10/12/2012

Hildegard Rosenthal

Admirei esta fotografia. A encontrei na página "São Paulo Antiga" no Facebook. A fotógrafa, Hildegard Rosenthal a fez em 1940 quando documentava a cidade na Avenida São João, num flagrante discreto de pessoas comuns no dia-a-dia, guardando para sempre informações preciosas. Um retrato simples do cotidiano paulistano, numa época em que São Paulo se mostrava uma grande metrópole de primeiro mundo.
Hildegard Rosenthal/Instituto Moreira Salles
Reparem nas sombras escondidas pela rua e na calçada, elas são suaves, alongadas certamente não são sombras de meio dia. São percebidas por conta da chuva leve que molhou o chão, destacando-as sutilmente.  Típica manhã nas Terras da Garoa.
Por serem longas, talvez o horário fosse entre 7 e meia ou 8 e meia . A luz de final de tarde em dia nublado seria mais fraca e não provocaria sombras, nem mesmo as suaves.
Na avenida de paralelepípedos umedecidos, nota-se o bonde elétrico de portas abertas esperando os passageiros. Possivelmente, seguindo para o sentido bairro. Quem sabe vindo do Largo do Paissandu. A inclinação pelo lado direito da fotografia sugere isso. Para quem conhece a avenida São João é boa a possibilidade de estarmos certos.
Supõem-se que os personagens vistos no quadro, dezessete ao total, entre os mais e os menos evidentes, tiveram um dia de trabalho duro, mas sem perderem a pose. Vivem num outono relativamente frio - mês de maio ou junho, talvez. Estão todos ou quase todos protegidos por roupas apropriadas, portanto, não foram pegos de surpresa. Provavelmente enfrentam uma semana chuvosa.
Quase todos são homens, três são as exceções: uma mulher de silhueta elegante está de costas para a câmera em primeiro plano. Ela carrega na mão esquerda um guarda-chuva decorado de dezesseis varetas e na direita, sustenta uma bolsa de mão. Por analogia deduz-se que no seu interior contenham folhas datilografadas e naturalmente importantes para ela. Poderia ser uma advogada, uma professora ou até uma assistente. Como veste-se como uma profissional, não seria uma dona de casa em passeio numa tarde úmida e sem graça.
Ao fundo à direita, atravessando o cruzamento, vemos uma jovem negra, parece isso e ela usa uma capa de chuva clara sobre um vestido estampado. E mais à direita, num plano mais próximo, uma outra mulher, mas apenas a perna dela foi registrada, ela calça um sapato de salto alto de tiras brancas. São as únicas três exceções no gênero.
São cinco os guardas-chuvas em cena. Dos quatorze homens somente um é negro, talvez dois e os sem guardas-chuvas usam chapéus. Pressupõe-se que até os desprotegidos da garoa também usem, mas não podemos ve-los. São chapéis claros, escuros e pretos.
Não há lixo pelo chão, nem na calçada nem na avenida. Tudo parece limpo, organizado. simetricamente disposto em cena.
Parte do anunciado na testeira do bonde era exigência das autoridades. A frase toda dizia: Manter a segurança é dever de todos. Todos caminham em direção ao bonde ou dele desceram saíram. 
O que me prende  numa fotografia é o que está contido nela. O que me toca é a mensagem compactada. Não necessariamente relevante o meio pelo qual ela me veio.
As técnicas pelas quais foram produzidas são importantes, importantíssimas, mas técnica se adquiri tendo algum talendo, quase que uma questão de estudar e praticar. A mensagem não, ela é diferente, tem personalidade própria.
Perceber, compor e guardar é que são elas. Um bom fotógrafo tem isso. Saber isolar um instante dos demais, numa série de tantos outros fatais. Namorar uma fotografia te leva para o tempo dela. A alma percebe, compõe o que vê e soma com outras tantas guardadas e no final, obtendo o resultado, fixa no eterno.
Hildegard Baum Rosenthal (Zurique, Suíça 1913 - São Paulo SP 1990). Fotógrafa. Vive até a adolescência em Frankfurt, Alemanha, onde estuda pedagogia, de 1929 a 1933. Mora em Paris entre 1934 e 1935. De volta a Frankfurt, estuda fotografia com Paul Wolff (1887-1951) - um especialista em câmeras de pequeno formato - e técnicas de laboratório no Instituto Gaedel. Em conseqüência do regime nazista transfere-se para São Paulo, em 1937. Nesse ano, começa a trabalhar como orientadora de laboratório na empresa de materiais e serviços fotográficos Kosmos. Poucos meses depois, é contratada como fotojornalista pela agência Press Information, e realiza reportagens para periódicos nacionais e internacionais. Nesse período, documenta São Paulo, Rio de Janeiro, o interior paulista e cidades do sul do Brasil, além de retratar diversas personalidades da cena cultural paulistana, como o pintor Lazar Segal (1891 - 1957) e o escritor Guilherme de Almeida (1890 - 1969). Interrompe sua atividade profissional em 1948 com o nascimento da primeira filha. Em 1959, após o falecimento do marido, assume a direção da empresa da família. Suas fotos permanecem pouco conhecidas até 1974, quando o historiador da arte Walter Zanini realiza uma retrospectiva de sua obra no Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo - MAC/USP. No ano seguinte, o Museu da Imagem e do Som de São Paulo - MIS/SP é inaugurado com a mostra Memória Paulistana, de Hildegard Rosenthal. Em 1996, o Instituto Moreira Salles adquire mais de 3 mil negativos de sua autoria.
Enciclopédia Itaú Cultural
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