18/03/2013

O Pianista das calças curtas

Acho que foi numa tarde de outono ou de início de inverno do ano de 1963, me lembro ser um dia frio e meio nublado, minha mãe e eu saímos de casa em direção a uma escola de piano. Ela acreditava piamente que eu levava jeito pra coisa e de tanto que argumentou, convenceu meu pai para que pudesse me matricular num conservatório musical. Ela queria mesmo fazer do filho um artista. 

A escola mais próxima ficava na Vila Mariana e nós morávamos na época no bairro do Ipiranga. Muito longe de casa, portanto, foi descartada de pronto. Além da despesa com passagens de ônibus, ela teria que me levar e me esperar nas aulas todos os dias. Não dava mesmo e nessa escola nunca pisei. 

Fez que fez até que descobriu dona Maria de Lourdes, uma professora de piano particular que morava nas imediações. Não tão perto, mas dava para eu ir a pé. 

A memória pode estar falhando nessa altura do campeonato, mas acredito que a distância de casa até a professora era mais ou menos uns três quilômetros. Só sei que andamos muito até chegarmos lá. 
Subimos e descemos várias travessas por pelo menos meia hora e nos passos mais que acelerados da dona Angelina que a essa altura pra mim era a pessoa mais determinada do mundo. 
E eu nada convicto e com ares de menino castigado.  Procurava me conformar pois poderia ser pior, muito pior, aliás: já pensou se ela cismasse com harpa? Sorte a minha Chopin ter sido um pianista e pobre do meu irmão, pois ela deixou escapar que no ano seguinte iria ser a vez dele, direto para uma escola de violino. O desejo dela era ver os meninos de ouro brilhando nas orquestras sinfônicas pelo mundo.
Ao chegarmos no endereço que foi marcado num pedaço de papel, ela conferiu o número várias vezes até se certificar que o local era mesmo aquele. Bateu palmas diante do enorme portão verde que ficava ao lado esquerdo do muro pintado de branco, quando o cachorro latiu ferozmente nos assustando. Me lembro de ter dito alguma coisa no sentido de que deveríamos voltar em outro dia. O safanão e o cala boca veio rápido.
Pelas frestas do portão vimos se aproximar uma senhora usando óculos que não me pareceu nada simpática. Boa tarde daqui e dali, minha mãe se apresentou e em seguida disse: este é o meu filho e quero que ele seja um pianista clássico.
A senhora gorda abriu o portão e nos fez entrar, mas antes ela espantou o cachorro num único e seco comando que correu  obediente para os fundos, escondendo-se por de trás de um cercadinho e nós acompanhamos em silêncio dona Maria de Lourdes até a entrada da residência.
Atravessamos uma sala um pouco escura até chegarmos a uma outra menor onde ficava um antigo e conservadíssimo piano. Logo acima da tampa que protegia o teclado eu li: Brasil. Nunca havia estado tão perto de um piano. Sinto o cheiro dele ainda, madeira nobre envernizada. 

__ Você tem certeza que quer se tornar um músico, menino? Espera ser mesmo um pianista? 

Pela voz estridente postada a minha resposta óbvia seria um não do tamanho da bunda dela. Porém, mais óbvio ainda, com minha mãe por perto, a resposta foi um mal ouvido, sim. E com o pigarro discreto dela que só eu reconhecia, reforcei a afirmação: 

__ O melhor de todos, dona Maria de Lourdes. 

No pensamento, uma lança guerreira atravessou a velha filha de uma puta. 

Duro não foi suportar a sisuda dona Maria de Lourdes, difícil mesmo foram os três primeiros meses de teoria e solfejo.

Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro. Um, dois. Um dois, três, quatro. Sempre com a mão direita marcando o compasso fazendo o desenho da cruz como no Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, enquanto solfejava o um, dois, três, quatro e a mão esquerda apoiada firme sobre o joelho. 

Aprendi sobre o pentagrama e onde se posicionavam as sete notas musicais, eu até que gostava de riscá-las no caderno pautado. Eram precedidas da clave de Sol, uma espécie de S ao contrário em letra corrida, ou a clave de Fá que me lembrava mais um ponto de interrogação sem o pingo em baixo dele. As semi-notas, os sustenidos e os bemóis. Compassos binários, terciários e tantas outras formas que nem lembro direito.  
Ela obrigava eu fazer provas escritas e orais à cada quinze dias e minha mãe tinha que assinar as provas e ai de mim se aparecesse com notas baixas. A coisa não ficaria somente no pigarro.
Surpresa mesmo foi quando conheci a filha mais nova de dona Maria de Lourdes. Garota que virou a cabeça do moleque. Geralmente ela não ficava em casa durante as minhas aulas que eram de segundas feiras, quartas e sextas. Mas por alguma razão, numa daquelas tardes a menina não foi à escola e por lá perambulou. 
Ela devia ter uns dez ou onze anos, acho que era um pouco mais velha que eu. Bem magrinha e um pouco mais baixa, a ponto de eu, perto dela, me sentir um gigante. 
Meu coração disparou logo quando a vi e a partir daquele dia decidi ser mais que um mero pianista clássico, seria o melhor de todos de todos os tempos. Chopin seria um polonês fracote comparado a mim. Ao invés de um Noturno eu escreveria para ela um Diurno e Rita de Cássia, a linda filha da megera professora seria a primeira a se render ao talento extraordinário de Roman. (Esse seria o meu nome artístico)
Durante um ano e meio a vi meia dúzia de vezes no máximo, mas cada vez que cruzávamos os olhares e os consequentes sorrisos eu me certificava que estava mais enfeitiçado que o Romeu pela Julieta Capuletto. 
Um dos encontros foi numa festa de aniversário de um amigo em comum. Não acreditei quando a vi chegando com os cabelos presos por um laço grande e com uma saia xadrez. Me senti um cara bobo babando baba. 
Contra meu gosto minha mãe me obrigou a ir pra essa festa com calça curta. Me lembro da cor dessa maldita calça, marrom clara. Na época era comum crianças vestirem-se de calças sociais até os joelhos, mas eu queria mesmo era me mostrar como um adulto, ainda mais depois que Rita de Cássia apareceu por lá.
Esse foi um dia do qual jamais esquecerei. Conversamos e brincamos muito, toda a garotada brincou, mas somente eu ou talvez ela estávamos com os corações apaixonados. A festa foi boa.
Tempos depois nos mudamos do Ipiranga e fomos parar num bairro mais distante ainda, chamado Vila Nossa Senhora das Mercês. A nova casa ficava numa rua sem saída, de terra e terminava num matagal. Moramos nela durante quase um ano somente. 
Mesmo assim minha mãe não havia desistido da ideia de me fazer ser um pianista e conseguiu outra escola naquele bairro. A professora era uma senhora que falava tão baixo que mal podia ouvi-la. Ela era legal, divertida, pena não me lembrar do seu nome. 
Na nova casa e na nova escola fiquei somente um ano. Nos mudamos novamente e na terceira tentativa, fiz que fiz que dissuadi minha mãe de querer me fazer um pianista. Nessa época eu olhava com bons olhos para as guitarras elétricas.
Prometi a ela que estudaria muito e quem sabe eu seria um médico ou um engenheiro. Acho que ela compreendeu meu desespero.
Com essa me livrei do piano e meu irmão, de sopa, nunca chegou perto de um violino.
Hoje eu penso que poderia ter dado mais atenção ao que minha mãe queria. Ter percebido,  usado mais a sensibilidade pra enxergar o esforço que ela fazia pra ter um filho músico de verdade. Afinal, eu adoro música e até que toco um violãozinho mais ou menos. Quem sabe eu teria sido um bom pianista. A gente erra muito na puta da vida. Só depois, bem depois que a gente começa a aprender.
Mãe, desculpa ai! Valeu, beijos.


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