29/06/2013

Contrações

Amigos, não se trata aqui de uma dissertação sobre assuntos parturientes. Trata-se de uma manifestação diante do susto que meu cérebro levou ontem quando foi submetido ao encontro com uma antiga palavrinha que provavelmente fora inventada pela malandragem.


Paca 

Alguém sabe o que é paca

Não me refiro a espécie de roedor da família Cuniculidae - Cuniculus Paca, o estranho rato gigante que aparece de vez em quando passeando às margens do Rio Tietê. Falo do advérbio. Acho que a paca que me refiro é um advérbio.

Ouvi um amigo usando essa expressão e me assustei. , quanto tempo! Ainda está nessa de falar paca, cara? Há muito não a ouvia. Paca é retrô total, mas bem é sacada

Paca. Que diabo é isso então? Que palavrinha mais esquisitona é essa? Parece coisa de grego ou de hippye velho que hoje usa paletó e gravata num prédio da Avenida Paulista.

A Paca que digo quer dizer muito, para quem não sabe ou não se lembra. Eu lembrei dela sem qualquer esforço e com uma ponta de vergonha que me fez baixar a cabeça.

> Bom pacas! - Muito bom! 

> Essa mina é linda pacas! - Essa menina é muito bonita!

Os mais velhos compreenderão, usávamos pacaspaca.

Puxando pela memória e talvez com um exagero de criatividade por cima, me recordo que o pacas era usado pela turma lá no final dos anos sessenta ou início dos setenta, por ai. Pelo menos é o que busquei nos neurônios ou de quando me dei conta de quanto a usávamos. Lembrei também das calças boca de sino, saint tropez e a tipo toureiro de cintura alta, todas coloridas pacas.

Nessa época não se falava palavrões como hoje, nem pensar em usar um simples é foda, um fodeu ou um foda-se em qualquer lugar. Nem fodendo que falávamos coisas assim de boca aberta. Hoje até na TV ouvimos alguns palavrões e nem levamos em conta, ultimamente até sem os piiiis da censura interna. Estrategicamente usado pelo artista, as palavras tidas como de baixo calão, dão a ele um ar de despojado, de descolado. Meio que chique e em moda. 
Me recordo da porrada que levei da minha mãe quando de longe ela me ouviu dizer um i caralho, fodeu. Me lembro dela se aproximar toda puta da vida e com as costas da mão sentar o pau na minha boca. Foi assim eu perdi meu último dente de leite.

Nunca mais fale palavrões, moleque filho do capeta!

Provavelmente o paca nasceu na calada da noite, um código oriundo da contração do "para caralho" - PA da primeira e CA da segunda, ganhando melhor sonoridade e aceitação dos enrugados senhores e senhoras adventistas da moralidade. 
O "bom pra caralho" resumiu-se num simples "bom paca" ou "bom pacas". Tolerado meio que como o de porra, contraído do esporra que na verdade significa esperma, o sêmen da procriação.
Aliás, o bom pra caralho e o du caralhu, mereceriam nossa atenção, mas vamos deixa-los para qualquer outro dia desses.

Lembrei agora do coitado. O coitado é aquele que sofreu um coito, portando um fodido, fudido num português claro. No começo do século vinte essa palavra era tida como um puta palavrão. Hoje o coitado é comumente utilizado até por cardeais. Incorporou-se ao cotidiano.

O legal é que reencontrei um velho e bom companheiro, que há muito não via, melhor dizendo, há muito não o ouvia, paca ou pacas. 

Fazia tempo pacas que não te ouvia, Paca. E veio logo no plural, heim, em turma, como nas velhas gangs de bairro, lembra? 

Porra, que legal! Bom pacas de ver, meu chapa. Andou contraído, é?

Pronto, me acalmei.

Postar um comentário