12/11/2012

A chuva e eu

Bom dia, segunda feira chuvosa, linda e maravilhosa. Mesmo assim, toda chorosa, escurecida,  molhada e com cara de sem graça és bem recebida. Afinal, a chuva faz parte do ciclo natural e sem ela a secura do sol nos mataria. Portanto, querida amiga, segundona de chuva, seja bem-vinda. 
Essa é uma maneira de enxergar. A outra é a seguinte: 
#//&**@m… que dia mais escroto. Cara de segunda feira mesmo. Chovendo pra cacete e deixando o trânsito em São Paulo mais terrível ainda. Não aguento segundas feiras, são muito foda. Que ressaca. 
1963 - Tinha nove anos de idade e morava num bairro de periferia na região sul de São Paulo. Na sapateira, um par de sapatos. Na época vivia com os pés descalços e somente os calçava para ir à escola ou, então, aos finais de semana, quando íamos na casa dos meus avós. Minha mãe fazia questão de nos mostrar bem cuidados, bem vestidos, meninos de ouro - meu irmão e eu.
A casa onde morávamos foi construída pelo meu pai, com as próprias mãos. Ele sempre foi de fazer as coisas. Ele não entendia porque deveria pagar pra alguém quando ele mesmo poderia reformar ou construir alguma coisa. Nossa casa tinha um quarto, uma sala, uma cozinha e um banheiro. Portanto, dormíamos, meu irmão e eu, num sofá-cama, que durante o dia servia de mobília ao cômodo e a noite, num movimento extremamente barulhento, se transformava, como num passe de mágica, numa confortável cama.
O reboque em massa grossa revestia os tijolos somente pelo lado de dentro. Do lado externo via-se um a um deles, assentados em forma simétrica, com toda a combinação possível. Da mesma maneira via-se as entranhas dos batentes das portas e das janelas. A ideia de meu pai, assim que pudesse, era rebocar a casa toda, pintá-la de azul claro, cimentar o quintal de terra batida e fazer um bonito jardim para ornamentar a fachada do palacete e quem sabe, quando a água estivesse disponível pelas tubulações da rua, deixaríamos de usar o poço. Me lembro do ruído do sarilho soltando a corda que prendia o balde que despencava, cantando pelas profundezas até alcançar a água que se escondia lá no fundo. Para mim, aquilo era uma viagem ao centro da terra. Tentava enxergar o brilho da água colocando um espelho que refletia a luz do sol para dentro e me perguntava se furássemos mais fundo aquele poço, se de fato chegaríamos ao Japão. Me diziam que o país distante ficava na verdade bem abaixo de nós. Suspeitava da veracidade da história.
A TV, uma Invictus de 21 polegadas, apoiava uma antena de duas hastes e um regulador de voltagem. A tensão elétrica na época variava muito e o tempo todo tínhamos que ficar ajustando o botão preto, sisudo do equipamento. Me lembro que o ponteiro do reloginho não poderia passar de jeito nenhum de uma marquinha vermelha. Minha mãe dizia que a TV pegaria fogo. Eu tinha medo de morrer queimado. Meu irmão, quase dois anos mais novo, não parecia se importar. Ele preferia brincar com bolinhas de gude pelos tacos ainda a serem raspados.
Meu pai chegava em casa só a noite, com alguns trocados no bolso e deixava com minha mãe a féria do dia para a compra da comida do dia seguinte. Éramos felizes, mesmo com o estômago vazio. 
1997 - Num dia de abril deste ano estava em Los Angeles, queria estar sozinho para circular  pela Sunset Boulevard, curtindo um carro alugado todo cheio de frescuras. Era o maior que a locadora dispunha. Não sei a marca e nem o modelo, só sei que era o maior e o mais bonito, todo esportivo. Dei um presente à soberba que invadiu a minha alma.
Fui para Hollywood pois queria conhecer os estúdios, aqueles gigantes que via nas fotos da Revista de Cinema quando criança. De alguma forma essas revistas chegaram em casa - umas três ou quatro e minha mãe e eu ficávamos lendo e olhando as fotografias e ela me contava que ali, naqueles enormes galpões é que faziam os filmes que via na TV. Meu pai me deu as primeiras noções de fotografia. Acho que por isso sou apaixonado pela arte.
De certo, as revistas não foram compradas por eles, provavelmente meu pai as ganhou de algum freguês. Ele era mecânico de motocicletas e tinha alguns bons clientes endinheirados. Sua oficina era na Rua Vergueiro - Estrada do Vergueiro como se dizia na época e ficava quase no final dessa via, próximo ao início da Anchieta.
Motos das marcas Honda, Yamaha, Suzuki, Kawasaki, ainda não existiam no Brasil. As da época eram inglesas, italianas, alemãs, tchecas ou húngaras - Norton, Match, BMW - se falava BMV, Jawa e Monarck. Algumas eram americanas - Harley Davison e Indian. A mais nova devia ter uns quinze anos de idade, pelo menos. Não importavam motocicletas zero quilômetro nos anos 50 e 60. Nada era novo, tudo muito antigo e recuperado. Parecia Cuba de hoje.
Quando passei em frente aos enormes portões da Paramount Pictures estanquei o carro de súbito. Os pneus deslizaram pelo asfalto. Meu coração acelerou, eu tremi e quase desmaiei. As imagens em preto e branco das revistas de cinema vieram à mente tão rapidamente quanto a velocidade da luz. Alguns gringos buzinaram e ouvi também palavrões em inglês, eles soaram mais bonitos, cinematográficos. Me recompus e estacionei o esportivo com a maior elegância do mundo. 
1968 - Aos quatorze anos arrumei meu primeiro emprego numa fábrica de vidros próxima de casa no Belenzinho. Multividro era o nome da firma. Entrei lá como auxiliar de escritório e meu salário era de CR$ 64,80 - Sessenta e quatro cruzeiros e oitenta centavos. Equivalente a meio salário mínimo, era o que se pagava para quem tinha a carteira de trabalho de menor. Na época era permitido menores de idade ter registro em carteira. Eu tive o meu. O dia da minha estréia foi numa segunda feira, um 09 de abril.
Com meu primeiro salário fiz uma compra assumindo uma baita prestação. Numa loja do Bom Retiro comprei uma japona que me custou CR$ 150,00 - mais que duas vezes o meu salário e paguei uma a uma delas em dez meses - dez prestações de CR$ 15,00 - quinze cruzeiros por mês. O carnê saiu em nome de minha mãe. O resto da grana ia direto pra ela, esse foi o trato, assim ajudando nas despesas de casa. Ah! Para quem não sabe, japona era um enorme casaco do tipo inglês, com a gola grande a qual dobrávamos para proteger também o pescoço do frio que quase não vinha. Os Beatles faziam muito sucesso e apareciam nas fotos e nos filmes vestindo-se assim. Todos nós usávamos japonas pretas ou cinzas, mesmo debaixo de um sol tropical de quase 40 graus, pois valia mesmo nos passarmos por britânicos. O pau comia solto em Brasília, não compreendia direito, mas sabia que tinha coisa errada por lá. 
1954 - Eu nasci num final de tarde do dia de 12 de janeiro. Minha mãe deu-me a luz num quarto da frente da casa da minha avó, dona Filomena Turci, no bairro da Penha. Pelo que contam ficaram todos felizes com a chegada do primeiro neto. Naturalmente seguiu-se uma justificada festa à moda italiana.
1978 - Em janeiro deste ano me casei com a mulher que me faz feliz até hoje, dona Rita e em outubro do mesmo ano ela me deu nosso primeiro filho. Primeiro dos quatro maravilhosos que a vida na sequência me ofereceu. Foi um ano significativo, 1978. Me senti valente, mesmo morrendo de medo. 
2012 - Hoje, numa segunda feira chuvosa acordei lembrando dessas e de outras tantas passagens. Não posso garantir, mas a sensação que tenho é que sempre choveu em minha vida. Nos períodos mais difíceis e principalmente nos mais felizes. As lembranças vêm à mente como num auto resgate, não as procuro. Chegam sem cor definida, sem ordem, acinzentadas, mudas, mas incrivelmente acalentadores. Me vejo no colo de minha mãe e nós, ela, meu irmão e eu, envolvidos nos braços do meu pai que hoje mora um pouco acima do céu. 
Fico, então, com a primeira opção. Bem-vinda segunda feira de chuva. 
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