24/10/2012

São Paulo, Brasil.

Elpídeo sentia-se fraco quando desceu os dois degraus metalizados do trolleybus da linha 106 - Praça da República / Largo São José do Belém, ponto final no antigo bairro operário do Belenzinho, este, logo no início da zona leste da cidade de São Paulo.
Meio atordoado e com o corpo ardendo da cabeça aos pés, julgou que a gripe forte de dias atrás voltara de forma contundente. Gripe que o levou aos 40 graus de febre e que nem mesmo assim o fez perder um dia se quer de serviço. Não olhou para o relógio, mas sabia que não passava das seis e vinte da tarde de um outono já meio frio. Conhecia o trajeto desde os tempos de juventude, quando aos dezenove anos iniciou no ofício do corte alinhado. 
Fechava a porta da alfaiataria que herdara do pai na Rua Barão de Itapetininga, 239, no início do corredor do primeiro andar do Edifício Luxor, pontualmente às cinco e meia, e, em menos de dez minutos, embarcava no ônibus elétrico, cujo ponto não ficava mais que cento e cinquenta metros de sua loja. E este o levava com toda a segurança até bem próximo de sua casa. Todos os dias, por mais de quarenta anos de sua vida ele fez esse caminho.
Depois do Metrô e da reforma da Estação do Norte, a antiga passagem que um dia foi conhecida como As Porteiras do Brás, deixou de ser um funil de trânsito intenso a quem seguisse em direção ao distante bairro da Penha, pensava Elpídeo toda vez que passava por lá.
Invariavelmente encontrava no caminho as mesmas pessoas, que entre milhares, os reconhecidos se contados fossem, não passariam dos setenta. Tão familiares ficaram a ponto de os cumprimentos e acenos com sorrisos discretos entre eles, fossem permitidos. O tempo e a rotina transformam as pessoas em estranhos conhecidos. Sabe-se tudo delas e, ao mesmo tempo, sabe-se nada. 
De alguns guardara os nomes e apelidos, de outros, quais os bairros em que moravam e de alguns poucos, até os times do coração ele sabia. Mas da maioria, não tinha a menor informação, somente impressões e nem sempre eram melhores. Se tornaram conhecidos de bom dia e de até amanhã, bem ao modo paulistano. 
Estranhamente nessa tarde, Elpídeo não se lembrava de ter encontrado os velhos amigos. Não se recordava de percebe-los no percurso. Preocupou-se sim, se os teria ignorados e se, talvez, tivesse deixado passar a péssima impressão de um esquisitão ou de um revelado, psico-antipático. Se remoeu, pois procurou a vida toda vender a imagem de um simpático, de um sujeito acima de qualquer suspeita, a quem se poderia depositar toda a confiança do mundo. 
Lembrou-se que na noite anterior fora recebido em casa com uma festa surpresa, quando suas filhas, genros, netos e esposa, prepararam a comemoração aos seus 64 anos bem vividos. Talvez tivesse bebido demais no dia anterior - três copos de cerveja, durante a semana, era de fato para ele, muita coisa e possivelmente isso tivesse provocado o retorno da gripe. 
O fato é que não se sentia bem naquele momento. Ao mesmo tempo em que os seus passos ficavam cada vez mais pesados na calçada, vinha-lhe uma repentina leveza anti gravitacional. Parecia voar, não sentia o pés no chão. Buscava apoio pelas paredes como um bêbado que nelas recorre em final de madrugada boêmia.
Em nove minutos e com muita dificuldade alcançou o número 17 da Rua Silva Jardim. O portão de ferro em barras torcidas longitudinalmente, formando desenhos simétricos, estava com uma das folhas entre abertas. Seguiu então pelo jardim por onde se via, as ortências, margaridas, espadas de São Jorge e samambaias, todas bem tratadas e notou que a porta de entrada, logo na recepção da residência se encontrava praticamente escancarada. Assim, com cuidado, se sobrepôs aos dois degraus revestidos em mármore branco já envelhecidos pelos anos de uso, e através do portal chegou à sala principal, onde as visitas são normalmente recebidas. 
Percebeu que uma única luz vinda da cozinha é que fazia a iluminação do ambiente. Ela se projetava pelo corredor estreito de dez metros de comprimento com pouco mais de um de largura e refletia no assoalho bem lustrado do corredor que por ele se dava aos dois dormitórios e ao banheiro. Cômodos grandes e de pé direito alto de um lar eminentemente católico. A luz  provocava sombras intensas sobre o chão e nos móveis dispostos da sala. A penumbra, que ao mesmo tempo remetia anseios à alma de Elpídeo o deixava, contraditoriamente, confortável.
O silêncio seria total não fosse os ruídos vindos da rua, mas até estes, aos poucos se dissiparam. Elpídeo surpreendeu-se com o fato de dona Jandira, sua esposa de longos anos, não recebe-lo como de hábito. Também não sentiu o cheiro de comida que nessa hora do dia ficava pronta. Não ouviu os bifes na frigideira sendo fritos e nem o barulho de panelas pelo fogão.  De certo ela lá não estava. Mas onde teria ido? Ela sabe muito bem que ele chega com muita fome e logo quer jantar.
Mais estranho ainda o fato de Tejo não ter latido. O cão percebia a chegada do dono pelo  rangido do portão. A manifestação no quintal se ouvia de longe, com saltos ao vento e latidos ensurdecedores comemorando o passeio noturno que, de certo, depois do jantar, viria. O quintal estava em silêncio - Tejo estaria com gripe também?
O carrilhão em móvel escuro de linha provençal soou sete horas. Embora cansado, Elpídeo mantinha-se em pé, quieto bem no canto da sala. Parecia se esconder de alguém, não queria ser visto, sentia alguma culpa ou remorso e nem sabia o porquê. Nem se dera ao trabalho de tirar o paletó e a gravata. Esperava ansioso pela mulher. Aguardava por ela, queria ela. A angústia o envolvia e se misturava a uma serenidade incompreensível. Elas vinham de dentro do coração, vinham das vísceras, do fígado, dos joelhos estremecidos. Notava-se em levitação. A boca do estômago ardia muito, como uma azia descabida e fora de hora. Tentou apoiar-se em uma cadeira próxima, mas sem muito sucesso, não entendia o que estava acontecendo, sentia-se inseguro, com uma ânsia nunca experimentada. 
Uma hora depois ouviu o som do carrilhão marcando oito da noite. Depois ouviu o som das  nove. Ouviu o das dez. Das, onze. Meia noite. Silêncio absoluto. O vento suave que passava por entre as frestas da grande persiana frontal da casa da Rua Silva Jardim, fazia com que as cortinas estampadas balançassem, desordenadamente, calmas. O frio percorreu-lhe as espinhas, as axilas e os dedos dos pés.
Elpídeo olhava para as paredes, para o chão, para o sofá. Viu alguns documentos espalhados sobre a mesinha de centro que também apoiava um copo quebrado. Os cacos de vidro espalhavam-se por ela. Os olhos afoitos percorriam o ambiente procurando  alguma coisa. Se deu conta que a TV estava desligada e lembrou-se que hoje seria o último capítulo do Direito de Nascer e que sua mulher jamais perderia um final de novela sem um motivo incontestável. Jandira, onde está você? 
Por volta das duas e meia, em plena madrugada, a luz da sala se acendeu num repente. Elpídeo de susto se escondeu por trás das cortinas. A porta que estava bem trancada se abrira nervosamente após duas voltas na fechadura e por ela viu passar uma senhora de sessenta anos, com cabelos grisalhos num coque presos por dois grampos. Ela vestia um conjunto bege e sapatos pretos. Outras duas aparentando serem mais jovens - uma de quarenta anos e outra de trinta e oito, a seguravam com afeto pela cintura. Essas parecidas por demais nas feições e nos gestos. As seguiam, dois homens de meia idade - um bem magro e alto, usando um terno cinza e com cabelos aparados, nitidamente elegante e o outro, um pouco mais baixo e meio gordo. Este com um bigode avantajado e vestindo uma camisa branca amarrotada com as mangas dobradas à meio braço e uma calça de linho verde escuro. E logo atrás também entraram dois meninos - um de quatorze anos e o outro de doze, não pareciam ser irmãos, talvez fossem primos irmãos. Todos eles com os olhos bem lacrimejados e muito perplexos, atônitos. Balbuciavam alguns comentários não compreendidos por Elpídeo. A senhora entregou-se ao sofá e com as mãos no rosto pôs-se a chorar copiosamente. As outras duas ao seu lado tentavam conforta-la, mas sem sucesso, em pouco tempo se renderam aos prantos. Papai, papai.
Souberam eles no final daquela tarde, por volta das seis e vinte, aproximadamente, da notícia trágica que o esposo, o pai, o sogro, o avô querido, o alfaiate de profissão, muito simpático, amigo de todos, sujeito acima de qualquer suspeita, fora baleado mortalmente. Numa tentativa de assalto dentro de um ônibus elétrico quando voltava de mais um dia de árduo de trabalho. O senhor fora brutalmente assassinado com um tiro de calibre 45 que o atingira espetacularmente bem no meio do estômago. De tantas viagens que fizera ao longo da vida, aquela teria sido a sua derradeira. Souberam que os meliantes fugiram logo após o crime, mas na fuga ainda acertaram um outro passageiro, um corajoso policial que estava de folga e que tentara heroicamente o confronto direto e dera-se mal. Ele, pelo destino, sobreviveu. Mas, Elpídeo, não tivera a mesma sorte. 
O garoto mais novo escreveu tempos depois na redação escolar, que soubera da tragédia com o avô pela televisão, logo após ter deixado o video game de lado.
Imagem Google

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