no caso ele, montado em um enorme cavalo branco. 
Somente depois de quase nove meses é que Deus pôde chama-la pelo verdadeiro nome em seus sonhos e não mais por um outro imaginário. Deus aboliu oTânia para sempre.

Deus, além de um romântico inveterado mostrava-se bastante criativo.

Convicto de ser a personificação da mentira, certo de que por toda a vida carregaria a cruz de ser um falso Deus e que seria eternamente o negativo de algo tão positivo, Deus do Céu resignou-se e seguiu pela vida de cabeça baixa na paz do todo poderoso. Agora mais apaixonado que nunca.

As piadas não mais espantariam seu sono e nem a missa dos domingos ele não mais as veria como um martírio obrigatório. Pelo contrário, essas se tornariam esperadas com ansiedade por toda a semana, exclusivamente pela oportunidade de encontrar-se com Lucia. 
Dona Conchita também mostrava-se uma temente fervorosa e fazia dos filhos seus discípulos. 
O pequeno Demétrios e Lucia acompanhavam a mãe na liturgia sempre bem alinhados. Ele com o terninho cáqui de calças curtas, camisa branca engomada, gravatinha borboleta e sapatos bem engraxados e ela num vestido rosa com leves estampas verdes em forma de flores, com um laço branco prendendo os cabelos e sapatos também brancos. Eram os uniformes dos domingos para que, religiosamente, pudessem mostrar a língua ao padre, enquanto que o pai mantinha-se às tradições, rogando os sinos e as fragrâncias de ervas finas ao Buda.

Os domingos eram dias de missas, sinos e de Lucia ficar mais próxima de Deus. 
Melhores ainda eram aqueles quando, após às cerimônias, as mães convidavam o padre para o almoço. 
Era uma festa sem fim. Dividiam o macarrão, a paela e o vinho, sem falar do arroz branco para o japonês manco. Todos brincavam e cantavam no quintal da família Do Céu - os brasileiros, o japonês, a espanhola, o padre e os italianos.

A felicidade era eterna enquanto durou. Os Do Céu mudaram-se para um outro bairro no ano seguinte onde Seu Angelo contruíu a própria casa. Dali em diante não mais pagariam aluguel. Graças a Deus!
Deus amaldiçoou os pais, os filhos e os espíritos nada santos. Rogou pragas das mais infames. Xingou a Virgem, os avós, as professoras e esbravejou palavrões de toda natureza. Mas, impotente diante da situação, mudou-se calado, triste, longe de Lucia e jamais a veria.

“Deus escreve certo por linhas tortas, meu filho” 

Deus do Céu lembrou-se da frase que desde pequeno ouvia do pai e com ela buscou a aceitação. E mais uma vez as professoras poderiam ajuda-lo.
Porém, parecia que nada mais fazia Deus sentir-se feliz. Ninguém mais ocuparia seu coração. Viveria até o último segundo da vida num completo celibato. Depois de Lucia não existiria mais ninguém.

Com quatorze anos, ainda amargurado, Deus pensou que não restaria outra alternativa senão concordar com os anseios dos pais. Atenderia seus desejos e seguiria a vida num seminário. Se tornaria um padre, um frei ou um cônego. Quem sabe com uma forcinha lá de cima, Deus não seria um bispo, um cardeal e porque não, um papa. 

__ Já pensou?  Papa Deus do Céu! Minha nossa, um brasileiro, neto de italianos no Vaticano e palmeirense ainda por cima! Que orgulho você daria aos seus pais, meu filho.  

Teria ele a vocação? Não, de certo que não, nenhuma. A vida eclesiástica, a Deus do Céu parecia coisa do capeta. Não tinha o menor interesse nas questões da igreja. Deus gostava mesmo é das mulheres. Nasceu homem e ninguém o transformaria num sem-sexo e definitivamente abandonou a ideia.

Anos depois, após outras tantas desilusões (Maria Angélica, Cleidinha, Cida, Lourdinha, Marta, Ivone), Deus conheceu Deusa. 
Deusa Maria de Jesus. Uma jovem de vinte e quatro anos, linda, de cabelos lisos soltos pelas costas até a cintura. Toda delicada, de boa formação e com atributos físicos que nem mesmo os vestidos mais comportados escondiam a leveza de seu corpo. Deusa deixou Deus atordoado. 

Esta sim, seria a derradeira, a imaculada a ser maculada por ele, a eterna, a mais que mulher de sua vida. Consagrou Deus do Céu na convicção da constatação.

Deus Amado do Céu agora com vinte e oito anos, sentia-se um homem feito, mais maduro e escolado pela vida.
A morte prematura dos pais e dos irmãos num grave acidente de ônibus na Via Dutra, cinco anos antes, quando estes retornavam de Aparecida num feriado de 12 de Outubro, deixaram Deus mais cético do que nunca. 
Agora sim é que Deus tinha motivos para não acreditar em divindade alguma. 

Vão todos pra aquele lugar!  

Passou a beber, fumar maconha e traficar cocaína e pedras de crack. Tudo num esquema muito seguro garantido pelo delegado da seccional. 
Mas Deus sentia-se mal. Conheceu a solidão, a amargura e o medo. Vivia pelas sarjetas da vida, pelos bares, pelas madrugadas. Um boêmio sem rumo cercado de prostitutas. Deus tornou-se a própria escória humana.

No entanto, quando conheceu Deusa tudo mudou. Deus voltou-se ao Deus verdadeiro e ao seu filho ilustre e reconheceu neles uma única entidade como afirmava o homem do terno azul. A fé o encontrou de forma abundante e libertadora. 
Ele tomou a igreja e bebeu da verdade, dizimou ao pastor e se redimiu de todo o mal. O capeta afugentou-se com o um covarde mesquinho.
Tornou-se um fervoroso. Deus do Céu agora fazia parte da mesma congregação de Deusa. Claro, era ela a verdadeira motivadora.

Tanto que fez que Deus do Céu cativou a confiança e o coração da moça, que de início mantinha-se arredia aos cortejos do galanteador, mas com o tempo acabou cedendo e ambos se casaram num sábado de lua cheia. 
Isso depois de três anos de namoro bem acompanhado e um ano e meio de um noivado mais rígido ainda. Uniram-se perante à graça do Senhor e com a benção do pastor, Edinelson e da bispa Selena, a união foi consagrada sob aplausos pela irmandade.

Deus do Céu encontrou finalmente a paz. 

Não, ainda não foi dessa vez.

Embora compreendesse Deus que Deusa fosse pura e casta e que essa castidade seria maculada somente nas núpcias do casal, ele se enganou redondamente. 
O susto não foi somente pela não castidade da moça, mas, principalmente, pelo conjunto das revelações que ela fez.

No quarto, depois de muito choro e gritarias, ela abriu o coração. Confessou ao marido o segredo que manteve por sete chaves pelos últimos anos. 

Deusa foi um dia Demétrios, um filho renegado de um japonês manco com uma espanhola doida que queria fazer dele a qualquer preço, uma freira. Mas ele sendo um menino, jamais a abnegada mãe alcançaria tal graça. 
Ela poderia ter dado esse o destino à filha mais velha, mas, segundo os desígnios supremos, era o menino quem deveria cumprir o mandato, o filho é quem deveria atender a ordem do Pai celestial.
A mãe então separada em casamento, fazia um pouco mais de um ano, decidiu por uma cirurgia transexual. 
Conheceu um médico, um paraguaio desnaturado que só pensava em dinheiro, que foa recomendado por uma pessoa amiga e que cobrou os olhos da cara, mas ele foi brilhante com o bisturi. Um notório escultor e remodelador de formas humanas.

Aos dezoito anos, já num corpo de mulher e agora como Deusa e não mais como Demétrios, ela fugiu do convento,ainda noviça, cansada da vida reclusa e dos constantes assédios da madre superiora. 
Entregou-se ao padeiro da vila mais próxima por um pedaço de pão e um jarro de água e com ele ficou até conhecer sua nova mãe, a de fé no presbitério. A que a encaminhou para uma nova verdade.

Deus Amado do Céu calou-se. Inibiu-se e conteve a explosão embriagado pelo ódio. Ficou perplexo, irado e muito confuso. Permaneceu mudo por mais meia hora, sem saber o que pensar e o que fazer. Buscou forças para ainda perguntar sobre o que teria acontecido com Lucia. 
Deusa explicou que nunca mais vira a irmã. Quando seus pais se separam ela optou por morar com o pai e soube depois que eles se mudaram para o Japão e que Lucia no ano seguinte havia se casado com um rico empresário japonês e que hoje vive na Califórnia com o marido.

__ E dona Conchita?

__ Continua a mesma, acho que pior. Soube que é a beata mais respeitada da paróquia. E agora só se veste de preto.

Deus do Céu pensou em fugir, sair correndo, gritar, chorar. Pensou em acabar com a vida de Deusa, com a vida da mãe de sangue dela e da mãe de fé também e porque não, com a sua própria. Basta, chega! 

“Deus escreve certo por linhas tortas, meu filho”

Deus sabia bem o que era resignação. Precisou dela novamente, talvez mais do que nunca neste momento tão inédito.

Não. Se esta seria a vontade de Deus, o verdadeiro, se é de seus sábios desígnios que devemos nos manter unidos, ela e eu, ela que já foi ele um dia, que assim seja. Não devemos questionar, devemos sim é aceitar as coisas como elas são. É isso e pronto.

Respirou fundo, ergueu-se e tomou a bíblia como toma o cavaleiro sua espada em tempos de guerra. Leu um versículo em voz baixa por alguns minutos e em seguida abriu a voz dirigindo-se a Deusa em tom solene:

__ Deusa, seremos um só corpo, um só sangue, um só destino. Deus e Deusa num composto de mentiras e verdades numa única entidade, pois, assim Ele nos fez, seguindo sua própria imagem. Deus sabe o que faz e você agora é minha mulher. Minha Deusinha gostosa.

Jogou a bíblia na cama e chamegou a esposinha: 

__ Vem cá, minha deliciazinha!

Deus Amado do Céu e Deusa Maria de Jesus do Céu, finalmente renderam-se aos aos prazeres da carne e dessa forma encontraram a paz para, agora sim, serem felizes para sempre. E foram, ao seu modo.

Não tiveram filhos, pois Deus, o poderoso, não queria que eles os tivessem. E quem haveria mais de querer, o capeta? Sai pra lá buzanfan. Coisa torta.

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