07/12/2011

Dias atuais

Com um telefone na mão e uma ideia na cabeça seguimos para qualquer lugar.
No carro, dirigindo, em meio ao trânsito, as ideias vêm e a gente acaba esquecendo de tudo. Aumentamos e diminuímos o volume do rádio. Eu, busco uma estação aqui ou outra ali, as preferidas ficam na memória e sigo no automático, nem me dou conta da direção. 
Os olhos, ultimamente, voltam-se ao velocímetro e o resto para os carros vizinhos que insistem em me espremer entre as faixas quase apagadas da avenida. 
O que foi branco um dia dessas faixas, hoje tem uma cor indefinível. Beiram o escuro, sem cor. Vale mesmo a indicação - trafegue por aqui e não encha o saco. O que importa a cor numa hora dessas, o trânsito está à minha volta. 
Parecemos todos conduzindo carros presos a  guias com alguém intensificando a carga elétrica num controle de mão para impulsioná-los. De vez em quando algum sai dos trilhos e o acidente acontece, lembra os carrinhos de autorama na pista de plástico voando aos capotes.

Depois de tantas multas a habilitação está suspensa. Em casa costumam transferí-las, distribui-las para outros condutores, para eu não ficar com tantos pontos na carteira, evitando a proibição na condução. Mas dessa vez escapou. Explodiu e a suspensão chegou pelo correio.
Quase cem por cento das minhas infrações referem-se a tráfego em dias e horários não permitidos - o tal de rodízio.

Uma delas foi com o celular no ouvido. Não pode, mas quem me chamou não imaginava minha condição momentânea de condutor. Atendi e o guarda ou a câmera registrou e lavrou a infração. Dias depois a ira monitora me alcançou pela correspondência - recebi uma carta num padrão impresso que continha, data e hora do flagrante. Coisa de primeiro mundo - muito eficiente.

Mas o telefone foi o culpado. Ele, com seu pisca-pisca vermelho alucinado, anunciando um email ou um sms ou mesmo um simples chamado.
Essa multa foi a derradeira no acúmulo permitido. Dancei como deveria dançar. E pior, o chamado vinha de um Televendas, um maldito Tele Vendas que perguntava do meu interesse sobre  assinatura de um jornal. Em promoção.


Quando garoto li 1984 onde, George Orwell profetizou em seu romance um futuro inimaginável, todo controlado. Uma tirania institucionalizada que inibia tudo e a todos. Nesse mundo as pessoas eram vigiadas e controladas por câmeras, de tal forma posicionadas, que nada escapava aos olhos de um Estado absolutamente controlador. De tempo em tempo o Grande Irmão, uma espécie de líder magnânimo, mais temido do que amado, anunciava novas leis, sempre severas, ressaltando a todo momento a importância do cumprimento. Solicitava aumento na produtividade aos operários que trajavam  uniformes escuros, sem cor, sem perfume, sem nada. 
Alardeava os mal feitores, os traidores do Estado, insurgentes não cumpridores da lei e, principalmente, as penas, as severas penas que, quando não de morte, vinham mais leves com restrições na alimentação ou coisas assim.
Orweel, em 1948 ironizou a época em que vivia. Do pós guerra e de início da guerra fria, enxergou, como através de uma bola de cristal, trinta e seis anos à sua frente. Imaginou um mundo após guerras atômicas. A guerra nuclear era eminente com o mundo dividido em dois - ocidente e oriente.

Passados setenta e três anos da profecia, nos damos conta que os celulares munidos com pacotes de dados oferecidos pelas operadoras afoitas, são tão ou mais terríveis  que as ameaças nucleares. 
Câmeras nos vigiando a cada cem metros se incorporaram ao cotidiano. Nem nos damos conta dela - os bandidos identificados por elas que os digam. 
Grandes Irmãos, temos aos montes - políticos, religiosos e moralistas se apresentam pelos quatro cantos do mundo. Nos policiam dizendo o que podemos e o que não podemos fazer. Tudo isso faz parte de nossas vidas, se integraram ao cotidiano.

O difícil é tentar se rebelar a isso tudo. Ser independente, se livrar do mecanismo de fibras óticas e satélites. Não dá, não deixam, está fora de questão. Perdemos a batalha. Confesso que me sinto um derrotado quando penso sério sobre o assunto.

O celular - inimaginável em 1948 e em 1984, agora é o nosso Grande Irmão. Presente e atento. Nos localiza e nos identifica onde quer que estejamos. Ele faz as multas chegarem em nossas casas pelo correio. Meio singelo e antiquado, só para nos remeter aos bons e velhos tempos, aqueles, lembram? Quando não existiam emails e nem celulares. 

Isso parece sacanagem.







   






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