01/12/2012

O amigo da camisa amarela

Encontrei um velho amigo no shopping.
__ Alípio, como vai meu caro? Que legal, cara! Quanto tempo, heim!
__ Oi, tudo bem?
O abraço foi rapidamente e estranhamente evitado por ele e ficamos no aperto de mão. Notei que a minha alegria por vê-lo parecia maior que a dele. Acho que não nos falávamos há uns dez anos. Ele estava mais gordo e os cabelos mais ralos e mais enrugado que eu.
O Alí era um cara cheio de alegria, um gozador nato, sempre pronto pra tirar uma da cara de alguém. Trabalhamos muito tempo juntos, praticamente começamos na mesma época na TV e não havia quem escapasse das nossas armações. Bons tempos.
__ E ai, o que me conta? O que anda fazendo, Alí? Pô, cara, que legal te ver!
__ Nada demais. Levando a vida trabalhando muito. Montei aquela loja de materiais de construção, lembra? Deu certo, estou indo bem. A loja cresceu, comprei o prédio onde comecei. Deu até para abrir uma filial. Estou bem.
Ele concentrou o relato no desempenho profissional. Mas ele não me pareceu estar tão bem assim. Meio carrancudo e sem brilho nos olhos.
__ Pô, Alí! E a Lúcia... o Marquinhos... a Débora? Já devem estar bem crescidos, não é?
__ Ah! Estão bem. Cresceram, o Marquinhos já tem 22 anos e foi para a Austrália no ano passado. A Débora, fez ontem, 20 anos e se casou faz seis meses. Está grávida, meu neto nasce no mês que vem.
__ Caramba, Alí. O tempo passa mesmo. Mas e a Lúcia? Puxa, gostava muito dela.
__ Ela está bem. Respondeu seco.
Acho que ela não estava bem, pois quando Alípio se referiu à esposa, escondeu um pouco o rosto.
__ Algum problema com ela, Alí?
__ Não.
__ Não mesmo?
__ Bicho. Era assim que ele me chamava na época e o resgate veio instantâneo. Percebi que seus olhos ameaçavam lacrimejar.
__ O que foi, Alí, o que aconteceu? Me conta, cara. Olha, vamos tomar um café, tá com tempo aí? Vem cá, a gente bate um papo.
Entramos na lanchonete e em menos de dois minutos fomos servidos. Enquanto esperávamos, ele e eu nada dissemos. Ficamos olhando o lugar.
__ Diz aí cara, o que está pegando?
__ Então, bicho... tá foda. Depois de anos de casamento ando meio chateado com ela.
__ Chateato, como assim?
__ Sei lá, acho que a filha da puta anda me chifrando.
__ Ah! Para com isso, Alí? A Lúcia? Como assim? Me lembro bem dela. Puta mina legal, decente, gente boa pra caramba.
O amigo ficou calado por um tempo. Tomava o café em goles curtos,  tentando esconder as mãos que tremiam, os olhos evitavam os meus. Notei ele um pouco mais tenso.
__ Não sei. Na verdade eu sei. Não sei se sei. Sei lá.
__ Pô, Alí. Fala cara, desabafa. Estou ficando preocupado.
__ Ela tem um amante. Disse baixinho.
__ O que? Enfático, perguntei.
__ Ela tem um amante e virei um corno.
__ Tem certeza?
__ Tenho.
__ Putz! Sério? Mas... mas, como assim?  Tem certeza disso?
__ Vinha percebendo o jeito dela diferente de uns tempos pra cá. Começou a se cuidar mais. Tingiu os cabelos, emagreceu. Passou a se vestir de forma mais sensual, mais jovem. As saídas dela pelas tardes me deixavam de orelha em pé. Eu ligava em casa e ela nunca estava. Atendia o celular e cada dia num lugar diferente - médico, dentista, depilação. Eu estranhava aquilo tudo.
__ Pô, não acredito, cara. E?
__ Daí eu resolvi seguir a vagabunda.
__ Caralho, Alí! Não fale assim dela.
__ Então vi ela saindo de casa toda produzida, entrando no carro feliz da vida e vindo até o estacionamento do shopping. Aqui ela entrou no carro de um cara. Vi eles se beijando e depois os dois seguiram até um motel da Marginal.
__ Puta que o pariu, sério mesmo? Tem certeza que era ela?
__ Claro, porra! Não conheço a filha da puta?
__ E daí?
__ Pensei em entrar lá, desbaratar tudo. Encher a vaca de porrada, acabar com a vida dos dois. Mas não conseguia nem me mexer. Não acreditava no que estava acontecendo. Umas três horas depois o portão do motel se abriu e vi o carro do filho da puta saindo. Ela acariciava o rosto do amante e nem me percebeu em meu carro bem em frente a eles. 
Ficamos em silêncio por um tempo. Não sabia o que dizer. Ele se ajeitou na cadeira e disse:
__ Fiz o que tinha que fazer.
Se levantou e foi embora sem pagar a conta.
Só aí percebi algumas manchas de sangue na mão esquerda do amigo, me lembrando o fato dele ser canhoto. Ainda dei conta de uma ou outra gotícula  vermelha na camisa amarela que vestia.

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