14/11/2011

Escrever é provocar.


Pois é, cada um tem uma mania. Eu, por exemplo, quando me deparo com alguma situação não muito comum costumo lembrar de coisas que até então mantinham-se esquecidas. Um simples abrir de uma garrafa de Coca Cola com o som da tampinha se desprendendo com o gás me leva a algum momento da vida. Bobagem, não é? Mas eu sou assim e acho que estou ficando velho - um saudosista de carteirinha.
Uma música, um aroma ou uma frase já são suficientes para eu me remeter ao passado. Isso vem acontecendo com certa frequência. Acho que por essa razão me chamam de desligado. Estou ficando fora do tempo.

Ontem, arrumando as coisas do quartinho que fica nos fundos do quintal encontrei uma velha parceira. Uma boa amiga que há muito não via - minha Máquina de Escrever - uma Olivetti - Lettera 22
Quando a comprei, acho que em 1982, nem sonhava que um dia poderia escrever utilizando um computador - na época computadores eram coisas gigantes que somente os bancos tinham. Tudo se fazia no toque objetivo dos dedos sobre um teclado com os marcadores de letras dispostas em harmonia num painel aparentemente robusto e cada uma das teclas em acabamento de matéria plástica reluzentes. Se nervoso, a letra teclada, num impulso mecânico se estampava com mais profundidade no papel e, se impressa erradamente, nada de deletes - corrigia-se com um lápis borracha, com muita habilidade para não ofender o papel branco ou, então, passava-se bem suavemente o branquinho - líquido à base de látex que com um pincel pequeno cobríamos a palavra ou as letras indesejadas.
Quando a pressa não permitia restaurações usávamos o tatatata, uma sequência de X sobre o que erradamente escrevíamos. Isso um computador até hoje não faz, letra sobre letra.
lápis borracha e o branquinho faziam parte dos tempos mais recentes, máquinas elétricas ou eletrônicas - pré lap tops. Um pouco antes disso usávamos uma borracha azul que moldávamos cortando em pontas agudas para que ela se encaixasse entre letras batidas. Isso quando o documento permitia leves rasuras.

Olhei pra minha antiga máquina com simpatia e uma ponta de melancolia. 


Quanto tempo, heim! O que faz aqui escondida?

Por alguns minutos fiquei olhando para ela com carinho, segurando-a nas mãos, acariciando o seu rosto, sentindo o seu cheiro que me provocavam lembranças. Tudo parecia estar acontecendo naquele momento.


Quantas coisas fizemos juntos, garota, lembra-se? Quantas ideias você me proporcionou, minha amiga. Bons bocados passamos lado a lado, você e eu. Sempre disponível pra mim e eu pra você. Me permitindo o toque pelos meus dedos que obedeciam o comando frenético e alucinado da minha imaginação fugaz. Suave e romântico às vezes, malicioso e caloroso em outras. Quando você parecia exausta, se irritava e prendia-se toda, travando-se com os seus tipos. E eu, com jeitinho e muita paciência te recompunha com carinho, fazendo com que você aos poucos voltasse para mim, aos cantos, deliciando-se com os meus toques. Você continua bonita e atraente, garota. Gosto ainda de você.


Nesse curto espaço de tempo me lembrei de muitas coisas que estavam guardadas lá no fundo da memória, praticamente esquecidas.
O papel carbono, o vidro de cola com goma arábica, o cacoete na tecla de maiúsculo, batendo em quanto aguardava impaciente a palavra adequada para a frase que escrevia. Lembrei da chave que revertia a cor preta para a impressão em vermelho; a outra chave de regulava a pressão do rolo e o alinhamento que se fazia para o texto ficar equilibrado com o papel. Lembrei rapidamente de tudo que fazia parte daquela época.
De 1982 num salto fui parar em 1968. Escola de datilografia no Instituto Saldanha Marinho na Avenida Celso Garcia quase esquina com a Rua Belém. Naquela época diplomavam-se os que concluíam o eficiente curso que durava cerca de três ou quatro meses. Com o diploma de datilógrafo em mãos a chance de se conseguir um bom emprego, num escritório por exemplo, era maior.E se tivesse o curso de contabilidade, então, ninguém segurava, o futuro vinha certo.
O meu primeiro salário com carteira assinada foi de CR$ 64,80 - sessenta e quatro cruzeiros e oitenta centavos - salário mínimo de menor registrado como auxiliar de escritório e serviços externos numa fábrica de copos, pratos e jarras de vidro, bem perto de casa e onde meu bisavô também trabalhou quando chegou da Itália.  
Passei no teste mesmo sem saber datilografar direito, acho que era bom de papo, ganhei a simpatia das pessoas do Departamento Pessoal, porque falava como gente grande, embora fosse um pirralho metido a besta e ainda sendo muito tímido. Precisava daquele emprego e consegui, no grito.


Quanta gente veio à cabeça enquanto relembrava. Pareciam fantasmas que se apresentavam um a um diante de mim - dona Zuleica, a gorda mal encarada da Tesouraria, seu Cláudio da Contabilidade, um homem grande que falava alto provocando medo nas pessoas; uma crente de cabelos lisos e muito compridos e com os olhos amendoados, ligeiramente tristes. Judith era o seu nome e trabalhava no Arquivo, uma sala grande com prateleiras de madeira pintadas de marron escuro, carregadas de pastas, documentos e fichas. Um ambiente pouco iluminado e com jeito de mal assombrado - ela falava muito baixinho, quase nem se ouvia. A gostosa de seios enormes e coxas grossas, chamada Meire, secretária do diretor financeiro que atendia pelo nome de doutor Osvaldo Haddad. Ela brincava comigo e eu acreditava tratar-se de nítidas insinuações libidinosas. Dizia que eu era um bom menino, bonito, mas  um pouco atrevido para a minha idade, talvez porque vira e mexe ela me pegava com cara de tonto observando suas curvas delineadas, escondidas nos vestidos estampados, justos e ligeiramente curtos que usava - motivo pelo qual dominavam a imaginação do adolescente sonhador durante os banhos prolongados que invariavelmente eram interrompidos pelos berros ameaçadores de sua sempre atenta, mãe - Termina logo com esse banho, moleque sem vergonha, pára de gastar água a toa, se não entro ai e te arrebento!!!













Meu chefe chamava-se seu João Forcinitte, um sujeito legal e não tinha pinta de chefe e nem gozava do respeito dos seus subordinados. Me lembro que era meio desleixado,  desarrumado e por isso vítima preferida de piadas que eu mal compreendia. Era diferente dos outros chefes que na maioria se faziam passar por homens sérios e bem sucedidos, principalmente o Dr Osvaldo da secretária Meire, a gostosa.


No enorme escritório, muitas máquinas de escrever, nem sei quantas, mais de quinhentas eu acho. Nas mesas enfileiradas os funcionários se alinhavam diante de seus instrumentos de trabalho e como músicos obedecendo a batuta de um maestro, após o toque do apito que por todo o bairro se ouvia, num sincronismo absoluto, iniciavam suas tarefas. A orquestra nada sinfônica era mais ruidosa que os fornos acesos da fábrica cozinhando os copos de vidro nos enormes galpões que tomavam todo o quarteirão. 
Eu admirava aquilo tudo e me sentia feliz por ser um datilógrafo - quase diplomado, de uma grande empresa de vidros e cristais.
Minha paciência durou um pouco mais de um ano, mandei todo mundo à merda quando me dei conta que não queria fazer nada sob o comando de uma sirene idiota.


Daquele tempo guardei o gosto pela máquina de escrever e sempre quis fazer dela um melhor uso. Escrevi com tantas outras máquinas até comprar a minha própria, minha Lettera-22. Nem todo mundo tinha uma, eu tive, pagando muitas prestações no Mappin.


Depois de anos, insensível me rendi. A substituí pela agilidade de um computador. Depois por outro e mais outros, ano a ano. E agora com este mega moderno equipamento digital, cheio de memórias e recursos, escrevo para lembrar das boas e velhas amigas, Remington, Olivetti e Royal.
Aos seus toques vivi como quem amava os Beatles e os Rolling Stones. Do Calhambeque do Roberto Carlos, do É proibido proibir, dos rebeldes e liberalistas estudantes franceses, dos hippies enfumaçados e da arrogância dos militares golpistas do Brasil.
Para mim elas representam uma época, representam momentos definitivos da minha vida, deram sentido à minha história. De cada uma guardo doces recordações.
A última deixou mais saudade. Quando a reencontrei ontem fiquei emocionado, agradecido, mas não me atrevi ir além disso. Preferi devolve-la rapidamente ao armário e ficar com a nova amiga, mais ágil e que não precisa de branquinhos. A antiga voltou para a história. 
Desculpe, Lettera, sinal dos tempos. Você se mantém convicta na sua essência e eu respeito, mas preciso ir seguindo, adaptando-me aos tempos. Bola pra frente que atrás vem gente, colega. Estamos em 2011 e quase em 2012.










Escrever é provocar.
Li isso em algum lugar e datilografei aqui.
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