21/12/2012

Noé, José de Alencar, Nostradamus, Maias e o Palmeiras.

O que eles tem em comum? 
Eu devia ter uns seis ou sete anos no máximo, portanto, estávamos em 1960 ou 61. Me lembro que minha mãe conversava com dona Iracema, uma vizinha gorda que morava na casa ao lado da nossa, mãe do Reinaldo, um moleque metido a besta, da Idelí e da Regina, a filha mais nova e da conversa que tiveram pela cerca de madeira que dividia os dois quintais, isso depois de dias seguidos de chuva intensa. Eu brincava ouvindo elas conversando e entre uma frase e outra, uma me paralisou imediatamente. Me deixou perturbado por um bom tempo:
__ Iracema, dessa vez o mundo vai acabar em fogo já que da última vez foi em água. Minha mãe argumentou de forma veemente diante do atraso da lavagem das roupas que a chuva ocasionou. Parece que dona Iracema iniciou a conversa reclamando alguma coisa assim.  Aquilo caiu como uma bomba na minha cabeça. Como assim, o mundo acabou um dia?
Dias depois quando folheava um livro cheio de ilustrações misturadas aos escritos bíblicos, soube da história de Noé e de sua arca.
Imagem Google
Noé, um velho pastor que cuidava do rebanho com bondade de santo e um homem dado às coisas do céu como ninguém em sua época. Ele ouvia vozes estranhas chamando por ele a todo momento: Noé! Noé! 
Assustado olhava para um lado e para o outro e nada via além dos filhos, noras e esposa entretidos no trabalho.
Certa vez Deus o chamou pedindo para que construísse um enorme barco, ali mesmo onde moravam, distante de lagos e do mar. Foi motivo de chacota do povo. No livro o barco era chamado de arca. Eu não tinha ouvido falar em arcas até então. A palavra foi nova e soou bonito aos meus ouvidos.
Noé deveria abrigar sua família nela e também pares de animais de todas as espécies, machos e fêmeas, pois o dilúvio viria a destruir tudo e ninguém sobreviveria aos quarenta dias de chuvas fortes que se seguiriam. Dilúvio foi outra palavra nova que me agradou.
Associei a história com o que tinha ouvido dias atrás e concluí que minha mãe e dona Iracema poderiam estar cobertas de razão. Comecei a me preocupar com o fim do mundo aos seis pra sete anos de idade.
Mas também queria saber o que significava exatamente "o mundo acabar". Difícil para a compreensão de um menino. Depois, quis entender por que ele se acabaria "em fogo" e não novamente "em água". Existiria alguma razão para isso, uma sequência a ser cumprida? Me perguntava.
Outra coisa que me deixou perplexo foi: se o mundo acabou um dia como ele nasceu de novo? A resposta meio que compreendi lendo a história de Noé até o final.
O que permaneceu em mim por anos foi a tentativa de compreender a razão pela qual Deus matou pessoas e animais que não puderam embarcar na Arca. Por que faria isso com tanta gente, a não ser que elas, com exceção dos escolhidos fossem todas do mal, pessoas e animais muito do mal. Mas o que seria para Ele ser do bem, então? Obedecer a mãe e o pai garantiriam acesso a uma nova arca?
O pior de tudo foi quando dona Iracema concordou enfatizando como uma filósofa:
__ É Angelina, acho que você tem razão, do jeito que andam as coisas, não tem jeito mesmo, o mundo precisa acabar para começar tudo de novo. E será por fogo e não por água. De novo? Como assim? E eu que não fiz nada pra morrer tão cedo?
O remorso e o medo de Deus chegaram instantaneamente, quase que ao mesmo tempo do que havia pensado de pronto: Dona Iracema, vai tomar no cu! Só porque é uma velha gorda que tem bigode quer que o mundo acabe? Pedi desculpas, mas acho que somente eu ouvi as minhas desculpas. Não sei se Deus as ouviu. Me lembro ter olhado para o céu.
Iracema - Imagem Google
Anos depois me lembrei do fim mundo que até então, obviamente não tinha acontecido. Isso se deu quando lia o romance de José de Alencar, que nada sugeria sobre o assunto, mas cujo título me remetia às lembranças de infância - Iracema. História de uma índia linda, filha do pajé Araquém da tribo dos Tabajaras que se apaixonara pelo estrangeiro Martin, apesar da flechada que lhe dera quando o viu caminhando pelas matas no primeiro encontro.
O amor entre eles explodiu como fogo de final de mundo, mas fatalmente proibido por ser ela a virgem de Tupã. O livro, como tantos outros eram de leitura obrigatória no colegial.
Essa Iracema, no entanto, era diferente da primeira, ela me foi mais atraente e melhor, não pedia para o mundo se acabar, queria mesmo é se acabar nos braços do estrangeiro pelas matas atlânticas do Alencar.
Imagem Wikipedia
Nostradamus da Renascença, fez renascer em mim a preocupação quanto ao final dos tempos. Isso foi em 1977. O apocalipse da bíblia nunca me convencera, embora o tivesse lido por várias vezes. Mas as profecias de Nostradamus, essas sim me incomodaram. Ainda mais quando os estudiosos interpretaram as quadras contidas no livro dando como realizadas dois terços das proféticas alucinações.
Pô, esses caras não têm mais o que fazer na vida do que voar na maionese? Que ânsia é essa pelo final do mundo? Entre tantas guerras, catástrofes, maselas de toda natureza, três nomes ficaram em destaque. Três anticristos que provocariam muito sofrimento à raça humana e de boa parte da vida na face da terra: um nasceria próximo às terras de França, um imperador alucinado seria o terceiro na ordem de importância, ele aniquilaria milhões de seres por todo o canto. Deduziu-se posteriormente que este seria Napoleão Bonaparte, que segundo cálculos de especialistas dizimou sete milhões de pessoas nas invasões por ele comandadas.
Adolph Hitler, por Nostradamus citado como Hister, talvez por interferência de comunicação extra sensorial, seria o segundo anticristo. Seus exércitos dominariam a grande prostituta, assim Nostradamus descreveu o mapa da Europa, provocando guerra pelo resto do mundo, culminando com o lançamento de bombas atômicas em duas cidades japonesas. Milhões de pessoas foram mortas e outros tanto milhões padeceram pela sua tirania.
E num primeiro posto, que seria o mal derradeiro, o que seria admirado, idolatrado no início, mas que no final se revelaria a própria face do demônio, ele o chamou de Gog. O  sofrimento promovido por Gog seria a guerra final, o Bem contra o Mal. Dela a cada três homens dois morreriam. Esse ainda está por vir.
Tremi na base, pois talvez eu nem veria a passagem do milênio e menos ainda o 2001, para conferir se teríamos mesmo viagens espaciais em naves com computadores rebeldes como do filme de Stanley Kubrick. Teria eu que me contentar com a Laranja Mecânica do brilhante diretor.
Nada de novo no front. O mundo não acabou para quem continua vivo nele.
Imagem Google
De uns cinco anos para cá divulga-se um novo fim de mundo. Agora capricharam no projeto, buscaram um muito grande, um bem cinematográfico. Daquele que colocaria os finais de mundo anteriores no lixo, fazendo com que parecessem contos de princesas em castelos encantados com bruxas malvadas que se dão mal no final.
Dessa vez o fim viria em definitivo, total, arrasador, não deixando pedra sobre pedra. E o mal viria do espaço com raios solares em terabites magnânimos, fazendo o serviço no melhor estilo siciliano. E também do interior da terra em super erupções vulcânicas.
Cientistas em 2006 concluíram que o nosso sistema solar se encontrará no final de 2012 num cruzamento com outras duas galáxias, assim alinhando-se ao centro da via Láctea, alguma coisa assim, provocando um aquecimento global visto somente a cada 5.125 anos. Como foi na época da Arca de Noé.
A civilização Maia previu tal situação milhares de anos atrás e a data eles previrams para o dia 21 de dezembro de 2012. Que cálculo espetacular considerando que na época não conheciam o calendário gregoriano utilizado hoje pelos humanos.
O cinema, a TV, a Internet exploram o tema com exaustão. E com a mesma exaustão ficou o meu compartimento de paciência. Cheio ele estaria se tivessem parado nas profecias de Nostradamus ou no bug do milênio. Mas essa agora exauriu de vez. 
Caso não aconteça nada de diferente nesta sexta feira, 21, que não me venham depois com outras histórias pra boi dormir. Vão catar coquinho. Caso acertem, tudo bem, reconhecerei o mérito de onde estivermos e de lá darei os meus parabéns aos matemáticos maias e também me congratularei aos que ganharam dinheiro com a previsão. 
Bem fez José de Alencar que, acredito, nunca se dera a hecatombes. Preferiu produzir romances singelos bem escritos aos voos de maionese de idiotas como eu.
Concluí que viver fora desse mundo mesmo estando nele, deixa o homem livre de crenças e manias de perseguições. De certo aprenderemos com o tempo a conviver com a natureza de forma harmoniosa e pacificamente. Sem religiões, sem governadores, sem territórios, sem generais. Somente nós como somos, admirando as diferenças naturais que Deus fez em nós desde o início dos tempos.
Até lá aproveito para encomendar o mesmo destino que desejei na infância ao que representa as ideias de dona Iracema, a primeira, com todo o respeito e consideração possíveis. Mas agora sem pedidos de desculpas. Vá e fique por lá sem encher o nosso saco.
Todos rumo ao ano 3000 esperando também que o Palmeiras retorne a primeira divisão já com outra diretoria.
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