25/03/2013

Luis Fernando Veríssimo

Faço questão de registrar aqui.

Cronista do cotidiano, romancista, dramaturgo, roteirista, músico, tradutor e cartunista.  O escritor gaúcho, Luis Fernando Veríssimo, brinca com as palavras como poucos. Mandou bem nessa que foi publicada no Estadão deste domingo, 24. Não me contive, repliquei no blog para o meu deleite e para quem não pôde conhece-lo, aqui transcrevo.
BABOSEIRAS
O motoboy entregou o pacote de cartas e disse: 

__ Ele falou que tinha resposta.
__ Espera - disse ela. E pôs-se a examinar as cartas. Procurava uma em especial, que não encontrou. Fez um sinal para o motoboy aguardar enquanto telefonava.
__ Alô
__ Amauri, cadê a carta do ursinho?
Era uma das primeiras cartas que ela tinha lhe mandado. Ainda eram namorados. Uma carta toda escrita como se fosse de uma criança para o seu ursinho de pelúcia.
__ Eu mandei. Não mandei?
__ Não. E se você não mandar a carta do ursinho eu não mando as suas.
__ Heleninha
__ Não tem "Heleninha", Amauri. Ou você manda todas as minhas cartas ou eu começo a mostrar as suas. Sou capaz até de publicá-las. Quero ver como fica a sua reputação no meio.
__ Eu pensei em guardar pelo menos uma carta sua, Heleninha.
__ Logo a mais ridícula? Devolve a minha carta, Amauri. Nosso trato foi esse.
Todas as cartas.
__ Deixa eu ficar só com esta. É a minha favorita.
__ Eu sei o que você está pensando, Amauri. Quer ficar com a carta para me chantagear depois.
__ Chantagear, Heleninha?!
__ Chantagear. Eu conheço você.
- Heleninha! Eu acho esta carta linda. Uma lembrança do tempo em que a gente se amava.
- Não banca o sentimental comigo, Amauri. Essa carta é só um exemplo das baboseiras que e gente diz e escreve quando acha que o amor nunca vai acabar. Mas o amor acaba e fica a baboseira. Me devolve essa carta, Amauri!
__ Heleninha, você lembra de como eu chamava você? Na cama?
__ Eu não quero ouvir!
__ Lembra? Está certo, era baboseira. Mas era bonito. Era carinhoso. Eu era o seu ursinho e você era a minha...
__ Amauri, manda essa carta ou eu publico as suas. Já sei exatamente para quem mandar a primeira.
__ Está bem, Heleninha. Manda o motoboy de volta. 
Zuneide pensou: não dá mais. Morar nesta cidade, não dá mais. Não vejo mais o Ique, não sei nada da vida dele. E todas as noites é este suplício, nunca sei se ele vai voltar pra casa ou não, se está vivo ou morto. Dizem que morre um motoboy por dia na cidade. Todos os dias uma mãe perde um filho nesta cidade. Se o Ique ainda fosse procurar outra coisa pra fazer. Mas não. Trata aquela moto como se fosse um bicho de estimação. À noite, a moto fica ao lado da cama dele. Dorme com ele. Vou tentar convencer o Ique a voltar para São Carlos. Respirar outros ares. Antes que ele morra e me deixe.
__ Não dá mais, doutor Amauri. Esta cidade está me deixando maluco. Sabe que no outro dia, quando me dei conta, estava correndo pela calçada e buzinando? A pé, na calçada, e buzinando para os outros pedestres saírem da frente. Bi, bi, bi. Olha que loucura.
__ Você acha que isso pode ter alguma coisa a ver com os problemas em casa. Com a Mercedes?
__ Não sei. Nosso amor acabou, doutor. Não tem mais sexo, não tem mais nada. Na outra noite eu chamei ela por um apelido que a gente usava quando era recém-casados, eu era Pimpão e ela era Pimpinha, e ela deu uma gargalhada. Não se lembrava mais. E ela também está enlouquecendo, doutor. Agora deu para dizer que se eu não comprar uma TV digital ela se mata. Vou dizer para ela vir consultar com o senhor tam...
Tocou o telefone e Amauri pediu licença para atender.
__ Alô? Sim, Helena. Não chegou? Eu mandei pelo motoboy perto do meio-dia. Mandei, Helena. Por que eu iria mentir? Deve ter acontecido alguma coisa com o motoboy. 
Só em casa, depois de deixar o Ique no hospital, Zuneide descobriu a carta no bolso do blusão do filho. Uma carta carinhosa, que começava assim: "Querido Ursinho". Ele tinha uma namorada e ela não sabia! O nome dela era Heleninha. Uma boa menina, ingênua, pura, que obviamente o amava muito, a julgar pela carta. Preciso encontrar um jeito de avisá-la de que o Ique teve um acidente, pensou Zuleide. Será uma maneira de conhecê-la, também. De conversarmos, de combinarmos a ida deles para São Carlos, para outros ares, depois do casamento. Zuneide leu e releu a carta várias vezes. Que coisa bonita. Que coisa carinhosa. No dia seguinte ela diria ao Ique que ainda não conhecia a Heleninha mas já gostava dela. 
__ Amauri, você pediu. Vou começar a distribuir as suas cartas.
__ Heleninha
__ Você mentiu. O tal motoboy não apareceu com a minha carta.
__ Heleninha
__ Prepare-se para o pior, Amauri.

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