01/05/2013

"Alguma Coisa" Para não ser um Filho da Puta como o Fiscal.

Neste 1˚ de Maio, dia do trabalho ou do trabalhador, fiz uma homenagem a meu pai e a mim mesmo. Fiz exatamente isso: nada. 

A meu pai a homenagem veio por ele ter me ensinado que o único motivo de se trabalhar tanto seria pelo fato de "se ter" (possuir) e que essa era a única forma de se conseguir  "alguma coisa". 
E a homenagem a mim mesmo foi por lembrar de estar trabalhando desde os 14 anos de idade, ininterruptamente, para somente agora descobrir que meu pai era um tremendo de um exagerado e ainda, por não saber exatamente o que significa "alguma coisa". Assim iniciei o meu dia de feriado, lembrando dessa história.
Desde criança compreendi que o trabalho era uma espécie de moeda de troca. Se eu trabalhasse eu teria, se não, foda-se eu, ficaria sem. Roubar? Nem pensar, ele me mataria e se me matasse eu estaria provocando duas tragédias em nossa família. Nesse aspecto meu pai era muito foda (intransigente).
Pensando bem, acho que sei o que ele queria dizer com "alguma coisa": devia ser algo ligado ao sossego, de se colocar a cabeça no travesseiro e dormir,  controlar as ambições, de manter-se com saúde, de guardar algum dinheiro para as emergências, comer bem e principalmente, preservar a família.
Aos 81 anos, ele se foi, e quando se foi, há muito tinha alcançado o que pagou pelos anos de trabalho. Não me lembro do meu pai tirar férias. O máximo que se permitiu foi passar uma semana na Praia Grande, litoral de São Paulo. Lembro do sorriso de alegria dele divertindo-se com a mulher e os filhos. (algumas lágrimas escaparam quando escrevi isso). Não existia tanta oferta naqueles tempos, pelo menos para nós.
Eu, exagerado como ele, acabei fazendo a mesma coisa com os meus. A eles passei a lição do velho: lutem para "ter" (e eu acrescentei o "ser" na frase). Pelo trabalho de vocês é que conseguirão ter "alguma coisa" na vida. Não se rendam para qualquer outra facilidade.
Meu pai nunca votou, achava os políticos uns ladrões, pelo menos ele dizia isso e não costumava mentir. Nunca trabalhou para ninguém, somente quando  jovem, ainda solteiro. Nunca se rendeu ao dinheiro fácil - fazia e cobrava pelo que tinha feito conforme o acordado.
Tímido que só ele, ouvi uma única vez meu pai perder a cabeça - um fiscal municipal propôs relaxamento de uma multa pelo fato de sua pequena oficina mecânica não ter um banheiro com mais de um metro quadro e nada que uns poucos trocados não pudessem  resolver a questão. 
Ouvi um sonoro e delicioso: sai daqui seu filho de uma puta! Vai tomar no cu. O fiscal saiu manso com o rabo entre as pernas e nunca mais o corno apareceu por lá. (palavras do velho)
Se bem me lembro, por eu estar na oficina nesse dia e não na escola, devia ser um feriado de 1˚ de Maio, dia do trabalho ou do trabalhador (pelo menos queria que fosse um dia desse).
Deve ser isso o "alguma coisa" que o velho sempre quis dizer: mande mesmo se você estiver seguro. Levei minha vida intuindo dessa maneira, meus filhos, pelo que vejo, são iguais. 
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