17/03/2013

Classe Média

SERÁ QUE O DEPRAVADO MORA NA TRAVESSA MIGUEL? 
Dr Olavo tem o consultório na Rua Miguel no bairro da Pompéia desde 1968. Como o pai ele se tornou um respeitado psiquiatra que atende sua clientela das sete da manhã até umas cinco ou seis da tarde, diariamente. Inclusive aos sábados quando a agenda assim exige.
Não é normal consultórios psiquiátricos abrirem horários aos finais de semana, mas Dr Olavo, muito dedicado, fazia exceções a um ou outro paciente.
Às terças e quintas feiras, à noite, distraia-se fazendo aulas de dança com uma turma quase da terceira idade. A dança lhe servia para relaxar um pouco, assim ele explicava à esposa, Yolanda, pois não era nada fácil ouvir as mazelas psicológicas dos pacientes todos os dias. Precisava blindar-se. Divertia-se, portanto, com os rebolados sincronizados com as colegas que também buscavam a compensação sadia. A compreensiva esposa Yolanda lhe dava apoio.  
Julia Maria Venâncio de Oliveira Coutinho, mulher bonita e muito elegante aos 38 anos de idade e 19 de casamento. Reconhecida como esposa dedicada que todo marido gostaria de ter, também mãe atenta de duas filhas adolescentes, Nancy e Luiza, mas que de uns anos para cá, sentindo-se um tanto quanto deprimida, apesar da vida estável que o marido lhe proporcionava, encontrou nas aulas de dança popular um motivo para distração. Não seria mais que isso, somente uma forma de terapia, a qual foi aconselhada e apoiada pelas filhas e pelo próprio marido, Raul Alves Coutinho, trabalhador incansável e proprietário das três maiores lojas de calçados da região. 
Desde menina, Julia gostava da dança, estudou balé clássico dos cinco aos quinze anos, fazia apresentações no clube onde o pai era o diretor, espetáculos solo nas comemorações familiares e em outras tantas oportunidades. Mas deixou de lado o sonho de menina, a carreira tão sonhada quando conheceu o homem de sua vida, seu eterno amor, o homem com quem viria a se casar anos depois, Raul e com ele viver para sempre uma vida feliz. 
Nas noite de terças e quintas, entre sete e meia e dez horas, Julia Maria de Oliveira Coutinho, livrava-se das prendas domésticas, deixava o avental de lado, os compromissos de mãe de família para ser somente, Julia. Esses poucos momentos seriam só seus. E assim foi. 
Logo nos primeiros meses, Raul, Nancy e Luiza notaram a mudança no humor em Julia. Ela estava mais solta, disposta, o desânimo ficara de lado, o sorriso se mostrava constante no rosto e até o gostinho da boa comida, marido e filhas voltaram a sentir em casa. Que bom, mamãe está bem de novo! Querida, você cada vez melhor! 
A dança que um dia fora contida na vida de Julia, trouxe consequências que somente foram percebidas por ela anos depois. Mas isso é coisa do passado, agora a alegria voltou na residência dos Coutinho, o sobrado de linhas clássicas com a sacada projetada sobre o jardim de inverno abrigava a família mais feliz do mundo. Parentes e amigos comentavam à boca pequena. 
O estranho nisso tudo é que Julia nunca havia se manifestado pelo gosto de música de gafieira, bolerões ou forrós, mas, logo ela dada ao erudito. Sabe-se lá o que gostamos de verdade e não contamos pra nós mesmos. 
Olavo, nas aulas de dança fazia questão de não ser chamado de doutor, embora, poucos e poucas não o tratassem dessa forma. Questão de respeito, doutor!
Amigos, aqui eu sou o Olavo de Medeiros Filho, Olavo, por favor! Dizia com um sorriso maroto que a mulherada compreendia e guardava como sinal de intimidade que um dia poderia desfrutar. 
Homem alto, esguio, educadíssimo, sempre gentil com as pessoas, principalmente com as damas. Um pé de valsa que obviamente nem fazia sentido estar ali de tão bem que arrastava as parceiras nos passos compassados. 
Os cabelos escuros nada grisalhos que talvez fossem tingidos discretamente, sempre bem penteados. Os óculos com aros finos de osso preto com as lentes cristalinas, justos ao rosto bem desenhado. O bigode de fios curtos são mantidos do tamanho certo, fio a fio e acrescentam ao conjunto o charme de galã, admirado pelas mulheres. O olhar do Dr Olavo era sedutor demais, olhar de homem forte, viril, mas que ao mesmo tempo deixava traços de menino indefeso à procura da mãe. Ele fazia uso dissimulado da personalidade confundindo a percepção feminina. O cavalheirismo tão fora de moda, nele, era abundante. 
O grupo que se encontrava no salão para dançar e descontrair nas noites de terças e quintas feiras, não passava de umas vinte pessoas. Entre homens e mulheres, quase que divididos em número, pendendo por uma ou duas mulheres a mais, talvez, tinha a idade variada entre 37, 38 até 50 e poucos anos. O professor Durval de Campos, um veterano dançarino da noite paulistana, dava aulas todas as noites, pois esse era o seu ganha pão e os alunos gostavam muito dele. Alegre e brincalhão fazia com que o recém chegado se descontraísse de imediato, logo nos primeiros minutos de aula. 
Foi assim que Julia conheceu Olavo e como as outras da turma, encantou-se com o charme do tão formoso doutor.
Foi difícil para ela admitir, mas passadas algumas semanas de convívio a aproximação foi inevitável. Julia Maria Venâncio de Oliveira Coutinho, esposa fiel do então amado esposo, Raul Coutinho e mãe de duas filhas adolescentes, Nancy e Luiza, aos 38 anos de idade, rendeu-se ao que jamais ela poderia imaginar,  que fosse um dia acontecer: a possibilidade de sentir-se atraída por outro homem. Julia deu-se conta de muito mais, que Olavo habitava seus sonhos, dominava-lhe a alma segundo a segundo do dia e da noite, pervertia suas fantasias, a enlouquecia com seu charme. Sim, ela estava completamente envolvida com aquele estranho homem. 
O psiquiatra nada queria de Julia além dela mesma. Por dois anos teve o que queria e satisfez-se até não querer mais. Cansou-se dela e partiu para outra. Até deixou o curso de dança de que tanto gostava. Hoje, Dr Olavo de Medeiros Filho, Olavo para os íntimos, psiquiatra renomado, formado pela USP, para relaxar das mazelas psicológicas alheias, se entretém nas aulas de pintura em óleo sobre tela, duas vezes por semana, às terças e quintas feiras, e não mais à noite, preferiu às tardes, entre 14 às 17 horas. Terças e quintas feiras à noite, assim como os outros dias da semana ele se dedica à Yolanda, sua amada esposa. 
Julia Maria Venâncio de Oliveira Coutinho, mulher de quarenta anos bem conservada, procurou ajuda em outros cantos, faz terapia com a psiquiatra, Dra Elenice de Camargo, não menos renomada que o Dr Olavo, e toma muita medicação anti depressiva. Raul prospera nos negócios e pensa em abrir mais uma loja de calçados, mas somente após a cirurgia de safena que seu médico recomendou, em vista da série de pequenos enfartes que Raul andou tendo. 
Nancy de Oliveira Coutinho passou no vestibular e entrou para Medicina na USP, quer ser psiquiatra famosa e reconhecida como o da Rua Miguel, duas travessas acima, este sempre foi o seu sonho.  E Luiza, mais desencanada, curti Comunicação, Jornalismo na Cásper ou Rádio e TV na Anhembi-Morumbi, talvez. A galera toda tá indo pra lá! 
Cresce a classe média no país. Menos pobres no Brasil, menos miséria ou como diria o outro: menas fome, companheiro! Isso é bom, isso é mais do que bom, isso é ótimo. De certo é resultado da economia orientada alinhada com o mercado mundial. 
Contudo, vem à tiracolo, a angústia e as aflições dessa casta social. Choram de barriga cheia lamentando valores do século XIX. 
Oh, dó!

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