25/05/2012

O formigueiro


Herval, com seus 22 anos, seria o rapaz mais comum do mundo não fosse o estranho hábito de comer formigas vivas desde à época tenra de sua infância.
Nascido e criado na Mooca, antigo bairro de São Paulo, cuja família se instalara em meio aos casarões remanescentes das famílias de imigrantes italianos, desde a sua chegada de Santana de Serra Alta, cidade que fica no sul de Minas Gerais, em 1948.
Ainda bebê arrastava-se sorrateiramente em direção a um formigueiro que ficava em meio ao mato ralo que se espalhava pelos fundos do quintal da casa e alí, já guardando o esconderijo, se esbaldava até que uma das irmãs o apanhasse aos solavancos. 
Houvesse uma câmera fotográfica o registro seria feito com supremacia e se estivessem na época do digital, o mundo saberia do menino que come formigas.
__ Hervalzinho, você é louco menino, saia daí já, não faça isso seu moleque filho da puta! Eu te bato se voltar a comer formigas de novo e conto tudo pra mamãe.
E dá-lhe palmadas na bunda e pomadinhas (seria vaselina?) nas mãozinhas vermelhas cheias de picadas.
Vivia com os dedinhos inchados de tanto enfiar as mãozinhas na terra fofa organizadamente amontoada pelas formigas aos redor dos labirintos subterrâneos extensos. Mas pouco se importava, para ele, aquilo era o quitute mais saboroso que podia existir na face da terra e só ele sabia onde encontrar a fartura que lhe diziam ser proibida.


A mãe e o pai quando chegavam do serviço cansados, sempre por volta das seis e meia da tarde, ouviam com horror o que as filhas de nove e oito anos, Maria da Glória e Dulce, contavam aos berros, as desobediências do pequeno Herval, o filho caçula. Maria da Glória, sempre foi a mais enfática.
Ele cresceu como qualquer outro menino da vizinhança. Ia para escola pela manhã, no Grupo Escolar Armando de Nogueira Pinto, jogava bola na rua a tarde e vivia com os joelhos e dedos dos pés ralados. Empinava pipa, bolinha de gude era um craque e quando podia, às escondidas, ia para o fundão do quintal. Embora tivessem cimentado o antigo terreno, das rachaduras resultantes de um trabalho mal feito, brotavam as pequenas marronzinhas que eram, uma a uma, caçadas por ele. A técnica era sempre a mesma - um pouco de mel no chão e logo um monte delas apareciam para o seu deleite. 
De tempo em tempo, cismava em roubar maças, as mais vermelhinhas, na feira livre que todo sábado desde as primeiras horas do dia se instalava na rua de cima, a Felipe de Assis. Era um divertimento. Ouvia com alegria a barulheira dos feirantes logo cedo. Herval dispertava com essa ideia na cabeça. Além de tudo o sábado era o dia em que os pais voltavam mais cedo para casa e sempre traziam a galinha para ser depenada e que serviria de almoço no domingo junto com o macarrão.
Entre ele e Dulce, a irmã mais nova a diferença de idade era de seis anos e de Maria da Glória, a mais velha e mais chata, um pouco mais de sete, quase oito. Contudo, tratava-se de uma família feliz.

E assim a vida seguiu. Anos se passaram e agora o pequeno Herval tornou-se um rapaz bonito de 22 anos, alto e muito forte, sempre alegre e com disposição. As formigas fizeram-lhe bem à saúde. Aprendeu uma profissão a qual os pais orgulhavam-se muito - torneiro mecânico e segundo eles, dos bons. Emprego de carteira assinada na Tornearia Santo Ângelo que ficava na mesma rua da feira de sábado. O amigo de um tio ajeitou o serviço para ele quando completara 13 anos.  
Dulce se casou cedo, com 19 anos e foi com um primo de segundo grau metido a intelectual, mas bem amada pelo marido de sangue e também pelos quatro filhos, todos sadios - Rui, Nelson, Luiz e André. E a irmã, Maria da Glória, nitidamente dava sinais de encalhe, pura vocação para tia, diziam alguns ao pé d’ouvido.
__ Imagine só, trinta e poucos e nunca namorou…

__ Também, com a cara que ela tem… coitada...
Herval morava com os pais e a irmã solteirona e gostava muito de brincar com os quatro sobrinhos que eram seus vizinhos. Raro ele voltar para casa depois de um dia longo de trabalho sem estar com os bolsos cheios de balas e jogava de repente pela janela da sala,  para que a sobrinhada aos gritos se atirassem ao chão disputando cada uma delas.

__ ... é o tio Herval!  Eu sei que é você... tio... Os fedelhos se divertiam.
Ele nunca se mostrava, se escondia pela veneziana gemendo como se fosse um fantasma do além-túmulo e só dava as caras depois do jantar, lá pelas oito e meia, e afirmava aos meninos que não sabia de nada. Não era ele que jogava as balas. 
Na verdade, ia aos sobrinhos somente depois da sobremesa que, sorrateiramente buscava atrás de um pé de laranja que ficava nos fundos do quintal.
Saia para fora com a desculpa de fumante e seguia para os fundos do terreno a passos tranquilos, como que não quisesse nada com nada, assim deliciava-se furtivamente das suas antigas e saborosas amiguinhas. 
Sentia-se um pouco constrangido com isso, sempre sentiu-se assim, pois nunca soubera de ninguém no mundo que gostasse tanto de formigas. Hum.. mas elas são tão crocantes! O pensamento vinha-lhe forte e incontrolável.
Tudo ia bem, parecia ser uma vida tranquila nas cercanias. Alguns vizinhos mais antigos, os que chegaram do interior com seus pais ou mesmo antes deles, morreram. Alguns outros ainda resistiam à vida dura de trabalhador honesto. Herval os viu sempre como parentes. Tios e tias legais que viram ele crescer, que conhecem bem sua família. Um pouco fofoqueiros talvez, mas gente boa, gente do bairro - um sabe de tudo da vida do outro. (será que sabem mesmo?)
Numa tarde fria de quarta feira, logo quando saia da tornearia, ainda vestindo o macacão verde musgo com o emblema TSA bordado com linhas grossas e em vermelho cor de sangue, cravado no bolso esquerdo do peito, onde guardava uma pequena chave de fenda, esquecida, diga-se de passagem e ligeiramente sujo de graxa, Herval percebeu uma moça morena de cabelos compridos e lisos que cobria-lhe os ombros, de olhos castanhos escuros amendoados, caminhando toda séria, apressadamente pela calçada oposta à sua. Parecia conhecida. (seria mesmo?)
Sem que se desse conta, atravessou a rua para vê-la mais de perto. A miopia acentuara-se e a visita ao oculista, ora retardada, era inevitável. Mas naquele momento o que importava mesmo era ver mais de perto a tamanha formosura. Herval era decidido e muito curioso. Talvez fosse efeito das formigas na sua alimentação. O doce lhe atraia.
__ Olá, parece que conheço você.
A moça num susto, respondeu:
__ Que coisa! Quem é você? Saia da frente, por favor...
__ Sou o Herval e você?
__ Não me interessa, dá licença preciso ir, meu irmão está me esperando lá na esquina. Ela retrucou asperamente.
__ Seu irmão é o Ari?

Parando ela respondeu e perguntou:
__ É sim, como sabe, você conhece ele?
__ E você é a... puxa acabei esquecendo seu nome. Não se lembra de mim? Sou o Hervalzinho, eu estudava com seu irmão e ia muito na sua casa brincar com ele quando éramos crianças. Lembra?
__ É? Acho que me lembro. Dissimulou a linda morena de olhos amendoados que na certa não tinha mais que 19 anos, mas já olhando para Herval com um pouco mais de segurança, embora querendo safar-se dele.
__ Puxa vida, você cresceu heim! Está muito bonita.
__ Obrigada. Mas preciso ir,  meu irmão me espera e ele, você deve se lembrar, é muito bravo. 


E saiu não olhando para trás, nem tão pouco dizendo o seu nome. 

Herval voltou-se para o caminho de casa completamente, fisgado, entrelaçado e confuso. Seu coração batia forte e descompassado. Uma flecha o atingira do nada. Algo estranho acabará de acontecer e ele não compreendia. Mesmo assim não deixou de dar a passadinha no bar para comprar as balinhas dos pentelhos.
A noite foi longa na tentativa de lembrar-se do nome da moça tão linda, a irmã do Ari. Seria ela a mulher de sua vida? Pensou.
Os dias se passaram e com eles as noites mais frias. Dias e noites cansativos. Apreensivo e desanimado ele estava um pouco desconcentrado. Uns pensaram tratar-se de anemia. Não, não é nada disso, estou bem - respondia em tom baixo ao ser indagado. Quando podia, corria para trás do pé de laranja e lá tentava se animar. Difícil, tudo muito difícil e sem graça.
Até que, dois meses depois, Herval levou um susto quando viu a linda morena cruzar seu caminho. Foi num sábado de manhã, na feira da rua de cima. Eles se encontraram ao acaso (seria mesmo ao acaso?) na barraca das maças do seu Joaquim.
Surpreendentemente, ela sorriu para ele. Ele atônito retribuiu o sorriso como uma criança perdida quando encontra a mãe desesperada à procura do filho.
__ Oi!  Disse ela, estranhamente simpática.
__ Oi!  Respondeu ele, timidamente, mas com os olhos bem abertos, precisando certificar-se não tratar-se de uma miragem.
__ Qual o seu o nome? Perguntou Herval, sem pestanejar e sem que ela esperasse a pergunta.
__ Docimar. Esqueceu mesmo heim, Hervalzinho.
A voz dela entrou nos seus ouvidos como música tocada por uma orquestra sinfônica em ré bemol, como fossem os sons mais puros de águas de ondas calmas de um mar que se desmancha quando encontra as areias quentes de uma praia deserta. Docimar!
Herval recobrou-se e não parou de falar. Falou de tudo, do time que torcia, da comida que gostava, do que tinha feito no dia anterior. Docimar parecia feliz e retribuía a atenção do galante rapaz. Compraram verduras, legumes e muitas frutas, ambos descobriram naquele dia que gostavam demais das maças vermelhinhas, as menorzinhas.
As coisas iam tão bem entre eles que dois anos depois casaram-se na Igreja Nossa Senhora de Lourdes, a igreja mais antiga do bairro que abrigou em seu espaço amplo toda a vizinhança, apinhando todos os cantos da catedral. Maria da Glória, a irmã mais velha, dada ao tricô e aos fruticos, ficou sentada o tempo todo na cerimônia e na festa que se seguiu. As hemorróidas ardiam-lhe o ânus e acabavam com seu humor.
Agonia - Ismael Nery
Herval ensinou a bela esposa os prazeres da vida, inclusive o de saborear as formigas. Docimar com o tempo adquiriu o hábito sem frescuras. Volta e meia nas tardes quentes, principalmente, a sempre linda morena seguia para o fundo do quintal da casa, onde por anos moraram os pais, hoje falecidos, do seu amado esposo.
Criaram com dedicação e muito suor os três filhos, todos homens. O mais novo, Gabriel, herdou o gosto do pai pelas formigas graúdas, as mais crocantes e também passou a ganhar a vida como torneiro mecânico -  dos bons e está hoje para se casar com uma linda moreninha de olhos amendoados chamada, Amelhinha, filha do seu Joaquim, o da barraca de frutas. 
O filho do meio, Zé Antonio, um rapaz de poucas palavras e um tanto quanto estranho, segundo o falatório da vizinhança, curte intensa e secreta paixão pela tia Glória, agora um pouco mais soltinha e ambos são dados à bebida. (sabe-se lá). O mais velho, Júnior, o único estudado, mudou-se para a Itália  no ano passado quando fazia intercâmbio estudantil. Dizem que ele tem um namorado francês por lá, a vizinhança comenta sobre o assunto ao pé d’ouvido. Como se vê, as coisas mudaram pouco naquele antigo bairro. Junior está se tornando um renomado artista plástico.
Herval e Docimar formaram um casal perfeito e vivem muito felizes. Ele montou sua própria tornearia cinco anos depois que se casar e com ela mantém até hoje a família, incluindo a irmã mais velha, e ela, Docimar, prendada desde menina, dedica-se à costura. Hoje encontra certa dificuldade para enxergar as linhas, por isso os óculos de lentes grossas e de aros dourados robustos.
Todas as noites, depois do jantar, ouve-se o casal em cochichos atrás do pé de laranja, lá no fundo do quintal. Lá sempre teve um formigueiro rico, bem escondido, bem no cantinho do terreno.
Todo mundo tem uma história neste baita formigueiro. Eu tenho a minha e você, caro leitor, tem a sua. Herval e Docimar têm a deles e são bem felizes com ela. (Será?)

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