27/06/2013

O PÉ-DE-CABRA


O HOMEM QUE NASCEU DE UM OVO E VIROU MAIONESE

Não se sabe o que passa na cabeça de um homem doente. Para ele o errado é o certo e o certo é incerto.
Uemor Sirap

Ele sentiu a luz da lua cheia cair-lhe aos olhos pela primeira vez em 1776, quando a casca do ovo que o embalava partiu-se ao chão na queda dos quase cinquenta centímetros. O choque foi grande, acordou assustado, prematuramente.
A mãe morena, vítima de um questionável estupro, por horas seguidas deu-se aos prazeres da carne com cinco homens mal cheirosos que antes caminhavam a esmo pelas matas atlânticas a oeste da região plana dos Piratiningas, próxima a um grande rio. 

Embora todos da cercania soubessem que a menina com ares de indiazinha que de nada nos modos parecia com os pais, estes, rígidos seguidores da fé cristã, perguntavam-se o que faria ela sozinha a seguir pelas trilhas que levavam à floresta tropical nas tardes do verão daquele ano, sempre após as chuvas torrenciais que invariavelmente eram levadas pelos ventos noroestes.

A violência entre os corpos nas duas horas subsequentes foi tamanha que nem os nove meses foram necessários para trazer ao mundo um pequeno ser. E muito menos ele necessitaria de leite materno para a sobrevivência, pois os ovíparos gostam mesmo é de insetos e minhocas.
Mal acabaram os orgasmos e todos se retiraram, os seis, a mãe para um lado e os cinco pais para o outro, deixando para trás, por entre as folhagens da mata densa e úmida, um pinto com feições humanas. Abandonado, como se não fosse nada. Talvez não fosse mesmo.

Os anos se passaram e 1948 chegou.

O pinto, que até então dormia um sono profundo, tal e qual um esquálido cadaver, despertou e logo enxergou-se um homenzinho. Até um horrível cavanhaque plantou-se ao queixo e a calvice, já proeminente, prolongava a sua testa. A mão direita sentiu esses pormenores, enquanto a esquerda descansava no quadril.

Um espelho, sabe-se lá como foi parar ali, serviu de reflexo à aberração. Ele não gostou do que viu. Notou que seus olhos miúdos, obtusos, eram frios. As sombrancelhas arqueadas de fios grossos eram ranzinzas demais, o rosto em formato triangular lhe acentuavam o quê da imbecilidade. 
Percebeu a barriga projetada, estufada, muitos insetos e minhocas ele deve ter comido durante a hibernagem, pensou. Os vermes não lhe corroeram, ao contrário, foram corroídos por ele.

As árvores que observara de relance no momento do pré nascer, desapareceram quase que por completo, uma ou outra ele via agora e em seu lugar plantaram uma chácara, um sítio em meio a um acharcado. Verduras e legumes, couves, cenouras, abobrinhas, tomates, tudo em abundância. 
De longe avistou um grande rio, ouviu deste águas nervosas batendo às margens que sorrateiramente infiltravam-se pela planície formando pequenos córregos, ranhuras no alagado. As montanhas ao fundo seriam prenúncios da Cantareira. Magníficas, entornavam o vislumbre do cenário.

Onde estou? 

Sentiu o coração pulsar acelerado. O medo repentino se espalhou pelo corpo que o fez suar. Um sentimento estranho se escancarou, pareceu-lhe de vingança, uma revanche atordoada, incontrolável. Ódio, rancor, vontade de matar alguém, sem ao menos saber exatamente quem. Ira intensa, afinal, cento e setenta e dois anos afetariam a razão de qualquer pessoa. Nele, pelo visto, muito mais. Assombrosamente, mais.

Levantou-se, deu-se conta da nudez e do tamanho diminuto do membro que lhe conferia o gênero. O viu pequeno, incompetente e absolutamente atrofiado sobre o acolchoado de pele enrugada. 

Ao lado do espelho notou uma ferramenta enterrada na lama, puxou-a e surpreendeu-se com o peso e com a forma, era um pé-de-cabra.
Resolveu que aquela peça de ferro talhada seria o seu amuleto, dali para frente estaria com ela em todos os momentos da vida. 
O metal servil com uma das pontas torcidas para dentro, recortada num feixe aberto, lembrava e muito uma pata caprina. 
Seria ela o seu guia, a sua referência, a luz da redenção para os novos tempos que viriam e se possível ao som erudito de músicas clássicas. Deu-se conta da mania.

Nas entrelinhas, indagou:

Quem sou eu? Nem nome eu tenho! 

Marquinhos. Acho que era esse o nome de um de meus pais. Pois assim será o meu nome. Combina com a minha cara, com minha personalidade e com este instrumento sempre nas mãos (erguendo aos céus a ferramenta), conquistarei o mundo! 

Marquinhos-Pé-de-Cabra. Sou a "bola da vez".

Dos varais próximos a uma pequena capela, provavelmente construída para abençoar os chacareiros da região, ele subtraiu a vestimenta. Uma calça, uma camisa de linho, meias, e uma botina preta. Desnudou-se. Foi a sua primeira subtração. 
Gostou tanto do que fez que acreditou que e apropriação indevida seria a única forma de ter a alma lavada e assim balizaria seu caráter. 
De insetos e minhocas ele se cercaria, para que as ideias que nele transbordavam aos montes, pudessem se estabelecer fertilmente.

Assim chegou ao mundo, Marquinhos Pé-de-Cabra, o que nasceu duas vezes de um ovo que fora lançado abruptamente por entre as folhagens de uma selva tropical e que fora negligenciado por uma mãe desnaturada, dada ao sexo promíscuo com quem lhe aparecesse pela frente, quando não pelas traseiras.

Foi-se, para vencer o mundo.

…continua

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