07/09/2012

O Berro

Independência ou Morte - Quadro de Pedro Américo

Hoje é feriado no Brasil. Comemora-se respeitosamente sua independência do reino português que na época se restabelecia de invasões napoleônicas, cuja corte, tão logo retornara de sua filial além-mar, reassumia o reinado em seu próprio reino. 
O fato se deu depois de muito diz-que-diz e com um grito agudo de Pedro, filho de João o rei, quando este retornava de Santos com sua comitiva, logo após ser abordado por um mensageiro afoito que lhe entregou uma carta deixando-o furioso por demais. 
Ele, que seria o primeiro, cansado e irritado pela caminhada intensa em meio à mata atlântica, pois, óbvio, não existiam ainda as rodovias Imigrantes e Anchieta e nem mesmo a estrada velha de Santos, perdeu a paciência e mandou todo mundo às favas. Havia recebido, Pedro, estímulo de um Boni, o intelectual da gestão, não o da Globo, mas o original, José Bonifácio, o que se tornaria para história como "o patriarca".
Pedro Américo retratou a cena anos depois com todos os presentes à beira do riacho do Ipiranga. Bem alinhados, vestidos à rigor, como que cheirando à perfume francês, numa composição de palco em um teatro clássico.
Em Portugal o rei não entendeu nada. Não compreendeu o que filho rebelde proclamou. A notícia lá chegou somente meses depois, afinal, o email e torpedos digitais seriam reais somente no século vinte e um. Nos dezenove, nada além das cartas que seguiam por caravelas ao vento navegavando pelos mares de forma desbravada.
Provavelmente o pai enviara a resposta indignada também por carta e que aqui chegara, sabe-se lá quando e possivelmente num trecho se leria:
__ Pedro, raios que me partam! O que fizestes, filho de uma rapariga mal-amada com um jumento manco? Não sejas o primeiro dai, seu bosta! Venhas para cá e se tornará o sétimo na linhagem, pois mudo-lhe o nome para João, assim como eu, ora pois… e daqui reinará os latifundios do norte e do sul. Gajo estúpido comedor de mulatas. Tanto és confuso que seu filho, o segundo, ficará na história com cara de como fosse seu pai. Que merda causastes, Pedro mula! Independência ou morte o caralho!
Não deu tempo e a independência se consagrou nas terras do pau-brasil, do ouro, da esmeralda e da cana de açucar e do etanol. De fato a comunicação era por demais lenta naquela época. Tal e qual lenta é a telefonia e a banda larga nos dias de hoje.
E a partir de então, o Brasil cresceu e tornou-se uma potência econômica, segundo o PT, livre e independente de agruras. De um povo alegre e sorridente. Que tem a melhor educação. Que se tornaria, em menos de dois séculos, penta campeão do mundo. Que desenvolveria um gosto profundo pelo carnaval, pela malandragem, pelos feriadões, pelos pagodes e sertanejos universitários, além de pagar impostos altíssimos recebendo em troca miúdos de esmola em forma de cestas básicas e planos de saúde perversos. Um povo que adora votar,  elege com satisfação pessoas que enganam na maior safadeza, que até adquirem aos dezoito, um título - eleitor, com número de zona e tudo o mais.

Viva, Pedro, o primeiro! Que teria o dom de fazer o segundo, que traria este o trem e a fotografia à terra da alegria. Que seria deposto e exilado com a família para as terras do avô. Abrindo espaço para os primeiros militares alucinados, que deixariam o poder para os fazendeiros do café num movimento ganancioso. Que daria chance para um gaúcho pequeno e de cara sisuda se tornar rei em terra de imperador de macucos. Que alimentaria o sonho de um adamantino para a criação de uma nova capital em planalto central, onde se instalaria a sede da corrupção nacional. Que depois outros tantos fardados, estes mais alucinados, lá ficariam por duas décadas sentados, deixando o barco depois aos latifundiários do norte, aos empresários e intelectuais do sul, a um operário da caatinga e em seguida a uma ex com nome búlgaro.

Centro e noventa anos de liberdade se comemora por aqui. Acho que é por isso que muitos festejam o feriadão nas praias, talvez tentando dessa maneira ver se alguma caravela por aqui aporte de repetente, trazendo containers de respostas um pouco mais sensatas. 

Trata-se aqui de uma brincadeira comemorativa, bem ao gosto do brasileiro.  Sabe o bem informado que a emancipação política do Brasil foi articulada e bem articulada pelo próprio Dom João VI. O homem era astuto e pressentiu o inevitável - a independência nos países do novo mundo era questão de tempo e nada melhor que deixar seu próprio filho como o imperador em terras verdes amareladas. Talvez só não pressentisse com a mesma exatidão o que viria depois. É uma pena.

Bom feriado.
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