15/11/2012

69 tons de cinza

Nancy entrou na livraria e como quem não quisesse nada começou a olhar as estantes abarrotadas de títulos. 
Olhou, revirou, tudo sem pressa, pois o tempo lhe sobrava. Não encontrava o livro que tanto recomendaram. Percebeu somente depois de um tempo, ao alto,  as enormes placas com setas indicadoras - Artes, Literatura, Direito, Infantil, Psicologia, Informática e tantas outras. Não era pra menos, as livrarias nunca foram os locais de prediletos de visitação pra ela, aquelas placas lembravam sim as dos supermercados. Mais fácil seria encontrar Nancy num Mac Donald's ou num Rabib's da vida ou até mesmo num cinema do centro da cidade do que numa livraria. 
Naquela tarde de sábado ensolarada estava sozinha mais uma vez. O namorado, aquele desgraçado, ela descobriu ser um homem nefasto, casado e bem casado. Décio iludiu Nancy por três anos, cinco meses e quatro dias e bem que ela desconfiava das constantes viagens que ele fazia pelo Brasil. Descobriu quando sem outra intenção pegou o celular dele e leu uma sequência de mensagens entre ele e sua esposa, a verdadeira. Prova irrefutável de que fora enganada por anos. Não adiantou choros nem velas, nem fita amarela gravada com o nome dela. Nancy o deixou. Melhor, ela fez com que ele pegasse suas coisas e sumisse de sua vida e do apartamento da Rua Amaral Gurgel, região central de São Paulo para sempre.
Mesmo depois de oito meses da dolorosa descoberta a dor da desilusão remoía-lhe a alma, o peito, o ventre e as vísceras. Se cansara de chorar, de lamentar, de rogar pragas ao traidor. Mais uma vez foi passada para trás. Os homens são todos iguais, quanto mais conheço os homens mais admiro o meu cachorro, assim ela amanhecia e dormia pensando.
Nancy precisava esquece-lo e à vida foi. Matriculou-se num cursinho de teatro indicado por um amigo gay, resgatando assim o sonho da adolescência. Tingiu os cabelos com um castanho tão escuro que mais pareciam pretos, deixando o aloirado de lado e bem escondido. Trocou de emprego, saiu do Instituto de Beleza e Estética Alzira's e passou ao manicure e pedicure independente, roubando descaradamente várias clientes do antigo salão. Ninguém mais vai mandar em mim, repetia ela a todo momento.
Nos seus 33 anos bem vividos e suados, ficou viuva aos 22. Foi casada com um caminhoneiro cearense que mais circulava pelas estradas do que em casa. Ele foi assassinado numa tentativa de roubo de carga em Paraisópolis, próximo a Ilhéus na Bahia, quando a polícia intercedeu com tiros por todos os lados e um deles atingindo fatalmente a cabeça do estradeiro.
Aos 24 conheceu Alencar, um fotógrafo free lancer de revistas de moda e com ele ficou por um ano e meio e como não suportava a vida desregrada do rapaz o deixou. Ele era viciado em crack e cocaina e guardava as trouxinhas no apartamento do casal. Situação intolerável e de muito risco e com isso ela também se livrou do vício adquirido com ele.
Completamente infértil, Nancy amargurava a condição de nunca poder ter um filho. Mas se ela conhecesse um homem descente, talvez com ele pudesse conseguir um por adoção. É o que lhe restava, encontrar alguém, um homem de bem e depois encontrar uma criança loira de olhos azuis bem gordinha e de cabelos encaracolados.
O tempo passou e entre encontros e desencontros, um ou outro chamego de pouca duração, algumas outras pequenas decepções, conheceu Décio, um novo eterno amor. Um homem maduro de cinquenta e poucos anos, viuvo de uma esposa fiel que lhe fora tomada por um câncer fatal em apenas três meses.
Com ele Nancy foi cautelosa, quis experimenta-lo, testa-lo, conhece-lo bem para ter certeza de quem se tratava realmente. Nada descobriu, era o homem definitivo para sua vida e um grande amor viveu com ele.
Foram felizes por pouco quase de três anos e meio. Embora vivessem no mesmo apartamento da Amaral Gurgel, ele, pelo trabalho de representante comercial, obrigava-se às rotieneiras viagens de negócios pelas distantes cidades brasileiras e incrível como as grandes oportunidades que se anunciavam antes de cada viagem não resultavam em nada. E assim o casamento com direito a igreja e vestido de noiva eram constantemente adiados e da mesma forma a adoção de um filho.
Tudo ficou claro quando Nancy descobriu a verdadeira causa dos adiamentos. O homem elegante, trabalhador e de princípios morais inabaláveis, na verdade era casado e tinha quatro filhos e dela só queria mesmo usufruir do corpo deliciosamente escultural, num ambiente de conforto de um lar amasiado.
Por essa razão, ela agora, não acreditaria mais no amor, não acreditaria nos homens e em mais nada a não ser nela mesma.
Uma atriz ela seria. Atriz de teatro como sempre sonhou desde os tempos de criança. E conseguiria por esforço próprio, sem depender de ninguém. Ela merecia ser feliz e iria lutar por isso.
Nesses vai e vens da vida Nancy conheceu Dolores. Uma negra alta, esguia, de corpo espetacular e seios enormes, quase dois anos de vida a mais que ela. Conheceram-se ao acaso, numa padaria da Praça Marechal Deodoro próximo a avenida Angélica em Santa Cecília, num sábado chuvoso por volta das onze e meia da manhã. Dolores que saboreava uma cochinha, pediu a Nancy que lhe passasse o molho de pimenta que estava a sua esquerda e esta gentilmente a atendeu. E assim a amizade se iniciou, com um sabor acentuado de pimenta.
Para surpresa de Nancy a mulher se apresentou como atriz. Estrela de filmes alternativos. Nancy nunca tinha conversado com uma artista de verdade, uma daquelas que aparecem em filmes nos DVDs. Pediu até um autógrafo para a nova amiga.
Dias depois, a troca de celulares possibilitou a Dolores convidar Nancy para assistrem juntas os seus filmes no apartamento dela que ficava lá no bairro da Mooca. Uma coleção de vinte e dois trillers eróticos, todos protagonizados pela majestosa mulher negra.
Após tantas confidências, tantas descobertas mútuas e inúmeras afinidades, ambas decidiram dividir o apartamento da Rua Amaral Gurgel. Dessa forma repartiriam as despesas e assim teriam a vida mais segura.
Tempos depois Dolores conseguiu para Nancy uma vaga no casting da produtora de filmes. Então, com o dinheiro extra ela pode concluir o tão sonhado curso de teatro.
Aos vizinhos de apartamento as mulheres disseram que eram irmãs de pai negro e de mãe branca, esta descendente de  alemães e que eles geraram filhas de múltiplas raças e que ainda existiria uma terceira irmã mais nova que era totalmente mulata. E meses depois os mesmos vizinhos notaram a presença constante de um novo habitante naquele exótico apartamento - um bebê que aparentava ter menos que um ano o qual foi apresentado a eles como um sobrinho, filho da irmã mulatinha.
Era um bebê loiro de olhos azuis. De bochechas gorduchas e bem rosadas e com os cabelos encaracolados, muito sorridente. Ao menino deram o nome, Nando. Singelo resultado da afetuosa contratação dos nomes de Nancy e Dolores.

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