25/08/2012

Saudade de Abbey Road

Hoje acordei com saudade. Devo ter sonhado com alguém ou com pessoas que há muito não vejo e, com certeza, outras que jamais verei ou terei notícias. Pelo menos por essa vida. Só sei que sinto saudades, saudades no plural.


Saudades da infância, de ontem, do mês passado, do ano passado, de cinco anos atrás. Não sei explicar direito. Não é um estado de melancolia, pelo contrário. Me sinto feliz e de bem, estou tranquilo hoje. É só saudades.
Esta palavra acredito que seja derivada de outra - saúde. Será? 
Dizem até que somente na língua portuguesa existe uma palavra que exprime o sentimento de querer rever alguém ou algo, de revisitar um momento na vida, de sentir de novo, de passar novamente pela mesma sensação. 
Associo ela à palavra fome. Fome de fome mesmo, de estômago vazio que espera alimento. Saudade deve ser o alimento da alma.
Meus avós se foram, meu pai se foi. Dos meus tios e tias - quinze ao total, hoje ainda vivem, quatro. Três tias e um tio. Este último um tio por afinidade, casou-se com uma das irmãs de minha mãe, mas o tenho com um tio de sangue, cresci o vendo assim.
Dos quinze primos vindos do lado materno e paterno, com os quais, a maioria passei a infância, quatorze ainda vivem. Duas não tenho tanta certeza, pois faz três ou quatro décadas que não tenho notícias delas, as gêmeas. Sei que eram muito bonitas. Acha que se chamavam, Márcia e Martha. (deve ser com h).
Vejo e falo pouco com meu único irmão. Nos vimos pela última vez quando nosso pai faleceu e uma ou duas vezes por ano nos falamos pelo telefone. Vem tudo à mente. Todas as lembranças.
Os amigos, vários se perderam com o tempo, outros tantos permanecem nos encontros casuais e poucos são os de convívio. Via facebook nos achamos. Essa ferramenta, apesar de infernal e mal interpretada, tem esse lado bom. Os colhidos mais recentemente, convivemos. Um dia terão a minha saudade.
Minha sogra. Apesar da palavra ter conotação pejorativa, me refiro a ela em outro tom. Minha sogra me tinha como um filho e eu a tinha como uma mãe. Me dei conta da intensidade desse sentimento, somente depois quando ela se foi. É sempre assim. Sua filha, minha mulher, continua me seduzindo a alma e o corpo.
Minha mãe. Felicidade plena, a tenho viva e espero que ainda por muitos anos.
Passados os anos, outros chegaram. Meus filhos e filhas, minhas netas, meus genros, minha nora, meus sobrinhos e sobrinha. A árvore cresce e se transforma dentro da floresta e ela está bem viva, florindo cada vez mais e eu desfrutando do seu perfume todos os dias.
Enfim, o tempo segue e nos seguimos com ele. Alguns passam por nossas vidas de forma breve, mediana ou duradoura, mas todos deixam saudades. Até mesmo aqueles que num momento víamos como demônios em pele de gente, mas na verdade, com o tempo percebemos que o diabo não era tão feio como pintávamos. Afinal a emoção potencializada se sobrepõe à razão e nos colocamos geralmente como vítimas em uma história cujo final não é muito feliz. É da nossa natureza. Sábio é aquele que não sofre por emoção, ou como concluiria o poeta Caetano Veloso - ou não!
Viver a saudade é gostoso, mas viver pela saudade não é nada bom, portanto devemos sair dela o mais rapidamente possível.
Gostoso mesmo é sentir saudades quando estamos felizes com o que temos hoje. Dai sim, valem as lembranças de Abbey Road.
Até.
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