15/06/2012

Morto, sem nunca ter morrido.

Pavão misterioso, pássaro formoso, tudo é mistério nesse teu voar. Ah! se eu corresse assim, tantos céus assim, muita história eu tinha pra contar.

Ela me lembra Saramandaia, antiga Bole Bole, logradouro onde os capitães e as beatas supostamente virgens, jamais aceitariam que o nome santo fosse maculado. 
Misteriosa, bizarra e fantástica, lá onde tudo acontece como num grande espetáculo de teatro surreal. Tem muitas igrejas e templos ornamentados. Os vivos são fiéis, crentes com fervor exacerbado, embora se portem como ateus alcoolizados nas horas de galhardia. E olha que são muitas.
O padre e o padeiro, o pastor, o professor  e o bicheiro. Incluem-se o açougueiro, o vereador e o carteiro. O delegado é mais faceiro, simula até para o jornaleiro. Salvam-se na lista, as putas, essas mais honradas, são de um mundo verdadeiro. Do homem do pastel ao crioulo que vende mel, ninguém de lá vai para o céu.
O sangue escorreu pelo véu quando um homem de apelido estranho foi dado como réu. Dele, dito foi que matou por ciúmes, pois a mulher infiel,  pêga foi satisfazendo um coronel. Sete facadas de puro aço perfurou o peito dele, o pulmão, a garganta e até o anel.
Um alguém de muita panca levou a história para banca. Mas, o que estaria morto na verdade não morreu, muito menos um assassinato aconteceu. Parece que somente a mulher foi quem deu. Dizem que isso sim aconteceu.
Alguém sem coração um folclore fez versão e outro alguém de boca grande a história carregou e assim  na cidade toda se espalhou.
O rádio anunciou e a loja então fechou. Um dia se passou e outros tantos mais também. E dias mais além, ela se abriu e o povo ali aderiu. Compraram lantejoulas, pulseiras e lápis de cor. Não sei se é verdade, mas pra eles um morto, sim, morreu.
No cemitério um cadáver nem chegou e o coveiro, dizem,  lamentou o corpo que ali parou o pavão num voou supremo levou. Nem o sino da igreja se ouviu e a vilã bem sadia, mulher de valentia, dissimulada em sua loja se evadia. O cabelo de todos penteou e ao mundo assim cantou de que nada se mudou. 
Foi só mais um dia em Saramandaia ou Bole Bole, a cidade das beatas virgens, dos padres e pastores loteadores do céu e do crioulo alto e forte que na venda, vende o mel. Teria sido ele quem perdera o anel?


Lá é como aqui ou como em qualquer lugar. Onde tem dois vivos muito juntos, um terceiro não presente se transforma num doente e um quarto também ausente, vira alguém que mata gente. Alguém morre sem morrer, rouba sem roubar e mente sem mentir. O povo gosta de falar.
O pavão misterioso nem consegue mais ouvir.

… me poupa do vexame de morrer tão moço, muita história ainda eu tenho pra contar. (trecho da música PAVÃO MISTERIOSO - Ednardo e o pessoal do Ceará).


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