06/03/2013

Paranóias

Retórica no discurso da pátria amada, incitação pela teoria da conspiração, percepção de tratar-se de mais um manipulador, excessivamente afoito, esforço sobre humano para se manter no poder, uso constante dos termos "luta" e "comandante", mostrar-se como um soldado obstinado capaz de enfrentar os leões do norte com os próprios dentes, por vezes grosseiro e arrogante aos seus e não seus, emocionalmente instável e um centralizador.

Imagem Folha de S Paulo
Dessa forma eu enxergava Hugo Chávez, um líder exótico, quase que espiritual, desses que aparecem de tempos em tempos, aqui e ali pelo curso da história e nela ficando. Mais um nacionalista inconsequente, portanto, a meu ver, outro idiota dotado de absoluta certeza de que detinha a verdade e por ela, fazia uso da altíssima capacidade de comunicação, contendo a liberdade intelectual dos alinhados e de quem se opusesse a ele. Um mestre no assunto da estratégia, admirável no ítem, pregador do faça o que eu mando e não faça o que eu faço
Resumidamente: era assim que eu via o líder venezuelano, um caudilho, que agora se foi, lamentavelmente por um câncer.
Não entro no mérito político e menos ainda no ideológico de Hugo Chávez na condução da presidência da república de seu país, até porque, em princípio, ele tratava de questões internas, assunto dos irmãos venezuelanos, mesmo que em algumas oportunidades seus discursos atingiam de frente os vizinhos próximos e até os mais distantes, provocando aplausos de uns e cala-te de outros. Me refiro ao modo general chavista. 
Um episódio, entre tantos, tenho na memória. Me lembro de assistir pela tv uma reportagem onde estavam reunidos os mandatários dos países sul-americanos, num desses encontros esporádicos quando discutem a economia na América latina e durante o seu discurso, Hugo Chávez dirigiu-se à Lula, em tom descontraído, típico de um militar em momento de descontração, fazendo uso da primeira e segunda pessoa do singular, traiu-se soltando a pérola: Lula você agora com o Pré-sal está mais rico do que eu… A recíproca arrogante do interpelado se adequou ao contexto bizantino, latino-americano, que foi um sorriso monárquico nos lábios, escondidos pela barba que no passado, quando pobre, mantinha desalinhada. 
Penso que o correto seria ele dizer, "com o petróleo do Pré-sal o Brasil será mais rico que a Venezuela".
Licença poética? Excesso de intimidade? Teatro? Talvez. A mim me pareceu outra coisa. Coisa de revolucionários vitoriosos que quando sentam ao trono, tomam para si o que deveria ser de todos. A meu ver esse modelo de liderança não é revolucionária, é absolutamente comum entre os chamados revolucionários e tende a persistir enquanto existir o culto à veneração.
Por fim, agora, Maduro, o presidente tampão, alinhadíssimo aos militares chavistas, assume a cerimônia de despedida do líder que se foi prematuramente e pela constituição venezuelana, se mantém no cargo até as novas eleições que ocorrerão em um mês. 
O meu respeito ao povo irmão, os meus pêsames aos parentes e aos mais próximos de Hugo Chávez. A dor pela perda de um ente querido é inestimável. 
Fico por aqui torcendo para que novos tempos, tempos mais felizes, mais soltos e sem paranóias, cheguem a todos nós da América latina e para todos nós do mundo.
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