02/06/2013

A revelação de Josmar.

Josmar foi passear num domingo de sol e se deu mal. A ideia era pegar o carro ir, direto para o Ibirapuera pra passar o dia no parque com a família.
Saindo da Brasilândia o caminho mais curto era chegar na Marginal do Tietê, atravessar a Paulista, descer a 23 e antes da entrada do túnel, pegar à direita. Muito fácil.
Desde o início da semana ele, a esposa e os dois filhos pequenos só falavam disso. Domingo ia ser o dia da alegria. Pai, mãe, filhos e o cachorro Dog no Ibirapuera.

Encheram a caixa de isopor com cervejas, refrigerantes e lanches feitos pela mãe. Não sabiam se poderiam comer na área do do parque, se tinha lá um lugar para um pique-nique, caso não pudessem iriam fazer a refeição no carro mesmo. Tudo bem, era dia de festa.
Sete e meia da manhã todos prontos, o dia tinha amanhecido perfeito. Um sol forte que desde às cinco e meia já mostrava que viria com tudo.

Embarcaram no Chevette 76 que Josmar recuperou a duras penas. Todo pintadinho de azul escuro, parecia carro de rico e melhor ainda, documentado. Os pneus segurariam a onda até o próximo mês. A parte elétrica estava em ordem - faróis, buzina, setas. Tudo bacana mesmo.
Chave no contato, ele se sentido o dono da cocada preta, camiseta polo listrada em vermelho, branco, verde, azul e lilás, num perfeito arco-iris, permudão jeans e sandálias de couro.

Sai daqui, sai dali, alcançaram a Marginal e nela seguiram até a Ponte da Casa Verde, um pouco antes dela entraram à direita e foram caindo para a esquerda. Um viaduto à frente dividia os caminhos, faróis num grande cruzamento. Por ser um domingo cedo Josmar notou que o trânsito estava um pouco acima do normal e comentou com a mulher:

__ Cacete, tá cheio hoje aqui. Deve ter alguma merda lá na frente.

Rosália não reagiu pelo desabafo do marido. Continuou olhando o trânsito, os edifícios e os carros ao lado. Alguns carregavam pessoas estranhas de cabelos e óculos coloridos.
Os meninos seguindo orientação do pai permaneciam quietos. Somente Dog, o cão, não se continha, latia para os vizinhos o tempo todo.
Quando chegaram próximos da Avenida Dr Arnaldo, numa ladeira que dá acesso a ela, Josmar reclamou de novo:

__ Não falei, tinha merda mesmo! Que caraio de tanto carro e tanta gente esquisita.
__ Deve ser alguma missa de gente importante, Jo. Tentou justificar a esposa fiel.
__ Porra, mas justo hoje, caraio?

Seguiram quando o farol finalmente permitiu. Atravessaram a avenida com muito custo entrando à esquerda para pegarem a direção da Paulista. Quase parados, dez por hora.
Josmar não conhecia direito a região, ficou com receio de sair do trajeto minuciosamente estudado ao longo da semana e se perder. Foi em frente lamentando a lentidão.

Olhava para o relógio a cada 30 segundos. Reclamava, dizia que estava perdendo tempo e sempre com um putaquepariu.
Faróis, carros saindo de uma pista para outra e Josmar finalmente chegou na Avenida Paulista. Queria mostrar para a família o quanto ela era bonita.

__ Nossa pai, é grande mesmo!
__ Maior que na novela, né mãe?

As crianças e a mulher só conheciam a famosa avenida pela televisão. Estavam em São Paulo não fazia três anos e tudo era novo para eles. Nunca tinham visto de perto tanta gente numa única rua.
O Chevette 76 pintado de azul escuro, com elétrica em dia não resistiu a tanta troca de marcha. A fricção abriu o bico, só entrava primeira e a terceira, mesmo assim com certo esforço.

__ Puta que pariu!
__ Calma, Jo. Encosta o carro na calçada, e vê o que foi que aconteceu.
__ O que que aconteceu, pai?
__ Essa porra está dando merda. Fica quieto ai, não enche o saco!

O cachorro só parou de latir depois de ter levado dois safanões bem dados por Josmar e escondeu-se assustado no assoalho acarpetado do carro.
Subiu com dificuldade com as rodas direitas na calçada e estacionou. Desceu, abriu o capô tentando encontrar algum fio solto. Mexe daqui e dalí e nada.

__ Olha vocês ficam aí que eu fou procurar algum mecânico. Deve ter um por aqui e volto logo.

Saiu com a cara emburrada, chingando o vento à procura de socorro.

__ Que merda é essa! Nunca vi tanto viado junto. O cidade de gente doida essa! Falou sozinho

A Paulista no domingo estava lotada. Polícia, jornalistas, fotógrafos, televisão, rádio, gente pra tudo quanto é lado. Parecia festa, pensou ele.

__ Não é missa porra nenhuma, só pode ser coisa do capeta.

Josmar alimentava desde criança uma aversão muito grande por homosexuais, bichas, como ele dizia. Isso desde quando seu pai pegou o irmão de Josmar, o Lucio em carícias íntimas com um vizinho seminarista. O pau comeu solto, sobrou até para os irmãos. Ter um irmão gay era motivo de muita vergonha para Josmar.

Foi em frente, determinado, atravessando a multidão, entre os carros alegóricos, gente colorida, cantando, brincando, se divertindo e ele, todo sério, sem olhar para os lados. Lia cartazes com letras escritas com purpurina.
Sentiu passadas de mão e abraços fortuitos de rapazes admirando a macheza do morenão peludo. Homem alto, forte, pele de índio. Barba por fazer, era atraente aos festivos da avenida. Ele mais que rapidamente tirava a mão suave de cada um deles com um soco no estômago bem dado no camaleão filho da puta.

Num posto de gasolina encontrou o que procurava - um mecânico de plantão e este o seguiu até o carro e lá constatou que problema era simples de resolver, somente prender um cabo de aço que havia se soltado. Nada mais que 50 reais pela mão de obra e o transtorno.

__ Filho da puta, deve ser viado também. Ralhou em voz baixa.

O dia seguiu sem mais contratempos e até encontraram lazer entre as árvores do parque. O dia, apesar de ter iniciado difícil, terminou bem. Lá pelas seis voltaram pra casa.
Qual foi sua surpresa à noite quando assistindo o Fantástico, Josmar se viu por entre tanta gente colorida.

A reportagem registrava a Parada Gay que tinha acontecido naquele dia na Avenida Paulista. O câmera da reportagem destacou o rosto dele entre tantos na multidão. Sabe-se lá porque. Algumas tomadas, ainda pior, bem fechadas no rosto de Josmar não deixavam dúvidas, era ele.

Rosália ficou quieta, os filhos rindo baixo, o cachorro nem se mexeu. Josmar, num súbito ódio e profunda vergonha sentiu uma forte pressão no peito e caiu duro sobre o Dog.
Infarto fulminate, todos comentavam no velório. Talvez fosse pela revelação, pela descoberta de algo que ele, o defunto, quando vivo guardava a sete chaves.

__ Bem que eu desconfiava. Comentou com alguns o farmacêutico da rua de cima.

Por mais que Rosália explicasse à vizinhança, que na verdade estavam só de passagem, que o carro pifou, que ela e os filhos aguardavam o retorno do marido e pai exigente, que saiu a procura de um mecânico, ninguém acreditava na história.

__ Um mecânico.. ah sei, sim claro. Quem pensaria alguma coisa diferente.

A própria esposa, lá, bem no fundo, começou a suspeitar, afinal ela e os meninos ficaram no carro por umas três horas.

Josmar foi enterrado na segunda feira como um homem que na verdade poderia não ser tão homem assim. Pelo menos a vizinhança toda tinha certeza que não era.

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