21/07/2012

O primeiro cigarro a gente nunca esquece

Amarildo despertou e logo saiu da cama quentinha naquela manhã fria de sábado. Abriu a janela do quarto e contemplou o céu que se mostrava limpo, sem nenhuma nuvem manchando o azul de brigadeiro e os raios de sol que despontavam pelo horizonte, de um âmbar acentuado banhavam o quintal de sua casa fazendo com que as sombras das árvores formassem desenhos bonitos pelo chão, num contraste negro interessante e muito bonito. Sentiu frio pelo corpo, a temperatura não passava dos 15 ou 16 graus, um dia típico de inverno em São Paulo. 
O rádio relógio no criado mudo à esquerda da cama marcava sete horas e seis minutos. Pensou que poderia aproveitar a folga e voltar para os cobertores desalinhados e quentinhos que nitidamente o convidavam para dormir um pouco mais, assim descansando o corpo e a mente, pois a semana tinha sido bastante difícil para ele. Mas não era o seu jeito de ser, desde menino adquiriu o hábito de se colocar em pé logo cedo para aproveitar melhor o dia. Amarildo sempre foi um insensato ansioso.
Em menos de dez minutos já estava sentado à mesa da cozinha tomando o café da manhã, vestido como se fosse um dia normal de trabalho. Um pãozinho com manteiga, uma ou duas bolachinhas doces e uma boa xícara de café com leite o satisfaziam. 
Ao seu lado, sobre a mesa o laptop aberto, ligado num site de notícias. Outro hábito antigo de Amarildo desde à época dos jornais impressos - ler as manchetes uma a uma e se algo lhe despertasse maior atenção, seguia a nota resmungando alguma coisa dentro de si.
O primeiro cigarro do dia sempre lhe foi o mais prazeroso. Na verdade era o único em que prestava referência no insólito vício do tabagismo. Os outros tantos ao longo do dia seguiam sem a mesma atenção, eram chamados quase que automaticamente em clara rendição à fraqueza, uma espécie de compensação a alta ansiedade. 
Seguindo o ritual, ergueu-se, saiu da mesa com o desjejum cumprido, buscou o maço e o isqueiro que ficava como de costume sobre o móvel da cozinha e seguiu para o quintal onde acendeu sua maior fonte de prazer das manhãs - o cigarro.
Voltou a contemplar o azul do céu, o âmbar dos raios de sol e os desenhos das sombras densas pelo quintal. Ouviu os pássaros cantando entre as árvores, respirou o ar puro da manhã e pensou - que dia lindo.
Notou na mão direita umas manchas claras avermelhadas e entre as unhas, um vestígio de vermelho um pouco mais escuro. De súbido lembrou-se da noite anterior. 
Toda a cena lhe veio rapidamente à cabeça que o estado de calma absoluta foi-se como num raio. Lembrou que havia assassinado com dois tiros na cabeça na noite anterior, um vizinho que durante duas horas tentou convencer-lhe a votar num candidato à prefeitura da cidade nas próximas eleições, alegando este ser um candidato honesto.
Deu mais duas tragadas intensas, apagou a bituca num vaso de flores que estava próximo, buscou num armário nos fundos do quintal, uma lata de tinta preta e um pincel e seguiu com o material para a frente de sua casa.
Na fachada escreveu em letras garrafais: 

Não me peçam votos, por favor. Gosto de fumar o meu primeiro cigarro do dia em paz.

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