27/11/2011

O homem que gostava de pitangas


Velazquez

Só sei que o camarada seguia calmamente pela calçada daquela avenida super movimentada. Os carros buzinavam e alinhavam-se uns atrás dos outros aguardando o farol vermelho que tardava em abrir-se.  Ônibus freando de súbito, provocando fortes ruídos decorrentes da pressão das borrachas aos metais, estacionando no ponto de embarque e desembarque de passageiros que acotovelavam-se também ruidosamente. Mulheres em taires a “la francesa”, azuis, vermelhos e alguns amarelos, seguiam em passos determinados, dando a entender aos quem as reparassem que nova etapa de trabalho as esperavam em casa. Outras estampavam sorrisos discretos nas faces e seguiam aos encontros possivelmente nada atarefados. Todas carregando bolsas  de couro de diversas cores, presas aos braços de forma a dar-lhes maior segurança.
Os executivos, ao menos uniformizados assim aparentavam, riam ou resmungavam, sozinhos ou em grupos, esses últimos em discussões acaloradas sobre o dia de serviço ou do churrasco do domingo, regado a cervejas em latinhas guardadas no congelador.
Em meio à movimentação ele caminhava. E suas pernas longas e arqueadas buscavam passo a passo um destino não definido e equilibravam os quase um metro e noventa de altura de um corpo esfericamente obeso que lhe aferiam o quê do bonachão simpático.
O nó da gravata lilás, sutilmente estampada em detalhes brancos, estava ligeiramente solto e a gola do colarinho da camisa clara com o botão aberto, confortava o pescoço roliço e o paletó com dois botões, tinha somente o de cima fechado e este se sobrepunha à calça do terno em um azul marinho, amarrotado - aparência muito diferente da manhã que contava sempre com a supervisão atenta da esposa dedicada que a tempo retornava do plantão nas madrugadas onde trabalhava como enfermeira em um hospital para doentes mentais.

Saboreava a tarde que se fazia ligeiramente fria, ainda com o sol desenhado timidamente no horizonte oeste lembrando fotografias típicas de final de tarde em dias de inverno. Só faltava a neve.
Parava de tempo em tempo observando uma vitrini ou outra com jeito de quem não quer nada e parecia não querer mesmo. Naquela tarde de sexta feira, saiu um pouco mais cedo do serviço, logo após ter sido demitido pelo gerente de alma fria que argumentara corte administrativo. 
Mesmo assim, procurou manter-se sereno, aparentava isso. O passeio lhe fazia bem naquela situação. Quem o visse defenderia até de baixo d’água tratar-se de um calmo. Só ele sabia o quanto estava sentindo e à mente vinham as consequências do emprego perdido. A dor da demissão inesperada é inigualável.
Pôs-se, então, a perceber as pessoas andando apressadas - moças bonitas, homens barrigudos, mães segurando os filhos pequenos pelas mãos, pedintes implorando ajuda, todos cruzando seu caminho. Num momento ao abaixar a cabeça viu o cadarço do sapato do pé esquerdo desamarrado. Deu-se conta também, num relance periférico, que debaixo do pneu de um carro preto estacionado à sua esquerda, metades de cinco notas de cem reais reluziam entre pontas de cigarros, cascas de bananas e alguns pedaços de papéis, quase molhadas pela água suja que corria na guia.
__ Caralho, é grana mesmo!  Pensou em voz alta, controlando-se em seguida.
Naturalmente a surpresa foi tamanha que o impulso do berro acabou sendo maior e mais rápido que a razão do silêncio apropriado para a ocasião.
__ Quinhentos contos debaixo da roda, não acredito! Metade da prestação do meu carro!
Agachou-se aproximando-se da guia se colocando bem ao lado do carro, cuja roda prendia boa parte do dinheiro. Apoiou a pasta executiva  que carregava deixando-a em pé ao chão, acobertando estrategicamente a visão dos curiosos afoitos.
Ajoelhado, lentamente amarrou o cadarço solto, ajustou o outro deixando ambos em laços ornamentados e o que poderia levar alguns segundos, gastou pelo menos uns dois minutos, tempo suficiente para avaliar a situação. Ainda agachado partiu para a primeira investida e num lance rápido levou a mão esquerda até debaixo da roda. Empurrou algumas cascas de bananas, limpou a área e puxou.
Nada. Não saia do lugar, nem se mexiam. Estavam bem presas. Voltou a cobri-las.

__ Puta que pariu! 
Olhou para os lados e levantou-se, pois era muito tempo para se amarrar os sapatos e alguém poderia desconfiar.
Aplumou-se, pegou a pasta e imediatamente levou a mão à cabeça como num gesto de surpresa - comum aos desatentos - encenação a um possível observador. Sim, a caneta havia lhe caído do bolso. Nos tempos de escola participou das aulas de teatro com dedicação.
Agachou-se novamente com sacrifício, pois o peso do corpo lhe restringia a agilidade, apoiou o joelho direito ao chão, a pasta numa posição de camuflagem, servindo também de muleta, retirou os detritos sobre as notas e puxou o volume. Puxa daqui, puxa dali, cada vez mais forte, mas elas se mantinham insensivelmente presas.
O movimento na calçada agora mais intenso, as pessoas seguiam seus destinos  e nem se davam conta da presença de uma pessoa em atitude no mínimo estranha - quase esparramada ao chão, como um enfartando.
__ Vai tomar no cú, filho da puta!  Sai, caralho!  Os resmungos continuaram por mais algum tempo. E nada, elas pareciam coladas no maldito pneu.
Escondeu o dinheiro sob a sujeira e levantou-se,  cansado, irritado e suado. 
__ Calma. Pensou ele, secando o rosto com o lenço azul claro que buscou no bolso do paletó.
Tentou empurrar o carro preto procurando não chamar a atenção. Difícil, mas empenhou-se na dissimulação.
Respirou, olhou para o dinheiro que somente ele sabia que estava ali e teve finalmente uma ideia. Pegou a pasta que ainda estava ao chão, alinhou-se e deu uns passos à frente. Olhou para trás. Ergueu os ombros e seguiu um pouco mais à frente. Pensou em chamar um guincho.
__ Estupidez, o que o cara iria pensar?  E ainda iria querer a metade do dinheiro, mais a conta do serviço de guincho, se me sobrar uns cem contos seria muito.
Inconformado, fez meia volta e retornou. Olhava para os lados, para frente e para trás. Ninguém se dava conta de nada, poderia ficar tranquilo. Coisas assim passavam por sua cabeça - somente ele sabia do dinheiro. Podia, então, acalmar-se, esperar pacientemente o dono do carro que não tardaria, o carro sairia dali e o dinheiro num passe de mágica iria para as suas mãos.
Em pé e cansado, sentou-se sobre o capô do agora percebido luxuoso carro preto, descansando assim as juntas das pernas e as costas que lhe doíam muito. Passou-se como dono do carro a espera de alguém. Olhava o relógio de tempo em tempo atuando como um ator assistido por milhares de pessoas em uma platéia enfervecida.
Olhava para a roda e via seu achado bem guardado, aliás bem guardado mesmo, uma sobre a outra, todas as notas debaixo do filha da puta de pneu.
Deu-se conta que duas horas tinham se passado. Quase oito da noite e ainda encontrava-se na mesma situação.
__ Bem que o corno, filho da puta, dono desta merda poderia vir  e tirar esta porra daqui. A educação fora para o saco. 
Mais uma hora se passou. Andava sempre próximo ao veículo, não se atrevia afastar-se mais que dez metros dali e sempre de olho no dinheiro. Tinha receio de se distrair, o carro partir e um  arrombado pegar a sua grana.
Quase dez e meia da noite e o frio cada vez mais intenso. Onze horas, meia noite. Uma da manhã. Com fome, vontade de ir ao banheiro, lembrava da demissão sumária - agora um desempregado fodido, cheio de dívidas, enrolado até o pescoço. Perguntava-se como uma pessoa de pouco mais de quarenta anos poderia arrumar outro emprego. Mesmo desconsolado não arredava os pés dali. 
Ouviu do nada um som, pareceu-lhe um líquido escorrendo. Um cachorro com a pata direita erguida urinava no pneu que prendia o dinheiro. 
__ Sai daqui filho da puta!  Deu um pontapé no cão sarnento que com um uivo alucinado correu com a bunda dolorida pela calçada afora, agora com menos transeuntes.
Os carros seguiam livremente nessa hora, o trânsito fluía com maior tranquilidade.
Algumas prostitutas faziam ponto exatamente naquele quarteirão. De quando em quando uma ou outra se aproximava dele oferecendo seus préstimos, anunciando o menu, item a item com os preços de cada prato.
__ Estou de serviço. Sai fora.
__ Vai tomá no cú, seu viado - era a resposta que mais ouvia.
Lá pelas tantas deu-se conta que estava em frente a um hotel. Um hotel pequeno de paredes amareladas e reboco fofo, de no máximo meia estrela, daqueles de curta permanência, onde o H da palavra Hotel no luminoso de neon de letras vermelhas mais parecia um M. Tática para iludir um consumidor incauto ou com pouco dinheiro no bolso.
__ Um puteiro e dos ramperos. Decretou.
Logo em seguida viu sair pela porta de vidro do hotel uma vistosa morena que, de salto alto muito brilhante, parecia ainda mais atraente - a dama da noite.  Trajava, se é que podemos chamar assim, uma curtíssima saia vermelha, justa ao corpo que realçava-lhe os glúteos e as coxas grossas delineadas e cobria-lhe os seios volumosos, parte destes vistos pelo decote caridoso, uma blusa branca de rendas delicadas que ainda deixava à vista ao freguês o umbigo e a cintura de Miss. 
Aparentava mulher de uns trinta e poucos anos, bem cuidada na produção a ponto de iludir o cliente que buscava uma adolescente.
O bonachão não fixou o olhar num único ponto do que compreendeu ser um monumento à sensualidade. Admirou, num espanto repentino, a formosura da obra como um todo. Ficou encantado.
Ao lado dela, bem colado ao seu corpo, um senhor bem apessoado aparentando um novo rico.  Ostentava pulseiras e correntes em ouro que tilintavam como música de bordel. Abraçava-lhe a cintura com intimidade guiando seus passos nos degraus que se entre punham à calçada. Ambos gargalhavam às alturas e no rítmo da música dourada dos colares e pulseiras.
Caminharam em sua direção. Na verdade, seguiam em direção ao carro preto onde ele apoiava a enorme bunda cansada.
__ Porra, finalmente! Deve ser o dono do carro, concluiu.
Sorrateiramente saiu de lado dando passagem ao casal aguardando a saída do veículo que por horas retardou o saque do tesouro escondido.
Qual fora sua surpresa quando o fino cavalheiro sorriu para ele e do bolso tirou algumas notas de vinte reais -   quatro delas e lhe ofereceu agradecendo a guarda do veículo. Instintivamente ele pegou os trocados e retribuiu com um sorriso sem graça.
Em seguida dirigiu seu olhar para os da divina morena. De sobressalto deu dois pulos para trás - Não é possível!  Ela se quer notou sua presença, parecia um pouco atordoada, talvez com umas doses de bebidas a mais, seguiu aos tropeços à porta do passageiro entrando e sentado-se ao banco do passageiro.
Enquanto isso o galante senhor do nada reparou as notas sob o pneu de seu carro. Entrou e sentou-se  rapidamente ao banco deste, virou a chave, engatou a primeira marcha e rodou uns trinta centímetros à frente, o suficiente para liberar as notas presas sob a roda.
Saiu do carro e pegou o volume entre a sujeira e urina de cachorro. Deu uma sonora gargalhada e num gesto nobre ofereceu todo o achado ao simpático guardador. 
__ Tome, fique como pagamento, você merece.
Voltou ao carro e nele arrancou em velocidade levando a formosa companhia para outros cantos. Ouviu-se um CD que tocava uma música que começava com algo assim:
Garçon, nesta mesa de um bar...
Embasbacado, atônito, o homem alto de pernas longas e arqueadas, de corpo em circunferência desproporcional, segurando os quinhentos e oitenta reais em uma das mãos e a outra apoiada à cintura, viu sua esposa, mãe dos gêmeos queridos, a mulher de quem recebera eternas juras de amor e fidelidade,  escafeder-se com seu cafetão num luxuoso carro preto.
Deu-se conta que a enfermeira na verdade, era uma puta.
Dali em diante, nunca mais trabalhou. Foram felizes para sempre, ela como enfermeira no hospício municipal e ele, eleito a vereador, reconhecidamente numa carreira promissora. 

Sempre juntos.

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