24/03/2013

Coincidências

Elas existem ou alguma coisa não compreendida atua na vida da gente?

Acordei cedo lembrando da noite de sonhos que remeteram ao passado. Sonhos com pessoas falando o tempo todo. Amigos, parentes e desconhecidos ao meu redor pedindo atenção e em meio a tantas imagens e sons que se seguiam freneticamente sem ordem cronológica, uma em especial se destacou: uma passagem numa madrugada de agosto de 1978. Acordei lembrando dela.
Como de hábito, depois do primeiro café e do primeiro cigarro do dia, liguei o computador. Também de hábito, li algumas notícias muito rapidamente e depois cai no facebook. Gasto uns trinta minutos quase toda manhã rodando as publicações.
Uma postagem me causou estranheza e fazia somente umas três horas que havia sido publicada, bem enquanto eu dormia. Uma foto e com ela a pergunta: Romeu, lembra? (alguma coisa assim). Nela eu vi chocado o que restou do Teatro Manoel da Nóbrega, estúdio onde trabalhei nos primeiros anos da carreira e que foi destruido numa madrugada de sábado para o domingo, em uma noite não muito fria de inverno, lá em 1978. 
Senti um frio na barriga e a nítida sensação de ter alguém perto de mim, bem ao meu lado, sussurrando ao meu ouvido como que querendo ver a foto comigo.

A LEMBRANÇA FRAGMENTADA

No sábado, 19 de agosto de 1978, perto das onze e meia da noite eu estava em casa descansando depois de um dia intenso de trabalho. Minha mulher eu juntos estatelados no sofá assistindo TV. Havíamos casado fazia oito meses e ela estava grávida do meu primeiro filho. Nos demos conta que ouvíamos caminhões circulando pela avenida próxima, a Alfonso Bovero com as sirenes tocando muito alto. Muitos caminhões e isso chamou nossa atenção. Me lembro dela dizendo que provavelmente acontecia alguma ali por perto. 
O filme foi interrompido por um plantão, uma edição extraordinária, com o locutor dizendo: "Violento incêndio destrói neste momento o estúdio de Silvio Santos no bairro da Pompéia. Equipes do Corpo de Bombeiros tentam apagar as chamas que alcançam os apartamentos vizinhos…" Algo assim.
Controlada a sensação de desmaio, dez minutos depois eu estava lá, em meio aos curiosos, bem na esquina da Rua Cotoxó com a Avenida Alfonso Bovero. 

Ouvimos um forte estrondo que me pareceu ser do teto caindo e um tufão de fumaça preta saindo pelos ares.
Fiz que fiz até conseguir ultrapassar o cordão de isolamento chegando mais próximo do teatro que naquela época sentia ser meu, só meu e que o fogo criminoso roubava de mim. Tenho certeza que os amigos que, aos poucos foram chegando, sentiam a mesma coisa. Escondíamos uns dos outros nossas lágrimas. Tempos machões demais.
Três horas antes havíamos saído lá de dentro, alguns colegas e eu, bem naquela esquina onde tomamos umas cervejas no Bar do Toninho. E agora tudo perdido. Nosso teatro não existia mais.

Na postagem do facebook deixei a resposta ao amigo e corri para o acervo dos jornais para buscar informações sobre essa noite, fiquei em dúvida quanto a data e no da Folha de S.Paulo encontrei a reportagem publicada no dia 21, uma segunda feira daquele mês, daquele ano, dizendo: "até ontem a perícia não encontrou as causas do incêndio que destruiu os Estúdios da TV-S…"

Em 1978 não existia internet. Pelo horário da ocorrência, um final de sábado, 19 para o início do domingo, 20,  a notícia pode ser veiculada neste jornal, somente na edição de segunda feira. Hoje em dia, twitters divulgam ao mundo onde estamos e o que estamos fazendo em instantes. Naqueles tempos as coisas eram bem diferentes.

O sonho que me levou até 1978 se encontrou com a rede social em 2013 também em instantes. Coincidência ou não me deixaram perplexo, mas ao mesmo tempo feliz, pois percebi que ao longo da vida tive oportunidade de conviver com gente forte e com elas a chance de aprender a ser forte também. Coincidência?


Bom domingo, pessoal.
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