06/11/2013

CUIDADO COM O QUE VOCÊ ESTÁ PENSANDO

Imagem Google

O eleitor ficou tão irritado que acabou estourando os miolos do candidato.

Mal efetuado o disparo que atingira a têmpora direita do infeliz que alardeava promessas em praça pública, um estampido luminoso que lançou a bala provocadora do furo de calibre trinta e oito deste lado e um de doze no do esquerdo, o súbito de ira do eleitor se esvaiu tão rapidamente quanto a luz de um flash de câmera fotográfica e ele viu-se metido numa encrenca sem igual.

No entanto, sentiu-se de alma lavada. Qualquer um poderia notar isso em seu semblante.

Quatro bruta-montes jogaram o atirador ao chão e sobre ele, com rancor profissional, colocaram todo o peso dos seus corpos, esganando ainda a garganta fina do detido que já se mostrava sufocado.

A mãe do eleitor que abraçava a mãe do candidato durante o comício, comadres desde muito, desmaiaram segundos depois - uma pelo filho, irremediavelmente morto e a outra pelo filho que acabara de desgraçar a própria vida. 
Populares paralisaram-se de olhos arregalados. Mulheres gritaram, meninos berraram e os velhos ficaram sem entender nada.

João Louco, o sem teto, ergueu os braços para o céu e cantou "Canção da América" em espanhol. Em seguida mandou ver um "Coração de Estudante".

A praça central de Santa Carolina, apinhada de gente naquela tarde de domingo, mostrou-se pequena para o tumulto que se formara. Da multidão surgiam clareiras aqui e ali que se movimentavam desorientadas, vistas de cima lembravam germes afoitos quando observados pelos microscópios.

O caos se estabeleceu.

O delegado desceu do camburão alisando o bigode amarelado de tanta nicotina, esboçando toda razão do mundo. Ivani e Clayton, seus auxiliares, saltaram da viatura pedindo para que todos se afastassem. 

O padre saiu da igreja atônito, segurando uma vela com a mão esquerda. Poucos perceberam, mas dele saiu um tremendo palavrão.

Abram alas, saiam da frente que a ambulância chegou! Gritavam.

O médico disse não. Não havia mais o que fazer, colocou o estetoscópio sobre o coração do candidato, agora praticamente sem cabeça e levantou-se em seguida para sacudir o rosto. Dr Olavo Bilac de Souza nunca se precipitou num diagnóstico.

Esse já era! Comuniquem os familiares. Decretou em cheio.

Sultão lambeu o chão e remeteu ao estômago pedaços de carne e ossos que se espalhavam até a sarjeta, uns ainda pisoteados. O gosto da pólvora temperava os petiscos e embrulhou o bucho do cão. 

Correligionários insistiam tratar-se de intriga da oposição. O banqueiro de pronto mostrou-se disponível para o crédito funerário e Zé do Caixão mediu o defunto com precisão, foi logo para o velório preparar o salão.

O prefeito disse pressentir que tal fato poderia ocorrer em sua cidade - havia muita animosidade entre as partes, pronunciou - uma tragédia em Santa Carolina inestimável! 
A cidade que até então era tida como um paraiso tropical, pairagens de violência zero e de verdes-que-te-quero-verdes, agora, perene, preparava-se para ilustrar o Cidade Alerta e o Brasil Urgente na TV. 

Aquilo tudo era demais para qualquer cidadão de título na mão.

O eleitor, ora um assassino confesso, foi recolhido sob urros guturais e ameaços de linchamento por muitos. Por outros, diferente, com louvor, foi motivo de aplausos calorosos, gritos de "eleitor-olê-olê-olê-olá", assim como fazem com os heróis em partidas de futebol. 

Vai entender.

O fato apurado posteriormente é que o candidato fora morto não por questões políticas ou disputas eleitorais mas sim, por uma situação bastante distante.

O eleitor descobriu que ele, o candidato, vinha comendo sua mulher desde julho passado.
O marido traído tinha acertado antes, também, a têmpora esquerda da esposa, cujo corpo fora encontrado horas depois da confissão.

O escrivão Toninho Pescador fez o BO e foi perfeito no relato. Detalhou todos os pormenores com precisão cinematográfica. Ficou fácil para o Juiz. 
Logo após comentou com Ivani, a investigadora de plantão que o acompanhava na escrita:

__ Puta idiota esse eleitor, só porque o candidato comeu a mulher dele o cara faz toda essa cagada. Os políticos fodem a gente o tempo todo e ninguém sai por ai arrancando as cabeças desses filhos das putas.


Concordaram e foram para a padaria tomar uma gelada.

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