30/03/2013

Beatles, Pelé, Shakespeare, Suely, Zeffirelli e Rita.

ELES TÊM MUITO EM COMUM.
Três fatos marcaram o ano de 1970 para mim: o anúncio que os Beatles iriam se separar, a conquista da Copa do Mundo no México e a minha primeira namorada, a que foi, embora nunca tivesse sido. 
Com o primeiro fato fiquei desolado, afinal, desde 1964 eu acompanhava pelas ondas do rádio e pela vitrolinha o que havia de mais revolucionário no mundo em termos de música e comportamento. Dos dez aos dezeseis anos eu curtia e esperava o lançameto dos LPs e os compactos simples. Não comprava nenhum deles, não tinha grana, mas era bom demais ver os cartazes nas lojas de disco e ouvir as músicas novas. A molecada jogava bola e empinava pipa, que na época chamávamos de "quadrado",  delirando ao som de  Love Me Do, Please, Please Me, Twist and Shout, I feel fine e outras tantas. O rock e as baladas ingênuas dos Beatles eram temas de fundo nas brincadeiras e nas paqueras. Eu lia as notícias sobre o conjunto (era assim que se falava das Bandas) pela revista Intervalo, especializada em TV, rádio e música e pelas matinês dos domingos com os filmes, A Hard Day's Night, que aqui levou o patético nome de "Os Reis do Iê Iê Iê", Help e Let It Be, este já na fase final.
Me lembro do locutor da rádio Bandeirantes anunciando que os Beatles iriam se separar, que a convivência entre eles estava cada vez mais difícil. Que Paul, John, George e Ringo não se entendiam mais como antes e que tudo iria para o inferno. Não acreditei de início, pois nos filmes e revistas via que os quatro cabeludos de Liverpool eram muito amigos. Tempos lentos e ingênuos aqueles. 
O segundo fato importante foi a conquista do Tri. O Brasil de Médici sagrou-se três vezes campeão do mundo e mostrando ao mesmo mundo, pra nós pelo menos, que era de verdade, "um país que ia pra frente". Zagalo era o técnico, Félix, o goleiro, Brito, Carlos Alberto, Wilson Piaza, Everaldo, Clodoaldo, Gerson, Jairzinho, Tostão, Pelé e Rivelino. Foram seis jogos do Brasil, seis dias espetaculares com vitórias mais que comemoradas sobre a Tchecoslováquia por 4 x 1, da Inglaterra por 1 x 0, Romênia por 3 x 2, Peru de 4 x 2, Uruguai por 3 x 1 e com a Itália na final inesquecível, por 4 x 1. Era muito para um rapaz  de 16 anos que como eu, amava os Beatles e os Rolling Stones.
Em cada jogo eu chorava de alegria e acreditava mesmo que o Brasil era um país de gente alegre e tão contente. Pelé arrebentou na Copa do Mundo, enquanto os brasileiros eram arrebentados pelo Brasil. Alguns, literalmente. 
O terceiro fato marcante foi eu ter experimentado o gostinho azedo da decepção, o da rejeição amorosa, daquelas que via no cinema e na televisão, que até então, não pensava que poderia acontecer comigo. A menina da escola, a que lembrava muito a Julieta do filme de Franco Zeffirelli, chamada Suely, (com ipsilon mesmo) não gostava tanto de mim como eu imaginava que poderia gostar. Paguei pau por ela o ano todo e somente no final, nos últimos dias de aula, consegui o sim. Forcei tanto até ouvir o "Tá bom, vamos namorar!"  Me lembro do olhar de desdém dela, meio que, "que cara chato, fico com ele uns dias e depois… chega". História muito diferente do filme que fazia sucesso na ocasião.
Durou uma semana este micro namoro, aliás eu nem sabia como namorar. Ficava o tempo todo contando vantagens para impressioná-la, achando que com isso eu estava abafando. O pior é que muita gente dizia que parecíamos mesmo com o Romeu e Julieta do filme, tanto eu quanto ela lembrávamos os jovens atores. Só lembrávamos, pois nem de longe, por parte dela é certo, a paixão era doentia. 
De um sábado morno em uma tarde nublada, dia em que me senti o cara mais feliz do mundo, até a sexta feira da semana seguinte, que pra mim foi uma Sexta Feira-13, das mais 13 que poderia ser, tive uma semana que ficou na memória como a da semana da desilusão
Na verdade não foi somente esta semana que vivi aflições, de março ou abril daquele ano, desde o momento em que a conheci até o derradeiro "não quero mais namorar com você, você é legal, mas…", muita coisa aconteceu que me deixavam amargurado. 
Nesse aspecto, num todo, o ano de 1970 foi mais triste do que legal. As paquerinhas de início, o dia em que alguém nos apresentou formalmente, apertávamos as mãos na época nessas oportunidades, os recadinhos fortuitos, os encontros rápidos, os sorrisos e outras coisas assim, foram as partes boas da história. Às vezes acreditava mesmo que ela gostava de mim, mas em outras ficava na dúvida e no final, a constatação, a conclusão de quanto tinha sido um moleque idiota em pensar que ela me queria. O que ela pretendia mesmo, eu vi depois, era tirar um sarro da minha cara. Nada mais que isso. Mico puro.
Até surra eu levei da molecada da rua onde ela morava, lá no Pari na Rua Silva Teles quase esquina com a Rua Cachoeira. Mal sabia eu que a Suely era a queridinha do valentão do pedaço e que dele, descobri eu, ela gostava. Acho que ela me usou para provocar ciúmes no moleque.
Só sei que nesta sexta, por volta das nove da noite, uns quatro ou cinco pivetes me cercaram e logo foram dando porrada. Meus óculos voavam o tempo todo e eu me arrastava pelo chão para pegá-los antes que um deles metesse os pés nos aros.
Levei, mas dei porrada também, até no grandão metido a besta que se julgava o dono da situação. Apanhei até ser socorrido por uma senhora que me levou pra dentro da casa dela, cujo marido, acho que com pena de mim, me levou com seu fusca até próximo de casa.
Foi uma sexta-treze no melhor estilo. Além de ter ouvido o "não quero mais" da Suely, acabei chegando em casa com manchas de sangue pelas roupas, deixando minha mãe mais brava ainda e quase apanhando de novo. Fui dormir com o coração dolorido, doía mais que as dores dos hematomas do corpo.
O desfecho do namoro foi diferente do filme do Zeffirelli, acho que a menina não suicidou-se e tão pouco sei se ela ficou com o valentão. De minha parte não cometi suicídio algum, embora meu desejo na época fosse de sumir para sempre. Sorte a minha que esse sempre durou pouco, logo, eu estava envolvido com outras aventuras. 
Passando a régua. Os Beatles não acabaram, para mim não, eu os carrego na mochila desde 1964. Da seleção brasileira do "Tri" acho que foi super legal eles terem vencido, mas depois percebi que por de trás daquilo tudo havia muita coisa das quais eu deveria ter me atentado. Aliás, atentado, era uma palavra proibidíssima em 1970.  Na verdade, ainda é. E da decepção ficou a lembrança de uma linda e singela bobagem de adolescente, bobagem que me serviu de lição. 
Fui, sou e serei mais feliz com a mulher com quem me casei oito anos depois de 1970. Essa sim não tira sarro de mim. Briga comigo às vezes, mas pra ela, eu sei que sou ainda o valentão do pedaço. Além do que, ela curte os Beatles e não está nem aí com a seleção, com a surra que levei, nem com Shakespeare e muito menos com Franco Zeffirelli.
Boa Páscoa, pessoal. 


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