09/09/2011

Élvio, o ET de Juracy.


Élvio, um homem de mídia - um publicitário. Assim ele queria ser visto na sua cidade, a pequena e quase pacata, Juracy, distante em algum ponto no interior do Brasil.


I
Exceto aos domingos, cujas manhãs, desde a infância foram reservadas às obrigações religiosas - missa na Igreja no Largo da Matriz, rezadas pelo Padre, Gian Di Pecchia, um italiano alto e forte, radicado na cidade há cerca de 30 anos e confessor da família, Élvio saía para o trabalho às dez em ponto. Com chuva ou com sol cumpria o ritual de forma rigorosamente disciplinada. 
Tinha fama de honesto, de generoso e de trabalhador. Muito embora, comentava-se ao pé do ouvido sobre seu comportamento, um tanto quanto estranho. Pelo jeito calado de ser, mais para observador e com piadas soltas basicamente do nada e sem muito sentido, desde cedo renderam-lhe o apelido de ET. Foi um menino daqueles que até hoje são ridicularizados nas escolas e fora delas.
Raras as vezes em que não estava trabalhando. Se alguém tivesse contado os dias em que não foi visto circulando pelas ruas de Juracy, nos seus vinte e nove anos de idade e quase onze de profissão, a soma não passaria de cinco. Contaram. 
Foram os dias em que esteve com a que foi considerada, a febre mais intensa que um ser humano poderia suportar, impensável à medicina moderna - 45 graus, da qual nunca souberam da origem e nem como, do nada, ela partira. E, nem tão pouco, compreendera-se como teria sobrevivido aquele jovem de estatura alta e ligeiramente magro, de pele morena marcada pelo sol, com os cabelos lisos, sempre alinhados e ligeiramente caídos à lateral esquerda da grande cabeça, dando ao rosto o formato obtuso de um triângulo e cujo nariz projetara-se com pelo menos um centímetro e meio maior que os narizes comuns - pontudo e angulado, induzindo à combinação para o cultivo de um vasto bigode de fios mal aparados que cobria-lhe boa parte da boca de lábios finos. Por muito tempo só se falou do assunto na quase pacata, Juracy.
Nas primeiras horas da manhã, que nunca iniciavam após a batida das cinco e meia, Élvio, tratava dos bichos - oito galinhas batizadas com nomes de algarismos - 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8 e que davam de cinco a seis ovos por dia, mais o galo, chamado ironicamente de Pinto Grande, por ser pequeno; dois casais de patos, Zé Preto, Alemão, Branquela e Choca; um bode, Eliakin, muito nervoso e de poucas palavras, segundo ele e uma cabra mansa, Dengosa, que dela, mais ou menos, um litro de leite quente por dia ele tirava, sempre com orgulho, percebidos por quem o visse de longe, pelos passos desordenados, saltitantes e de braços abertos para o mundo com o jarro de leite numa das mãos e com um sorriso patético (?) estampado ao rosto. Élvio conhecia bem o trato com os animais, por isso mesmo, até Eliakin, o de poucas palavras, o respeitava.
Sem contar os dois canários de estimação, Zico e Feia, que mal cantavam e viviam empoleirados, quietos, mais parecendo duas peças embalsamadas na velha gaiola que ficava dependurada na parede de reboque estufado. De arames enferrujados e com as ripas que se esfarelavam quando mal tocadas, exigindo frequentes remendos com linhas e barbantes de cores diversas encontrados ao acaso e costurados com a destreza de mãos pacientes e decididas como as de Élvio. 
E, também, as brincadeiras com afagos mútuos com seu companheiro leal, Valente, um cão de barriga gorda de lombrigas, cujo bucho, irremediavelmente desforme, se arrastava pelo chão quando caminhava meio que sem direção à procura do que fazer ou do que comer, escondendo a magreza esquálida a um espectador desatento, acreditando este, pelo lapso,  tratar-se de um animal bem nutrido. 
De pelos de um marrom escuro e com algumas manchas brancas encardidas desenhadas ao corpo e de olho esquerdo, definitivamente selado pela paulada certeira recebida do vizinho embriagado, quando este, por engano, (teria sido mesmo engano?) numa noite chuvosa, invadiu o quintal da casa dos Pinto.

Obra de Salvador Dali
Seu Carlos, nunca admitiu a autoria, mas, Élvio, muito esperto, nunca suspeitou de outro se não do vizinho mal encarado e dado, vezes por outra, à cachaçaria e aos chingamentos e, pior, mantinha as constantes conversas, sorrateiras, com sua mãe, Dona Lisa, uma mulher de cabelos claros de quarenta e seis anos, de rosto bonito, mas, sisudo, próprio de beatas de carreira que vêem pecado em tudo e que escondia pelas vestes de cores neutras, um corpo esguio, equilibrado, com busto e glúteos avantajados, bem delineados, sugerindo também possuir um par de coxas sem igual aos quais, desde jovem, foram pretendidos e admirados pelos homens da cercania. 
Era conhecida nas redondezas pelo modo severo com que criara o único filho de pai viajante, desconhecido, que nunca voltou. 
Geralmente ele, Élvio, os via proseando em voz baixa, intercaladas a contidas gargalhadas, (do que riam?) próximos ao muro de metro e meio que dividia mal e tortamente os dois terrenos. 


Nunca compreendera como sua mãe dava a tal sujeito o que ele nunca tivera dela, nem mesmo quando, da única vez em que ficou doente, muito doente, com 45 graus de febre pelo magro corpo estatelado na cama sob os cuidados da única tia, Selena, na época ainda viva e do Padre Gian, que acompanhava sua mãe até sua casa, após a missa da seis. Escondia mágoa por isso.
As manhãs eram iguais, mudando somente em dias quentes e secos, quando podia sair para o trabalho, feliz, (?) vestindo a bermuda estampada, camiseta branca com um coração vermelho ao peito onde se estampou a inscrição I (coração) Juracy e com os tênis rotos de cardarços curtos, ou nos em dias em que amanheciam chuvosos e úmidos quando se cobria com a velha capa plástica preta e calçando as botas de borracha de cano longo que Padre Gian, o alto, lhe dera quando completara 18 anos, sempre foram um pouco apertadas aos pés.
Às dez em ponto, com passos como de um senhor absoluto das obrigações, dirigia-se à garagem da casa assobrada e mal caiada, que fora no passado a residência dos avós maternos, e se é que podemos chamar de garagem o pequeno espaço destelhado, de mato crescido que ficava nos fundos do quintal, próximo de onde Valente dormia. Único ponto do antigo palacete em que sua mãe tolerava a permanência do veículo e a pousada do cachorro. 


Montado e com a chave no contato de sua Honda 125cc, azul retocada à mão, com pneus necessitando de substituição, equipada com um baú amarelo canário, preso ao que seria o assento traseiro onde acomodava-se um antigo gravador de fita K7, Akay, um pequeno amplificador CCE e dois altos falantes sem marca de som estridentes, que ficavam presos pelas braçadeiras de alumínio escurecido, bem aparafusados, fixos ao corpo da motocileta. 


Como nos trios elétricos dos carnavais baianos, saía pelas ruas a tocar bem alto a seleção musical cuidadosamente preparada por ele nas folgas das tardes de domingo, só de canções do Rei, Roberto Carlos, Odair José e Reginaldo Rossi, seus ídolos, entre elas seguiam os anúncios acalorados, gravados por ele mesmo no banheiro de casa quando a mãe, Dona Lisa, não estava, das ofertas e liquidações encomendados pelos proprietários das lojas de móveis, armarinhos, bazares, farmácias, açougues e quitandas da pequena e quase pacata, Juracy. 
Élvio, o ET, sentia-se o publicitário, sabia que era um.


continua...

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