12/10/2012

Conto do Grito

Na madrugada de terça para quarta-feira por volta das duas e meia, mais ou menos, portanto já no dia 11 de agosto de 2010, um grito agudo e contínuo se ouviu. Quebrou-se o silêncio absoluto  naquela noite de inverno em São Paulo e pareceu ter vindo de longe, não tão longe, possivelmente da avenida transversal que ficava logo acima. Um grito, limpo, doce e feminino, mas nitidamente, desesperado. 
A casa assobrada de boa aparência, com três quartos, sala, cozinha ampla, toda azulejada e dois banheiros, sendo que um deles acomodado no quarto principal, com, ainda, uma pequena lavandeira contígua à cozinha, também ampla e com gabinetes em fórmica branca, muito funcional e um quartinho aos fundos do quintal que servia de acomodação improvisada e à guarda das tralhas que toda família de classe média baixa tem. Situava na rua estreita em ladeira leve do bairro de Vila Inocência, distrito da Freguesia do Ó e estava com as luzes apagadas para dar à família, como de hábito, a tranquilidade para um sono merecido digno dos homens e mulheres de bem. Rafaela de 19 anos, a filha mais velha, moça morena de cabelos castanhos escuros quando não tingidos e levemente ondulados, acordou assustadíssima. O irmão, Davi, menino travesso de 12 anos que dormia no quarto ao lado, mexeu-se um pouco entre a colcha quente que o acobertava, toda estampada com desenhos coloridos em tons pasteis, resmungou alguma coisa, mas manteve-se em sono profundo de criança que brincou o dia todo. Os pais, Seu Júlio e Dona Miriam, ele com 48 anos aparentando um pouco mais idade e prestes a se aposentar do emprego de mais de trinta anos e ela com 44, senhora educada, bonitona e muito simpática, dada ao varejo, ajudando assim no orçamento familiar, como fez a vida toda, também de súbito acordaram e em pouco tempo os três estavam na sala - pai, mãe e filha, todos atônitos, curiosos e preocupados ao mesmo tempo. Davi continuava dormindo, pouco se incomodou com a luz que se acendeu no corredor entre os quartos dispostos no andar de cima da aconchegante residência. Olhavam-se entre si perguntando-se quase mudos que uivo tétrico seria aquele que ouviram. Alguém estaria sofrendo mazelas da vida mundana naquele momento? Senhor, meu Pai, protegei os fracos e oprimidos, Senhor!Seu Júlio decidiu abrir a porta da sala e seguir com a trava de ferro de reforço da porta, entre as mãos e passo ante passo, com todo o cuidado do mundo, seguiu em direção à frente do sobrado, passando quase espremido entre o muro e o Palio 2006, azul metálico, com motor à álcool que ficava guardado e estacionado na adaptada garagem. Dona Miriam acendeu a luz da frente facilitando o percurso do marido.Este apoiou-se com cautela sobre a grade metálica bem pintada em cinza escuro que se estendia por toda a fachada, esticando o corpo até onde pôde alcançando com os olhos meio remelentos e franzidos do sono interrompido em alta madrugada, que percorreram o asfalto até o ponto mais distante. Rastreou desconfiado de um lado a outro o trecho da rua. Reparou que as casas vizinhas estavam com as luzes apagadas. Procurou alguma coisa, algum movimento diferente, mas nada viu ou ouviu, além de um carro ou outro que seguiam em velocidade alta pela avenida a uns duzentos e cinquenta metros dele. A clarência da iluminação branca do posto de gasolina, fechado aquela hora, que ficava lá na esquina, contrastava com as luzes dos postes, essas de cor âmbar,  a mistura dificultava um pouco a percepção do investigador notívago.Dona Miriam do lado de dentro da casa com a bíblia pressionada ao peito, logo atrás da porta da sala o chamou em voz baixa, pediu ao marido que entrasse, pois o frio intenso da madrugada e o perigo eminente a preocupava e que possivelmente o grito que ouviram, talvez fosse de uma cadela perdida, atacada por uma ratazana sórdida, dessas que andam pelas ruas durante a quietude noturna à procura de restos de alimentos.Assim ele o fez. Retornou e fechou a porta dando duas voltas completas na fechadura, colocou a tranca de ferro em seu lugar  garantindo a segurança da residência e retornaram aos seus aposentos. Davi dormia como um anjo, Seu Júlio teve o cuidado de conferir antes de se recolher. Dona Miriam aproveitou e foi para o xixi da madrugada. Rafaela fez o mesmo, seguiu até o banheiro que ficava entre os quartos dos irmãos e lá sentada ao vaso, em atitude desolada, apoiou a cabeça sobre os pulsos dobrados sustentados pelos cotovelos e estes assentados sobre as coxas grossas de pele macia e amorenada. Os lindos cabelos lisos, levemente ondulados caíram-lhe sobre a face.Vinte minutos depois a família retornara ao sono profundo. É o que parecia. O silêncio se restabelecera por completo naquele lar cristão, abençoado por nosso Senhor, Jesus Cristo. Um ou outro carro, a quem prestasse atenção se ouviria ao longe e certamente passando em alta velocidade, como fazem normalmente os motoristas noturnos nas vias mal policiadas e cheias de faróis para serem desrespeitados dos bairros de periferia.Rafaela, em sua cama, com os olhos cerrados não conseguia dormir. A consciência pesava-lhe a alma, ela estava aflita demais. O medo lhe fervia as vísceras, corroia-lhe as entranhas, disparava o coração, acelerava a corrente sanguínea que aquecia todo o corpo tenro da juventude. Emagrecera em pouquíssimo tempo três quilos e meio. Mal se alimentava e agora conversando pouco com os pais e irmão. Distanciou-se das amigas, dos colegas da faculdade, dos vizinhos da rua. Nunca sentira-se tão mal como nesses tempos. Acreditava ser agora uma mentirosa, uma desonrada que não respeitava os pais e a família cristã e em seu tormento foi se fechando.Quase um mês antes dessa interminável e ruidosa noite fria, logo dois dias após seu décimo nono aniversário, comemorado com festinha familiar, com docinhos, salgadinhos e bolo caseiro, um fato inesperado, imprevisto, não pretendido, embora às vezes desejado, lhe acontecera - perdera a virgindade num final de tarde, quase início de noite de forma rápida, fisicamente indolor e surpreendente. Por volta das seis e quarenta cinco o rapaz bastante falador de vinte e cinco anos chamado, Renato, namorado de Rafaela a quase um ano e três meses, aproveitara a oportunidade de estar sozinho com a garota, fato raro, na própria casa dela tirara-lhe a pureza. Os pais e o irmão estavam na igreja em pura corrente de fé, ele, o namorado atrevido, ao acaso (seria ao acaso?) chegando um pouco mais cedo para pegar a namorada para um cineminha e depois uma lanchonete - em noite de sábado isso era permitido. Ela não esperava e nem queria o assédio repentino. Ele todo meloso insistia nos carinhos. Ela penteava os cabelos após vestir-se como sempre de forma sublime, ele ainda nas carícias e com promessas de eterno amor. Ela dificultando, mas não o suficiente, embora aquilo tudo ficando  cada vez mais excitante, ele queria porque queria. E foi ali mesmo, na casa dela, no quarto dela, na cama dela, no seio de um lar abençoado, a flora, em tão pouco tempo, fora consumada. Deflorada, tinha sido deflorada! Meu Deus!  Isso por um rápido prazer e instantâneo arrependimento, seguidos de noites insones intercaladas por sonos breves, pesadelos intensos que levavam a gritos agudos e abruptos disparados em caladas noites frias. Choros contidos, por parte dela. E dele, Renato, o namorado atrevido, ficou o orgulho de um homem que marcou definitivamente seu território, mesmo que pagando o preço de ficar sem o terreno, isso tempos depois.

Imagem Google


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