27/05/2012

Coluna do Vilão - Coisas do futebol

Barbante nunca tomou um gol na vida. Considerando desde as peladas dos tempos de criança, a meteórica carreira profissional que teve início em 1918 até o encerramento dela pelos idos de 1937, cinco anos depois da Revolução Constitucionalista, Carlos Ramirez de Souza Filho - o Barbante, que nasceu e cresceu na modesta, São José do Miracaia do Sul, cidade vizinha à próspera metrópole das andorinhas, Amarilândia, no rico sul do Paraná, terra de José Neves, o príncipe das embaixadas e de Pinto Salgado, o poeta da pelota, ele jamais experimentou a angustia de, se quer, ter levado um único gol em toda a trajetória futebolística. E olha que o homem jogou até pela seleção brasileira. Foram cerca de seiscentas e cinquenta e três partidas oficiais sem nenhum gol tomado, todas marcadas por defesas, simplesmente, espetaculares, que desafiavam as leis da gravidade. Dizem que nem mesmo nos treinos, Barbante se permitia levar gols e muito menos admitia a possibilidade de buscar a bola no fundo da rede. Era um craque e em campo não dava chance pra ninguém.
No jogo em que o Brasil fora desclassifico pela forte seleção do Nepal nas Quartas de final da da Copa de 1930 no Uruguay, partida marcada pela péssima arbitragem do francês, Phillip D'Mond e pela ausência total de público nas arquibancadas devido a um possível desabamento e cujo placar registrou 12 x 1 aos nepalenses, ele, por ter sofrido uma forte contusão em treino do dia anterior, não fora escalado pelo técnico, Barbozinha, o mestre. A história teria sido outra caso o tendão do pé esquerdo não tivesse rompido.  
Saudoso Barbante. Esguio, elegante nos seus quase dois metros de altura e de pele muito alva que lhe rendera o consagrado apelido. Foi campeão pelo Atlético Miracainse nos campeonatos paranaense por três anos seguidos - 1923, 24 e 25. Transferiu-se para o Clube Ypiranga em São Paulo em 1926 e em 28 para o Palestra Itália, no maior contrato assinado na época entre um clube e um atleta, revelado em 500 mil contos de réis.  E logo na partida de estréia em 15 de setembro daquele ano, contra o já rival e glorioso, Sport Club Corinthians Paulista, no estádio que se construía, Paulo Machado de Carvalho - Pacaembú, a ser inaugurado em definitivo somente 12 anos depois, além de fechar a meta como de hábito, marcou os seis gols dos 6 x 0 do resultado final, sendo quatro em cobranças de faltas, um de pênalti, que fez o goleiro ser carregado com bola e tudo para dentro do gol e o histórico, "drible do capeta" quando lançou o tiro de meta, correu para o meio de campo recebendo a própria bola, numa divida com o inesquecível, Canhotinha, o meia esquerda corinthiano de tantas glórias que também atuou na seleção brasileira e seguindo como um foguete, levando ao chão os dez jogadores do time adversário, um atrás do outro. A pelota balançou a rede corinthiana para o delírio da torcida alvi-verde. O estádio veio abaixo naquela tarde de domingo acinzentado.
Barbante encerrou a carreira de super goleiro em 1937 sem nunca ter levado gols e quando ainda atuava pelo Milan. A carreira foi abruptamente interrompida quando flagrado pela polícia milanesa com o passaporte vencido que guardava entre as folhas, uma charge de Mussolini vestindo um exuberante baby dool azul com bolinhas cor de rosa em francos gracejos no bigodinho de Adolf Hitler. Foi deportado para não ser decaptado. E de volta ao Brasil se tornou treinador de goleiros na então poderosa, Portuguesa Santista. Depois fazia bicos no porto de Santos vendendo quebra-queixo aos marinheiros e à noite, ainda levantava algum trocado como leão de chácara na zona do meretrício.  
Morreu pobre e esquecido em 1953 de cirrose hepática e com uma forte gonorréia que nos últimos anos lhe  comia as partes, pelo excesso de bebida e de mulheres de baixo custo.
Nossa homenagem ao querido, Barbante, herói de tantas jornadas, onde quer que ele esteja. É o craque do dia no dia de hoje.
De Londres, Luiz Vilão, para o Diário de Esportes.

Alguns comentaristas escrevem e falam tanta bobagem nos jornais e na TV que resolvi escrever a minha por aqui.


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