09/12/2012

Passárgada fica depois de Shangri-La.

Vou-me embora pra Passárgada, lá sou amigo do Rei. Lá tenho a mulher que eu quero na cama que escolherei.
Manoel Bandeira
Nasci em 1954 quando o presidente da república era Getúlio Vargas. Depois de uma etapa de quinze anos no poder, conquistado e mantido a bala de 1930 a 1945 foi substituído por um interino, José Linhares, este ficando por lá por três meses, quando um outro general, agora eleito pelo povo, vestiu a mesma faixa com elegância caudilha, era Eurico Gaspar Dutra.

Getúlio em segundo mandato, legítimo dessa vez, não suportando viver no mesmo período histórico que eu, suicidou-se em agosto, oito meses depois do meu nascimento. Teria sido um ato de covardia por parte dele? O vice, Café Filho foi elevado ao posto constitucionalmente e permaneceu nele até novembro de 1955, quando dois interinos subsequentes completaram o mandato, Carlos Luz e Nereu Ramos.

Em 1956 sob forte apelo popular, Juscelino Kubitscheck foi eleito e assim cumpriu a promessa de campanha, construiu uma nova capital bem no centro do país deixando alguns cariocas aturdidos. Neste período meu pai iniciava uma pequena indústria, fabricava com sacrifício  e em pequena escala, sidecars, aquelas barquinhas que ficavam ao lado das lambretas que serviam de transporte de pessoas ou de bagagens, muito em moda no início dos sessenta e viu seus sonhos irem para o espaço, melhor, para a nova capital pela total falta de aço no país, pois o estoque limitado tinha destino certo, o planalto central. A Bossa Nova dava o tom aos modernistas.

Um sujeito que parecia ter vindo de marte, com uma vassoura na mão e com um bigode que lembrava Groucho Marx, o mesmo que mandou o rinoceronte Cacareco para os quintos dos infernos, foi eleito. Jânio Quadros era o seu nome e foi para Brasília cheio de razão e levou a faixa de presidente com pompa de britânico. Mas com ela ficou somente seis meses e vinte e cinco dias - de 31/01/61 a 25/8/61. Forças ocultas fizeram com que ele, prematuramente  evaporasse. O danado renunciou na calada da noite e o país foi pego de surpresa da noite para o dia. (seria mesmo?) Posição que deixou os militares da época loucos para abrirem os quartéis e de orelhas em pé. O vice João Goulart que se profissionalisava  no papel de vice desde os tempos de Juscelino, encontrando-se em viagem diplomática pela China, então avermelhada por Mao Tse Tung, não cheirava bem aos narizes das forças armadas, estas subsidiadas ideologicamente pelo império do norte. 

Ranieri Mazzili, presidente do Congresso, subiu às pressas a rampa e tomou o assento presidencial e nele ficou por treze dias, enquanto os progressistas e conservadores degladiavam-se entre ideais alternativos.

Jango, como era conhecido, foi enfiado goela abaixo aos quem não o queria e sob total desaprovação americana, que também encontrava-se às voltas com os mísseis soviéticos de Nikita, todos de calibres atômicos, bem aos seus pés, instalados na ilha de Fidel, um pequeno país que levava e leva até hoje nome de bebida. Provável brincadeira da Coca-Cola - Cuba Libre que na verdade não  era e não é nada livre. 

Assumiu mas não por muito tempo. Jango foi deposto e obrigado a refugiar-se no Uruguai. O socialista virou fazendeiro de gado. Foi presidente de 07/09/61 a 01/04/64, curiosamente duas datas emblemáticas no Brasil - a primeiro é o dia da independência e o segundo, comemorasse o dia da mentira.

Então eles, os militares, vieram com tudo, em nome da segurança nacional e da defesa da moral e dos bons costumes. Teleguiados por forças ocultas, possivelmente as mesmas que encurtaram a carreira do varredor marciano, o que deu medalha ao Tchê, argentino amigo do cubano, ergueram-se do berço explêndido muito nerosos e chutaram o pau da barraca em pura campanha. Os países vizinhos, coincidentemente, embarcaram no mesmo batismo de sangue.
Bora! Comunista aqui não tem vez. Mando prender e mando matar! 

General substituindo general no posto central, de abril de 1964 a março de 1985. Vinte e um anos em forma, nos colocando em forma como pães de forma e ai daquele que não entrasse na linha, pau nele e no dele.

Ranieri, o que antecedeu Jango por treze dias, assumiu o posto em 31 de março, por outros treze até que Castelo Branco, um general carrancudo, no 15 de abril pegou o bastão e com ele permaneceu até março de 1967. Diz a lenda que ele não queria a presidência, recebeu uma ordem e como soldado vou cumpri-la. O tom foi dado ali.
Desta data a março de 1969 quem vestiu a faixa foi Costa e Silva (eu pensava no início que tratava-se de duas pessoas, uma dupla de generais caipiras - não existiam ainda as sertanejas universitárias). O homem gostava tanto de mandar, ele e seus pares que, depois de quatro Atos Institucionais, deflagradores de infortúnios, mandou um quinto de detonar, um tal de AI-5. Daí o pau comeu de vez. A Ilha de Fidel mudou-se para cá sem ele. É o que parecia. A censura encobria a miséria e os miseráveis encobertos pelas porradas.
A farra seguiu até a doença de Costa e Silva que o afastou em definitivo e por três meses de 1969, do final de agosto ao final de outubro, uma Junta Governativa Provisória, formada pelo auto comando do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, assumiu o governo sem que um único ocupante pudesse sentar à cadeira - só havia uma mesmo. E depois da Junta foi escolhido para os próximos quatros anos,  o general Emílio Garrastazu Médici, o cara da Copa de 70 o que convocou Dario Maravilha, o que aplaudia o Ameo-o ou Deixe-o. Foi o todo-poderoso de 30 de outubro de 1969 a 15 de março de 1974. 
Dizem as más línguas que foi o período mais truculento da didatura. A todo canto escondiam-se os paramiliatres, meticulosamente imbuídos de obscuros anseios perversos, caçando jovens indignados que erguiam metralhadoras, assaltando expropriando como eles se defendiam, dinheiro dos bancos e sequestrando embaixadores em troca de companheiros caídos. Tudo pela vitória e fé na liberdade e igualdade para todos. Muitos deles evaporam, transformando-se em novos Tiradentes. Outros amarguraram anos de exílio em terras distantes e alguns poucos se deram bem anos à frente, muito bem, diga-se de passagem, curtindo ternos e taieres elegantíssimos, encharcando-se de champanhe francês em cerimônias requintadas, empanturrando-se de comida como porcos gulosos as suas barrigas enormes, tal como faziam seus antecessores.
Outro linha dura chegou tomando o trono em Brasília. De março de 1974 a março de 1979, portanto, durante cinco anos vimos e ouvimos um sisudo general falar todo sério no rádio e na tv coisas que não compreendíamos direito, mas pela obediência e servidão, tínhamos que aceitar. O nome dele era Ernesto Geisel. Sujeito grandão, mal encarado como seus amigos e ainda de sobrenome alemão, fatalmente nos remetendo aos generais da Gestapo.
Novos tempos à frente, sinais de abertura democrática no final do túnel. João Figueiredo, um pouco mais jovem, esse general tinha cara de bonzinho, mas revelou-se logo depois mais um tirano. Não usou farda na maior parte do tempo em que esteve no poder. Realmente pelo sinal dos novos tempos o marketing do início dos oitenta exigia um país mais moderno. Seria ele o último da linhagem?
Sim, foi o último. Mas aproveitou no que pôde raspando o fundo da panela bem raspado, mandando prender e mandando soltar, lascando bombas nos primeiros de maio, até cair do cavalo um dia machucando a bunda velha. Os exilados retornaram pois o afrouxamento era inevitável. Anistia era a palavra de ordem. Ampla geral e irrestrita. (para ambos os lados, é claro). A economia globalizada ameaçava bater à porta e bala de canhão não combinava com o novo padrão.

O Congresso restaurado, povoado de direitistas, centristas e esquerdistas recusou o Diretas Já! e um novo presidente que não seria mais um general, foi eleito pelo voto indireto, claramente manipulado pelo mesmo congresso afoito. Um veterano congressista, um mestre articulador, mineiro dos mais arretados foi escolhido para a transição, Tancredo Neves. Um presidente sem nunca ter sido, morreu horas antes da posse, isso em 25 de março de 1985.

Seu vice era nada mais nada menos que José Sarney, José Ribamar, poeta nas horas vagas, membro da Academia Brasileira de Letras, o mesmo chefão que manda muito até hoje. Ele tomou posse instaurando a República Nova, se contra ponto às Velha e Nova Repúblicas e a ditadura militar agora recolhida aos quartéis. Assumiu com juras de promessas mil, iria lutar contra a inflação de quase três dígitos e que acabaria com a corrupção, a doença cancerígena que nos assola desde os tempos da colonização.

Brasileiras e brasileiros com o Cruzado e depois o Cruzado Novo, em mãos, passaram a ser os Fiscais do Sarney. Planos e mais planos se sucederam sem surtir efeito algum. Greves se espalharam pelo país, afinal, na condição de livres, elas eram permitidas. Fomos fiscais somente contra a inflação. Meia duzia de gerentes de super mercados foram presos, um ou outro comerciante foi exposto na tv taxados por dias como inimigos públicos. 

O foco do seu governo, habilmente manipulado, escondeu mais uma vez o verdadeiro mal, a origem de tudo, a velha corrupção.
Novos líderes foram surgindo na explosão de greves. Barbudos cachaceiros, semi analfabetos e intelectuais, mais operários, metalúrgicos, bancários e bancárias. Algumas centrais sindicais únicas, saíram da clandestinidade. O Brasil estava mudando. Arena e MDB, toscos partidos políticos remanescentes dos derradeiros anos de chumbo, ficaram para trás. Inúmeras novas siglas nasceram a partir da reforma partidária. Foi um toma-lá dá-cá geral, uma bagunça ideológica que confundiu meio mundo. 

Uma nova constituição foi promulgada por políticos auto intitulados constituintes e Ulisses Guimarães, o veterano guardião, berrou com a voz do coração, embargada de tanta emoção no centro do Congresso Nacional em 1988.

Nessa época, lá pelos lados de Alagoas despontava um novo nome, um nome de caráter nacional, um caçador de Marajás, vendendo integridade e competência indubitáveis. Fabricado, malequisado, pasteurizado como um homem de bem, assim o ilustre poderia concorrer pelas presidenciais, que finalmente seriam diretas. O ano era 1989. 
Um sindicalista sem estudo, barbudo, dado a falar demais, que chegado de Pernambuco ainda criança, num pau-de-arara, vinha dando trabalho aos banqueiros e empresários. Seria visto ele como um Robin Wood do final do século vinte? Sim, foi visto assim, um perigoso para a nova democracia, tanto por um lado como pelo outro. Dos dois lados da mesa viam-se os preocupados.

Dai foi necessária a criação de uma nova figura, de um revolucionário do bem. Um jovem de quarenta anos, de corpo atlético, vendendo saúde, bem estudado, nascido no Rio de Janeiro e radicado em Alagoas e de trato fino.  

Olhar altivo, sempre para o horizonte, rico empresário das comunicações, dono de jornais, emissoras de rádio e tv. Este cativara a inocência humilde do povo do estado, não menos miseravelmente corrupto que os demais do país, tornando-se, portanto, o seu governador.
E assim foi, elegemos por voto direto, depois de longos anos de abstinência compulsória, Fernando Collor de Melo, para cumprir um mandato que seria de março de 1990 a  dezembro de 1993, numa disputa eleitoral não vista a muito tempo. Seu opositor, a figura, pra muitos, donquixoteana, de Luiz Ignacio da Silva, ou simplesmente Lula, que já se profissionalizara como um político de carteirinha.

A pressão conservadora foi tanta que teve até sequestro de magnata do ramo de supermercados, onde o sequestrador, depois de preso, no dia do pleito, foi apresentado à imprensa vestindo uma camiseta com apoio à candidatura Lula. Tudo valia para garantir que Collor fosse o eleito. Somos demais conservadores nessas ocasiões, nos rendemos às coisas da política só ouvindo o coração.
De cara ele bloqueou as contas bancárias do povo com promessas de devoluções, corrigidas e em parcelas a perder de vista. Tinha um único tiro para acertar o tigre da inflação e o povo brasileiro precisaria ajuda-lo nessa caçada. Promoveu a abertura na economia e carros importados e mais um monte de quinquilharias chinesas chegaram por aqui. Ir ao Paraguai, em Cidad Del Este ou a zona franca de Manaus deixaram de ser tão atrativas a partir de então.
Mas tamanha a desordem no esconde-esconde de corrupções e luxurias que o barco afundou. Trazendo à tona, contradições e divergências com seu irmão, que tinha mais cara de maluco que ele, talvez até pela cunhada que virou namoradinha do Brasil. O jardim da Dinda se escancarou e Collor errou, não soube fazer o jogo do sistema como souberam os antigos portadores da faixa e até aqueles que o colocaram na posição suprema do executivo o derrubaram. Foi caçado pelo tigre que não havia sido morto por ele e pela Zelia que depois foi esposa de Chico. Mesmo tendo pedindo renúncia na última hora, isso em 29 de dezembro de 1992. Seu homem de confiança, o caixeiro viajante, PC Farias foi encontrado morto na cama com a amante, anos depois, numa cena dantesca típica de filmes de gangsters mafiosos.
Itamar Franco, o vice, apressou-se na apresentação de sua declaração de rendas e posses Um surto de honestidade invadiu o mundo político provocando comoção e com apoio total da imprensa e de toda nação. Durou pouco o ufanismo, mas marcou passagem na história.
Tomou posse no mesmo dia e ficou como presidente até 01 de janeiro de 1995. O seu topete também marcou história.
O cruzado virou real num plano inteligente, o qual os economistas  da oposição criticaram e o repudiaram. Plano alinhado ao movimento da economia mundial que se globalizava a toque de caixa. O fusca do Itamar foi ressussitado  sob aplausos.
Seu governo serviu de plataforma para a candidatura à presidência da república pelo sociólogo, Fernando Henrique Cardoso, ativista, político profissional, intelectual da corrente liberalista,  disputando com Lula a campanha de 1995. 
FHC eleito, tomou posse num primeiro mandato que durou quatro anos e mais quatro numa reeleição onde a revisão constitucional permitiu reeleições,  por mais um período, a contra gosto da oposição que sabia que ele seria imbatível num novo pleito.
A economia global exigia menos interferência do estado, portanto, privatizações inimagináveis aconteceram aos cântaros. Sabe-se que muita gente ganhou fortunas com elas, aliás, como ganham até hoje.
O segundo mandato em pleito absolutamente legítimo, iniciou-se em janeiro de 1999. A popularidade dele no segundo tempo foi caindo. Escândalos, ou foram acobertados ou não existiram. (duvidosa essa segunda hipótese), pelo menos em relação direta ao presidente não se falou muito. Não a mesma coisa com o pessoal do seu partido. Uma lambança esses caras fizeram.
O PSDB se tornou gigante e aliou-se a outros distantes nos princípios ideológicos, tudo pela governabilidade. E esses, misturando-se num único todo, no maior balaio de gato da história favorecendo a corrupção que somada a farta distribuição de ministérios, secretarias, presidências de estatais e centenas de outros órgãos, confirmando ser a moeda de troca no troca-troca imbelizado, não importando se o político é de direita, de centro ou de esquerda. Parecido com um ônibus lotado de japoneses descendo ladeira abaixo totalmente sem freios. O vírus abraçou o modelo administrativo protegendo-se cada vez mais com a burocracia crescente e ineficiente envolvendo homens e mulheres inescrupulosos. O ambiente ficou aparentemente estável, mas o cheiro de podre foi sentido do Oiapoque ao Chuí. A carniça nunca teve um corpo, o mal-cheiro vinha de fantasmas. Lembrando um crime onde o corpo da vítima nunca é encontrado.
O povo, estupidamente sábio, decidiu botar um fim nisso. E aquele jovem barbudo e fedorento do final dos setenta, agora mais equilibrado, mais light e bem intencionado, teve sua chance. Chorou e fez o povo chorar ao receber o diplomado de Presidente do Brasil. 
“Para quem sempre me acusou de não ter diplomada, olha aqui o que consegui” Foi emocionante, o tonto aqui chorou copiosamente.
Em janeiro de 2003, marcou-se por um fato histórico da maior importância,  um homem do povo, um pai d'égua foi eleito presidente do Brasil. Deu para arrepiar e sentir uma ponta de orgulho em ser brasileiro. (se fixarmos somente essa parte do contexto) 

FHC, democraticamente, passou a faixa presidencial a Lula. O homem que um dia desceu do pau-de-arara, o homem que perdeu um dos dedos numa prensa quando ainda era um trabalhador, agora subia a rampa do planalto no maior estilo, cheio de orgulho, deixando seus conterrâneos mais orgulhosos ainda, e, melhor, de forma legítima, reconhecida no mundo todo. Subiu ao lado da primeira dama, não menos modesta a tira colo. Ela sorridente e feliz da vida. (Não permitem que ela fale em público, é isso mesmo?) 

Bom seria se fosse assim na prática, alternando poder entre gente comum, intelectuais, empresários, banqueiros ou latifundiários. Menos com militares pisocopatas que gostam de cercar prédios com tanques de guerra e matando pessoas a torto e a direito. 

Mais uma vez a máquina se sobrepôs. O sistema é forte demais e imperativo ao extremo. Envolve a alma do homem sem que ele perceba. 

Ele chegou lá pelo Lula-Lá, corroído e deslumbrado pelo poder. Já não era a mesma pessoa, já não era o Lula bom de briga, faltou cachaça nessa fase. Foi pasteurizado e perdeu o brilho. Cercou-se de pessoas nem todas escrupulosas e o resultado foi tão igual ao do intelectual que o antecedeu. Nada contra, mas se era pra mudar tinha que mudar de verdade, mudar radical, total, não mudança pra inglês ver. Isso fizeram antes e não deu certo. Mas, não mudou. Boa parte da primeira equipe de governo foi substituída logo de cara, descobertos por envolvimentos em falcatruas. Lula nomeou arque-rivais aos postos de primeiro, segundo e terceiros escalões, rendendo-se às artimanhas do sistema, subiu em palanques com históricos inimigos políticos confundindo-se no corpo e no cheiro com eles e pôs-se a viajar pelo mundo feito um novo rico cheio de soberba. Aplaudiu caudilhos latino americanos e se meteu em questões complexas mundiais cuja participação o Brasil nunca antes se envolvera. Claro que um presidente precisa se relacionar com os outros do mundo, claro que é fundamental vender a imagem de país de baixo risco, é óbvio isso. Mas por diversas vezes o marketing partidário falou mais auto. Esse é o verme a que me refiro, o maledeto que enxergo o mesmo sobrevivente do passado. 

Reeleito em 2006 ficou na  presidencia até 2010, cada vez mais distante do que foi um dia, mesmo assim contando com os altíssimos índices de aprovação popular. E elegeu, pode-se dizer, seu substituto. Na verdade, sua substituta. O cara é bom de papo, vende geladeira a esquimó se precisar.

Lula promoveu e o futuro vai contar isso, outro fato histórico da maior relevância. Fez com que o Brasil elegesse a primeira mulher para o cargo de presidente da república, Dilma Rousseff que tinha se destacatado em seu governo como uma ministra austera.

Altamente capacitada, de idoneidade incontestável, ao menos até agora, mas nitidamente presa a ele e aos que os cercam. A podridão de outrora se mantém como um chato no saco da gente. É de se lamentar ou de chorar, não de emoção, mas de tristeza, das profundas. 

Amigos, sem lamúrias, eu, na condição de quase sexagenário, vivi de corpo e alma, a aflição do mesmismo, pelos anos da minha vida e por não ter sangue de barata, assisti vinte e duas gestões diferentes se repetirem nos discursos e nas ações. Vi nascer e morrer um estado militar golpista que grudou na gente por quase duas décadas e meia. Vi generais fardados e a paisana; vi intelectuais, megalômanos construtores de cidades, empresários, operário e guerrilheira fazendo dobradinhas com a faixa; vi um suicida, um marciano, um falecido precocemente; vi latifundiários, alcoólatras e psicopatas ocupando o mando do país. Posando para as fotos presidenciais com cara de paisagem. 

Pago impostos mesmo antes de nascer, por mais que tentei engana-los, eles sempre me pegaram na curva. Pegam a todos nós na verdade. E tem que pegar mesmo, mas o que nos cobram deveriam devolver dobrado em serviços públicos. Serviços de um país mais que estável, em que está em puro desenvolvimento.

O país cresceu? Sim, claro que cresceu. Economicamente, nada mais. Socialmente, zero, nada, nadica da silva. Porra nenhuma, por mais que argumentem os idolopatas desse ou daquele partido.

É intolerante, insuportável ver miseráveis morrendo em portas de hospitais, ver seus filhos submetidos a um ensino público decaído, pois decadente foi um dia. Ver o crime organizado organizado-se cada vez mais, prosperando pela inépcia de políticos preocupados mais com outras prioridades. Não acabam com a corrupção pois dela vem a manutenção do sistema que os mantém.
Sabem de uma coisa, vão todos chupar cana na casa do chapéu. Eu vou mesmo é pra Passárgada, pois lá, todo mundo é amigo do Rei e ele é amigo de todos.

07/12/2012

Coisas do coração

… e quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração. E quem irá dizer que não existe…
Renato Russo

Quando completou 12 anos de casamento Estela concluiu ser uma mulher infeliz. Por mais que se esforçasse, em lapsos de descontração, a melancolia pesava-lhe a alma, alternando pensamentos mórbidos com desconexos que lhe traziam tonturas, amarguras, as quais deveria, esconder eternamente. A culpa tornou-se companheira nos dias e nas noites.

Não devia pensar assim, não era certo pensar assim, pois tinha uma vida segura e estável. Diferente de sua irmã que se casou com um boêmio e tem uma vida desregrada.

Dois filhos saudáveis, Renatinho e Ana Luiza tomavam-lhe a atenção. Um marido exemplar, o qual amava profundamente, daqueles que as mulheres sonham em ter sob guarda. Rui, um homem de 36 anos, honesto, trabalhador e totalmente dedicado aos filhos e a ela.

Moravam em casa própria, um sobrado de três cômodos, sala, cozinha e dois banheiros. Uma lavanderia equipada logo aos fundos onde próximo, Rui mandou construir uma churrasqueira de tijolinhos expostos e coberta. 

A casa foi financiada em vinte e cinco anos pelo banco onde ele faz carreira desde garoto, o primeiro e único emprego de Rui. Conseguiu um empréstimo ainda noivo de Estela. Noivado que durou quase três anos e que depois foi consagrado pelo casamento, desejado e condicionado pelas famílias e que contou com uma festa inesquecível. Para ela, Rui foi e provavelmente será o único homem de sua vida.

Porém, nos últimos tempos passou a questionar a vida que levava, a rotina avassaladora de dona de casa, sem emoção e sem desafios. Perguntava-se se era mesmo o que queria pra si. Não lhe saia da cabeça a possibilidade de mudar tudo, de alterar o rumo. Não se sentia satisfeita, embora, ao mundo, tinha que manter as aparências.

Rui nunca permitiu que a esposa trabalhasse fora. Segundo ele, as tarefas caseiras lhe ocupariam integralmente, a presença efetiva da mãe no acompanhamento do crescimento dos filhos eram fundamentais, além do que, preferia encontra-la bonita e perfumada quando chegasse em casa após o dia longo de trabalho. Ela não deveria se preocupar com nada, ele cuidaria do provento. 

Quando muito ele concordava com que ela participasse das atividades na igreja, nos preparativos de festas ou nos estudos evangélicos.

Ela olhava para a casa, via os filhos felizes correndo pelo quintal, a sala bem mobiliada com uma TV de 52 polegadas 3D em destaque na estante. Um jogo de sofá em couro legítimo com uma mesinha de centro em mármore abarrotada de enfeites. Os quartos, a cozinha, todos os ambientes em perfeita organização. Estela cumpria, resignada até então, o papel de nascida para o lar.

Como nada é completamente perfeito, ela engordara sete quilos nos últimos dois anos e outros treze, desde quando casou-se. Os quarenta e seis quilos do corpo tenro de um metro e sessenta e cinco, ficaram para trás. Apesar das constantes dietas a nova dimensão tornava-a mais esférica. Um olhar poético veria Estela como uma dama da corte medieval.

Adquiriu síndrome do pânico sem dar conta disso, não sabia a razão, mas, mal conseguia sair de casa de tanto medo que sentia. Via os amigos e os familiares somente quando estes visitavam a família aos finais de semana. 
O espelho no banheiro tornou-se o seu maior martírio, um inimigo atroz, voraz e detestavelmente revelador, que nas manhãs escancaravam as primeiras rugas da face. Além de delatar um ou outro fio de cabelo branco que teimavam em aparecer do nada, entre tantos outros fios castanhos escuros, lisos que lhe caiam pelos ombros. Os olhos pequenos de um azul claro combinavam com a pele morena de menina. Estela ainda era muito bonita e na semana passada completara 29 anos.
Os dias se seguiam sem mudanças, pelo contrário, cada dia mais se parecia com o anterior. Sentia-se como num filme despertando sempre para o mesmo dia. 
Dez para às sete a buzina da Van de transporte escolar chamava as crianças no portão. Sete e quinze o marido saía para o trabalho dando-lhe um beijo na testa, acariciando os seus cabelos, dizendo que a amava muito e pedindo para que ela cuidasse do castelo de amor onde viviam. 
Às oito e meia, depois dos telejornais matinais, iniciava as prendas diárias, tudo exatamente igual, dia após dia. Mais igual não poderia ser.
Numa determinada manhã algo diferente aconteceu quebrando então a rotina. Um caminhão baú de mudanças estacionou em frente a casa vizinha, o sobrado geminado do lado esquerdo. Dele desceram carregadores uniformizados e barulhentos, falando alto em um sotaque de dificultava a compreensão. Estela procurou saber o que estava acontecendo lá fora e de avental sobre o vestido estampado e uma vassoura na mão iniciou a varredura  da calçada observando discretamente o movimento.
Ela viu que além do caminhão de mudança, um automóvel de último tipo estacionou logo atrás e dele desembarcou um homem moreno, magro, muito elegante, usando uma barba densa e bem aparada. Este a viu de relance e gentilmente a cumprimentou com um sorriso, inclinando a cabeça para ela num gesto mais elegante ainda e do bolso sacou um molho de chaves e entre elas escolheu a que abriria o portão. Depois disso o elegante senhor, virou-se e sorriu novamente. Estela, constrangida, não correspondeu a nenhum dos acenos. 
Ela ficou ali por pouco tempo simulando algum trabalho. Outras vizinhas fizeram o mesmo, cumprimentaram-se umas as outras com discrição,  buscando na reviravolta matinal alguma outra informação. A curiosidade desperta sentimentos não bem definidos na gente.
De fato a rotina fora quebrada naquela manhã e Estela nem poderia imaginar o quanto para ela o mundo se transformaria.
A carga foi entregue em pouco mais de três horas e com muito falatório dos carregadores. Nesse tempo, entre idas e vindas para dentro de casa, Estela veio à frente pelo menos umas cinco vezes e a cada vez mostrava uma desculpa diferente a quem a percebesse. Saco de lixo na lixeira da calçada, certificar-se que a trava do portão estava bem travada, limpar as janelas empoeiradas, outra varrida no corredor lateral e a última sem nada a declarar, simplesmente e furtivamente, escondendo-se atrás dos arbustos.
Entre as grandes roseiras de rosas vermelhas e brancas plantadas por Rui para enfeitar o jardim ela se camuflou. Sentia escondendo-se de si mesma, mais do que dos outros da rua e dali, ora ou outra, notava o homem elegante orientando os trabalhadores e de quando em quando buscando alguma coisa no carro e no retorno, invariavelmente dirigia o olhar, nitidamente curioso em direção a sua casa, fazendo com que ela se escondesse mais ainda. Fixou na memória o sorriso juvenil do novo vizinho. Seria um novo vizinho mesmo? Seu coração bateu mais forte a partir deste dia.
As mulheres são muito atentas aos detalhes. Aos olhos de Estela o homem vestia-se encantadoramente como um príncipe em dia de folga - calça jeans tradicional, um pouco justa ao corpo. Camisa de mangas compridas, dobradas pelos braços, levemente xadrez e em tom azul. Somente um botão próximo a gola estava aberto e sobre ela um colete de tecido fino, cintilante e preto. Calçava um par de tênis branco com detalhes em azul nas laterais. Aparentava não mais que quarenta anos e devia ter um metro e oitenta e cinco de altura. O vento em sua direção contribuiu para a leitura, trazendo fragrância de um perfume leve de madeira.
Os cabelos negros longos, pouco ondulados brilhavam e de certo recebiam cuidados constantes. Os braços com músculos acentuados cercavam-lhe o peito largo e balançavam numa harmonia sem igual. Pernas longas de coxas torneadas davam aos seus passos um charme de modelo italiano. 
Isso tudo deixou Estela instigada. Quem seria o homem de sorriso sutil que mostrava uma dentição naturalmente alinhada e absolutamente alva. Para ela o conjunto era perfeito. A voz dele, num grave imperativo, mas ao mesmo tempo gentil, caiam como música aos ouvidos. Tudo tão acalentador como as rosas vermelhas que lhe acariciavam a pele naquele instante.
Num suspiro resignado ela voltou-se aos afazeres, assim recolhendo do chão algumas folhas secas que caíram das roseiras, se dando conta que um espinho dos graúdos encravou-se à palma da mão.
Três dias se passaram e Estela não conseguia esquecer a eletrizante manhã. O sorriso que o homem elegante dirigiu a ela por duas vezes, não lhe saia da cabeça. Nessas manhãs, nem bem o marido saía para o trabalho, estava ela cuidando da frente da casa, atenta e dissimulada, com o olhar periférico voltado ao muro vizinho. Ninguém aparecia.
Os dias se tornaram estranhamente intensos e cheios de expectativas. Estela aprumou-se, passou a vestir-se mais adequadamente. Prendeu os cabelos num laço delicado expondo o rosto de traços suaves. As pequenas rugas desapareceram atrás da maquiagem eficiente.
O pânico foi superado pela ansiedade curiosa que libertou Estela para as  constantes idas à farmácia, ao supermercado e até para prosas breves e descabidas com a vizinhança. Tudo agora era motivo para sair e quem sabe encontrar o homem que parecia um anjo vindo do céu. 
Sonhos de verdade ela os tinha e que a faziam dizer coisas sem nexo  acordando Rui pelas madrugadas.
Um mês depois ainda se mantinha atenta. Os sonhos das madrugadas continuaram e cada vez mais intensos. Com eles, Estela se libertava da moralidade pela qual havia sido criada. Através deles reconheceu que escondera de si mesma por toda a vida, uma mulher capaz de ultrapassar qualquer barreira para ser livre. Rui, embora de sono pesado, ouvia os gemidos, os sussurros e palavras descompassadas e via no rosto de Estela  dormindo, sorrisos que jamais vira nela. Nesse tempo, nunca o jardim fora tão bem cuidado e nem as janelas ficaram tão limpas. Comentava Rui aos amigos e familiares nos churrascos de domingo.
Foi numa segunda feira, por volta das nove horas que a campainha tocou. Estela nesse dia sentia-se desconfortável. Não tivera nenhum sonho à noite e isso não lhe parecia um bom sinal. O sonho acabou mesmo? Pensou.
Seguiu até a porta da cozinha com um prato sujo na mão direita e uma bucha ensopada de detergente na outra. Esticou o pescoço para ver quem chamava e pelo corredor lateral olhou em direção ao portão.
O susto fez com que escapasse o que ela tinha nas mãos. Fixou o olhar descontrolado ao homem do portão. Muda e de olhos arregalados por uma eternidade. Assim pareceu a ele.
__ Bom dia. Meu nome é Antonio Marcos, sou o novo vizinho. Gostaria de falar com a senhora. Poderia me atender, por favor?
Estela não só o reconheceu como constatou ser de carne e osso a figura que habitava os seus sonhos. Ele em pessoa pedia um favor a ela.
Segundos depois, passado o primeiro susto, ateve-se ao que não gostara: a parte em que ele disse - falar com a senhora. O pensamento é a coisa mais rápida e desobediente que existe. Ele chega numa velocidade impressionante, ainda mais quando não o queremos.
Desfez o nó do avental e o jogou ao chão juntado-o aos cacos do prato que se espatifara e a bucha sem que percebesse. Ajeitou os cabelos e o laço que os prendiam olhando-se no reflexo da cristaleira. Respirou fundo, pôs a mão ao peito e sentiu o coração disparado. As pernas tremiam e um suor frio percorreu todo o corpo.
Contou até três e disse a si mesma - Coragem Estela, coragem. 
Endireitou-se, ergueu o queixo e foi ao encontro.
__ Pois não, quem é?
__ Ah! Senhora, bom dia! A voz imperativa e suave do homem ela admirou novamente. Mas.
Pronto, lá vem ele com o senhora de novo. Pensou dirigindo-se ao portão, ajeitando o vestido ao corpo.
No caminho, o homem ficou observando atento os passos daquela linda mulher com jeitinho de menina moça. Não se conteve e abriu um sorriso deixando Estela ainda mais atordoada.
__ Bom dia, pois não! Com o coração pulsando forte e escondendo o calafrio que remoía suas entranhas.
__ Bom dia, sou Antonio Marcos, vizinho ai do lado. Estendendo a mão.
Outro dia trouxe minhas coisas para cá e ao sair acabei batendo a porta deixando a chave lá dentro. Sorriu passando-se por tímido.
Ela sentiu a mão macia e forte do homem que em seus sonhos fazia o personagem principal e ele teve a oportunidade de sentir a delicadeza da mão pequena de Estela, acariciando-a discretamente com o polegar.
O perfume ela reconheceu de pronto.
__ Ah sim, acho que ouvi alguma coisa dias atrás. Um caminhão, não é?  Nem reparei direito. Mas o que o senhor deseja?
__ Então. Será que eu poderia pular o muro dos fundos? Na cozinha que fica na parte de trás tem um vitrô e ele está sem a trava, assim eu conseguiria entrar.
__ Bem, acho que sim, mas o muro é meio alto para pular.
Estela não acreditava no que estava acontecendo. O homem dos seus sonhos, o moreno alto, todo elegante, ali, falando com ela, pedindo permissão para invadir sua casa. Logo agora que o marido e os filhos não estavam. O que vão pensar? Olhou para os lados e não viu ninguém, nenhuma vizinha na rua naquele momento.
__ Bem, por favor, espere um pouco que eu vou buscar a chave. E voltou-se ao corredor.
O homem sentiu-se presenteado ao ver a mulher caminhando à sua frente e em seguida voltando para ele com uma chave na mão.
Ela o acompanhou até os fundos e apontou o local. Num salto majestoso ele alcançou o muro e sentado sobre ele o homem disse:
__ Não sei como agradecer sua confiança e préstimos, se me permitir não gostaria mais de chama-la de senhora. A achei muito jovem para tanto. Posso saber seu nome?
Falando daquele jeito altivo, sentado sobre o muro deixou Estela abobalhada.  O calafrio passara e foi substituído pela fervura. O coração voltou ao ritmo normal e os olhos por uma fração de segundo se fecharam. Buscou guardar da memória a cena. Para ela, o príncipe encantado, montando um lindo cavalo branco, veio salvá-la e viveriam felizes por toda a eternidade.
__ Estela. Respondeu timidamente, pendendo a cabeça levemente para a esquerda.
__ Prazer Estela, lindo nome. Significa, Estrela. Posso te chamar assim? Você é reluzente como elas.
__ Prazer, Seu Antonio Marcos. Pode sim, esse é meu nome. 
__ Marcos, pra você, Estrela.
Ela ouviu o salto do homem pelo outro lado do muro e logo em seguida, ouviu o vitrô se abrindo. O seu príncipe desaparecera na floresta. Só que agora ela saberia onde encontra-lo.
Nos meses seguintes Rui estranhou a mudança de comportamento da esposa. Ela ficou alegre, solícita e brincava mais com os filhos. Recebia feliz os amigos e os parentes nos churrascos dos domingos. Nem de longe parecia a Estela de antes, comentavam todos. 
Ela perdeu o medo e a apatia. Saia frequentemente e sempre se apresentava disponível a quem pudesse ajudar.
Na intimidade, Rui notou a esposa mais amorosa, envolvente, caliente como nunca visto antes. Só não compreendia o hábito recente em manter-se de os olhos cerrados enquanto estavam nus na cama, nem tão pouco, o por quê de não mais ouvir dela a pronuncia exata do seu nome durante o coito.
Perdeu os quilos adquiridos ao longo dos anos. Passou a frequentar academia. Trocou o guarda roupa, vestindo-se agora de forma discretamente sensual. 
Os cabelos de Estela ficaram soltos, leves e brilhantes. Ele adorava vê-los ao vento. A esposa aparentou ser dez anos mais jovem.
Rui sentia orgulho da família, dos filhos e da mulher amada. Se dedicou intensamente ao trabalho, pouco ficava em casa, pois começou a viajar regularmente, coisa que não fazia antes por receio de deixar a esposa doente da cabeça muito tempo sozinha sem sua proteção. Pôde agora ir as auditorias pelas agências bancárias espalhadas por todo o país, aumentando significativamente o seu soldo e ganhando cada vez mais espaço na diretoria. Seu objetivo desde quando entrou no Banco do Comércio Rural.
E a cada retorno, obrigatoriamente precedido, por exigência dela, de um telefonema no dia anterior, a esposa e os filhos o recebiam de braços abertos no portão e um jantar digno de um rei, ela preparava ao marido. Cumpria agora feliz o papel de dona de casa que nunca quis.
E por anos os churrascos continuaram aos domingos. Agora com a presença de um participante novo, no exclusivo rol de amigos do dono da casa, o vizinho, Antonio Marcos. Marcão para os mais chegados e Ma a quem gozasse de e na sua intimidade.
Hoje, Estela é gerente de produção na empresa de Antonio Marcos - AM Importações. Rui mudou muito também, compreendeu finalmente que não teria o amor da amada para sempre caso não concordasse com as atuais exigências. Modernas demais para seu gosto, mas irremediavelmente aceitáveis.
Renatinho e Ana Luiza cresceram e já estão na faculdade. Ele faz o curso de mecatrônica na Federal e ela, depois dos problemas com as drogas, optou pela psicóloga, assim tentando compreender melhor a mente humana.
Rui e Marcão se tornaram bons vizinhos e se divertem contando piadas nos churrascos de domingo e Estela, não aparentando a idade, agora vive feliz próxima aos dois.

03/12/2012

My Love for You

Depois de uma noite de sono profundo despertei com os latidos de um cachorro que me pareciam ser de porte pequeno. Não sei se eles vinham da rua ou do quintal, mas eram bastante nervosos, tal como eu fiquei. Me revirei na cama pois ainda estava com sono, só queria dormir. Me envolvi nas cobertas aconchegando a preguiça descomunal que me impedia de reagir. Não queria abrir os olhos, não queria fazer nada a não ser voltar ao sono.  
Ouvi outros ruídos e pareciam vir da cozinha. Senti o cheiro de café sendo coado e uma colher que batia no que seria um bule lotado. Adoçavam o café, pensei. O locutor falava alguma coisa pelo rádio, anunciava um tal de Creme de Arroz Colombo, a beleza para mulher. A voz dele com a música do creme me deixavam ainda mais irritado. Não sei o por quê, mas acho que deveria ser quase sete da manhã.

Quis lembrar qual dia da semana era aquele que amanhecia meio frio, torcendo para que fosse um sábado ou um domingo. Nada me vinha à cabeça a não ser que um dos pés estava sem a meia de lã.
Com esforço decidi sair da cama, antes que me chamassem, sentei-me à beira dela ainda com os olhos semi serrados. Procurei os chinelos por debaixo da cama com os pés, observando o quarto quase escuro mal podendo enxergar o que me cercava.  

Estranhei o pijama de flanela acinzentado com desenhos pequenos e esverdeados. Não me lembrava de vesti-lo na noite anterior e o reconheci como um que minha mãe havia feito quando eu era criança. Aromas, sons e toques nos remetem a fragmentos de viagem pelo tempo.
Com esforço me levantei já calçado com os chinelos de borracha. Abri a porta do quarto e me dei ao corredor que seguia até ao banheiro à minha direita.
O elástico do pijama facilitou o movimento diante do vaso sanitário. Instintivamente levantei o assento. Queria começar bem o dia, sem reclamações. Dois bocejos, algumas chacoalhadas e soltei o elástico. Me senti mais aliviado agora. 

Bem atrás de mim estava a pia branca com alguns rachados enegrecidos pelo tempo e a torneira cor de bronze com uma poça de água na sua base escorria. Lavei bem o rosto pra despertar. No armário de madeira pintado de branco estavam as quatro escovas de dentes. A verde com os fios mais definhados era a minha. A pasta Kolinos estava com a tampa aberta, pensei logo que haviam esquecido de fecha-la. Ainda lembrei que havia pedido que comprassem uma com listras vermelhas. Acho que era Signal. 

Decidi ir direto para a cozinha antes mesmo de tirar o pijama. O frio me incomodava e vi que o cachorro parou de latir. De certo o lazarento só queria mesmo é me acordar. Passei pela sala me guiando pelo hábito, desviei do sofá e da tv e segui o cheiro do café que enfestava a casa desde cedo. 

Alcancei a porta que dava acesso à cozinha, tropeçando aqui e ali e para a mulher de cabelos levemente aloirados, com cara de poucos amigos como de costume pelas manhãs e encostada à pia lavando alguma louça, cumprimentei com um som qualquer que seria traduzido como um bom dia e dela ouvi um direto - você está atrasado, tome logo o café com pão com manteiga e vá vestir o uniforme, rápido, vamos, pois já são dez para as sete. 

Sentei-me e não disse nada, me servi do café e cortei uma fatia do filão e nela passei a manteiga. Fiquei hipnotizado pelos desenhos da lata - era uma espécie de sol que radiava fachos pela embalagem e mais abaixo se lia - Rádium. 

Um, dois. Um, dois. Com regulador Xavier, vive melhor a mulher. Um dois... regulador Xavier... a voz grave do locutor arrastando os erres, enaltecendo o produto anunciado me chamava atenção. Pensei como era antiga essa propaganda. 

Olhei pelas paredes admirando a barra lisa que cobria a metade da altura das quatro delas. Me fascinavam. O resto da alvenaria era branca. O galo, um artesanato tosco de madeira estava fixado na mesma parede do vitrô, cujas cortinas de matéria plástica toda azulada, estampavam uns cisnes brancos entre arbustos da mesma cor. O galo e eles pareciam olhar sisudos para mim. Na geladeira de um branco amarelado, via-se a marca em destaque - Climax. 
O Rádio, um Voz de Ouro ABC tocava agora a música que ela mais gostava - My Love for You. 

À minha frente uma folhinha dependurada fora de alinhamento e com  as bordas amassadas. O cabeçalho  de papel mais grosso fazia propaganda da farmácia Marly. Olhei curioso para ela mastigando o último pedaço de pão.
Os números pretos dentro dos quadriculados que iam ordenadamente de um a trinta e um. Alguém circundou o primeiro dia do mês e o da semana, uma segunda feira. Mais ao centro, justapostos, assinalava o mês de agosto. E ao alto, logo abaixo da propaganda, em vermelho destacado, estava o ano: 1962. 

__ Mãe, por que está marcado na folhinha, 1962? 

Ela virou-se e respondeu: 

__ Toma logo esse café se não você vai chegar na escola somente em 1963. 

01/12/2012

A Corte

Não resisti. Decidi aqui registrar a matéria da Folha de SP deste sábado, 01/12 sobre uma suposta relação íntima entre o ex-presidente Lula e a agora popular, Rosemary Noronha, ex-chefe de escritório da Presidência da República em São Paulo. Notem "da Presidência e não da Presidente" - saiu Lula e entrou Dilma e a ex-fã do ex-sindicalista se manteve no cargo até esta semana, provavelmente empurrada, como tantos outros pela goela abaixo da Dilma,  e esta especificamente, a contra gosto da ex-primeira dama, Marisa Letícia, a galega.  
Neste mundo mundano é citado o nome de um corno, um funcionário da Casa Civil, um dos dois maridos que Rosemary teve desde quando conheceu Lula, no período em que o ministro da Casa era José Dirceu, intimamente teclado nos emails de Rose como JD do qual foi também secretária nos tempos do partidão. Singelo demais isso tudo. O nome do manso é José Claudio Noronha o do outro não houve citação na matéria. 
Egressa do sindicato dos bancários é provável que Rosemary tenha sido um dia uma deliciosa caixa de banco. Fez carreira, conheceu Lula em 1993 com a carteirinha de fã nas mãos ou entre as cochas. 
Os idolo-maníacos ficam desorientados quando as safadezas da corte são reveladas. Avassalados, negam, contestam, se esperneiam, como que carregando culpas sem mesmo as tê-las. Parecem esconder o desejo de dizer  um sonoro "perdão, eu acreditei". Não se sintam mal, eu também acreditei um dia. Acreditar é humano. 
O importante é perceber que corte é corte, rei é rei, puta é puta e escravo é escravo. Nos dividiram em castas. Num país bizarro a ordem é essa, não importa quem se senta ao trono, o filho da puta estará sempre cagando em cima de você. É preciso não mais acreditar nesse modelo de estado para assim começarmos alguma coisa nova, mais justa.
Rosemary Noronha, em viagem de Lula à Costa Rica, em 2009Jorge Araujo - 3.jun.2009/Folhapress
RELAÇÃO COM LULA EXPLICA INFLUÊNCIA DE EX-ASSESSORA 
A influência exercida pela ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo, Rosemary Noronha, no governo federal, revelada em e-mails interceptados pela operação Porto Seguro, decorre da longa relação de intimidade que ela manteve com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.  
Rose e Lula conheceram-se em 1993. Egressa do sindicato dos bancários, ela se aproximou do petista como uma simples fã. O relacionamento dos dois começou ali, a um ano da corrida presidencial de 1994. À época, ela foi incorporada à equipe da campanha ao lado de Clara Ant, hoje auxiliar pessoal do ex-presidente. Ficaria ali até se tornar secretária de José Dirceu, no próprio partido. Marisa Letícia, a mulher do ex-presidente, jamais escondeu que não gostava da assessora do marido.  
Em 2002, Lula se tornou presidente. Em 2003, Rose foi lotada no braço do Palácio do Planalto em São Paulo, como "assessora especial" do escritório regional da Presidência na capital. Em 2006, por decisão do próprio Lula, foi promovida a chefe do gabinete e passou a ocupar a sala que, na semana retrasada, foi alvo de operação de busca e apreensão da Polícia Federal. Nesse papel de direção, Rose contava com três assessores e motorista. Sua tarefa era oficialmente "prestar, no âmbito de sua atuação, apoio administrativo e operacional ao presidente da República, ministros de Estado, secretários Especiais e membros do gabinete pessoal do presidente da República na cidade de São Paulo".  
Durante 19 anos, o relacionamento de Lula e Rose se manteve oculto do público. Em Brasília, a agenda presidencial tornou a relação mais complicada. Quando a então primeira-dama Marisa Letícia não acompanhava o marido nas viagens internacionais, Rose integrava a comitiva oficial. Segundo levantamento da Folha tendo como base o "Diário Oficial", Marisa não participou de nenhuma das viagens oficiais do ex-presidente das quais Rosemary participou. Integrantes do corpo diplomático ouvidos pela reportagem, na condição de anonimato, afirmam que a presença dela sempre causou mal-estar dentro do Itamaraty. Na opinião deles, a ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo não era necessária.  
Oficiais da Aeronáutica se preocupavam com o fato de que ela por vezes viajava no avião presidencial sem estar na lista oficial. Em muitas vezes, Rose seguia em voos da equipe que desembarca antes do presidente da República para preparar sua chegada. Nessas viagens, seguranças que guardavam a porta da suíte presidencial nas missões fora do Brasil registravam ao superior imediato a presença da assessora. Oficiais do cerimonial elaboravam roteiro e mapa dos aposentos de modo a permitir que o presidente não fosse incomodado. Durante esses quase 20 anos, Rose casou-se duas vezes. Seu primeiro marido, José Cláudio Noronha, trabalhou na Casa Civil do então ministro José Dirceu quando Rosemary assumiu o escritório de São Paulo.  
Na chefia do gabinete, ela construiu a fama de pessoa de temperamento difícil. Lula chegou a receber de amigos reclamações dando conta de que ela tratava mal os funcionários. Um deles descreveu um episódio em que ela teria pedido para serventes limparem "20 vezes" o chão do escritório até que ficasse realmente limpo. Apesar do temperamento, Rose era discreta e não gostava de contato com a imprensa. Em algumas festas e cerimônias, controlava a porta de salas vips, decidindo quem podia ou não entrar. Também costumava se consultar com o médico de Lula e da presidente Dilma Rousseff, Roberto Kalil. 
Rose acompanhou o ex-presidente em algumas internações durante o período em que este se recuperava do tratamento de um câncer no Sírio-Libanês, em São Paulo. Mas só pisava no hospital quando Marisa Letícia não estava por perto.  
Na campanha presidencial de 2006, a chefe de gabinete circulou nos debates televisivos que Lula teve com o tucano Geraldo Alckmin.Ministros e amigos do ex-presidente não negam o relacionamento de ambos. Foi de Lula a decisão de manter Rosemary em São Paulo, conforme relatos de pessoas próximas. Procurado pela Folha, o porta-voz do Instituto Lula, José Chrispiniano, afirmou que o ex-presidente Lula não faria comentários sobre assuntos particulares

Vestida de Santa


Vou torcer muito pelo seu fracasso, porque você não merece ser feliz. Espero que seus planos não deem certo. E não vão dar mesmo, coisa do mal tem final mal. 
Você é desprezível, interesseira e mesquinha. Só pensa em si própria, só enxerga a si mesma. Faz de tudo para se passar de despercebida, de calma, de ordinária. 
Chega devagar, como não querendo nada e se apropria da atenção do incauto. Espírito imundo, demoníaca. Filha do satanás, da besta ou a própria vestida de santa. 
Chegou me enganando, se aproveitando da boa fé. Me jogando pra debaixo da lata do lixo. Me deixando de cabelos ainda mais brancos. 
Vagabunda, é assim que te vejo. Uma vagabunda imunda de grande bunda imunda. 
Em toda minha vida nunca soube de nada mais peçonhenta como você. 
Te odeio mais do que possa imaginar. Suma, desapareça, se afaste de mim. 
Maldita vontade de fumar.


O amigo da camisa amarela

Encontrei um velho amigo no shopping.
__ Alípio, como vai meu caro? Que legal, cara! Quanto tempo, heim!
__ Oi, tudo bem?
O abraço foi rapidamente e estranhamente evitado por ele e ficamos no aperto de mão. Notei que a minha alegria por vê-lo parecia maior que a dele. Acho que não nos falávamos há uns dez anos. Ele estava mais gordo e os cabelos mais ralos e mais enrugado que eu.
O Alí era um cara cheio de alegria, um gozador nato, sempre pronto pra tirar uma da cara de alguém. Trabalhamos muito tempo juntos, praticamente começamos na mesma época na TV e não havia quem escapasse das nossas armações. Bons tempos.
__ E ai, o que me conta? O que anda fazendo, Alí? Pô, cara, que legal te ver!
__ Nada demais. Levando a vida trabalhando muito. Montei aquela loja de materiais de construção, lembra? Deu certo, estou indo bem. A loja cresceu, comprei o prédio onde comecei. Deu até para abrir uma filial. Estou bem.
Ele concentrou o relato no desempenho profissional. Mas ele não me pareceu estar tão bem assim. Meio carrancudo e sem brilho nos olhos.
__ Pô, Alí! E a Lúcia... o Marquinhos... a Débora? Já devem estar bem crescidos, não é?
__ Ah! Estão bem. Cresceram, o Marquinhos já tem 22 anos e foi para a Austrália no ano passado. A Débora, fez ontem, 20 anos e se casou faz seis meses. Está grávida, meu neto nasce no mês que vem.
__ Caramba, Alí. O tempo passa mesmo. Mas e a Lúcia? Puxa, gostava muito dela.
__ Ela está bem. Respondeu seco.
Acho que ela não estava bem, pois quando Alípio se referiu à esposa, escondeu um pouco o rosto.
__ Algum problema com ela, Alí?
__ Não.
__ Não mesmo?
__ Bicho. Era assim que ele me chamava na época e o resgate veio instantâneo. Percebi que seus olhos ameaçavam lacrimejar.
__ O que foi, Alí, o que aconteceu? Me conta, cara. Olha, vamos tomar um café, tá com tempo aí? Vem cá, a gente bate um papo.
Entramos na lanchonete e em menos de dois minutos fomos servidos. Enquanto esperávamos, ele e eu nada dissemos. Ficamos olhando o lugar.
__ Diz aí cara, o que está pegando?
__ Então, bicho... tá foda. Depois de anos de casamento ando meio chateado com ela.
__ Chateato, como assim?
__ Sei lá, acho que a filha da puta anda me chifrando.
__ Ah! Para com isso, Alí? A Lúcia? Como assim? Me lembro bem dela. Puta mina legal, decente, gente boa pra caramba.
O amigo ficou calado por um tempo. Tomava o café em goles curtos,  tentando esconder as mãos que tremiam, os olhos evitavam os meus. Notei ele um pouco mais tenso.
__ Não sei. Na verdade eu sei. Não sei se sei. Sei lá.
__ Pô, Alí. Fala cara, desabafa. Estou ficando preocupado.
__ Ela tem um amante. Disse baixinho.
__ O que? Enfático, perguntei.
__ Ela tem um amante e virei um corno.
__ Tem certeza?
__ Tenho.
__ Putz! Sério? Mas... mas, como assim?  Tem certeza disso?
__ Vinha percebendo o jeito dela diferente de uns tempos pra cá. Começou a se cuidar mais. Tingiu os cabelos, emagreceu. Passou a se vestir de forma mais sensual, mais jovem. As saídas dela pelas tardes me deixavam de orelha em pé. Eu ligava em casa e ela nunca estava. Atendia o celular e cada dia num lugar diferente - médico, dentista, depilação. Eu estranhava aquilo tudo.
__ Pô, não acredito, cara. E?
__ Daí eu resolvi seguir a vagabunda.
__ Caralho, Alí! Não fale assim dela.
__ Então vi ela saindo de casa toda produzida, entrando no carro feliz da vida e vindo até o estacionamento do shopping. Aqui ela entrou no carro de um cara. Vi eles se beijando e depois os dois seguiram até um motel da Marginal.
__ Puta que o pariu, sério mesmo? Tem certeza que era ela?
__ Claro, porra! Não conheço a filha da puta?
__ E daí?
__ Pensei em entrar lá, desbaratar tudo. Encher a vaca de porrada, acabar com a vida dos dois. Mas não conseguia nem me mexer. Não acreditava no que estava acontecendo. Umas três horas depois o portão do motel se abriu e vi o carro do filho da puta saindo. Ela acariciava o rosto do amante e nem me percebeu em meu carro bem em frente a eles. 
Ficamos em silêncio por um tempo. Não sabia o que dizer. Ele se ajeitou na cadeira e disse:
__ Fiz o que tinha que fazer.
Se levantou e foi embora sem pagar a conta.
Só aí percebi algumas manchas de sangue na mão esquerda do amigo, me lembrando o fato dele ser canhoto. Ainda dei conta de uma ou outra gotícula  vermelha na camisa amarela que vestia.

30/11/2012

A fé e o rancor.

Acompanhar os noticiários está cada vez mais difícil. Mesmo considerando a hipótese de uma imprensa comprometida, não dá para negar ou supor que ao menos, uma parcela do que divulgam seja verdade. Lembro sempre dos antigos dizendo - onde há fumaça há fogo.  Divido por dois, desconto dez e tiro mais cinco em tudo que leio. Me esforço, tento perceber o interesse de quem está divulgando a notícia. Juro mesmo.  
Desde que me conheço por gente ouço falar de corrupção. Me parece um câncer e na máquina do estado ele está impregnado desde à época das capitanias hereditárias.  
Uma máquina altamente burocrática, autárquica, gabinetosa, estruturada num universo sem fim de agências reguladoras, sub agências, secretarias de primeiro a oitavo escalões. 
Mesmo descontando-se eventuais interesses dos órgãos de comunicação, sabemos que isso é provável, pois também fazem parte de um sistema vulnerável à malevolência, a quantidade de escândalos que aparecem a cada dia nos levam a crer que alguma coisa não vai bem no reino da Babilônia. Dos mais mesquinhos, dos mais criativos, supra partidários, crescendo potencialmente como tumor malígno atacando do calcanhar até o último fio de cabelo desta sociedade devastando a sua sensatez. 
Fico perplexo. Me surpreendo com pessoas aparentemente inteligentes idolatrando esse ou aquele sujeito ou agremiação ou denegrindo isso ou aquilo por puro valor corporativo. A mim sem lógica alguma.
Me remete ao pensamento da fé. Seria isso? Fé em Deus é a mesma coisa que  a fé de quem faz parte de uma torcida organizada pelo amor ao seu time? Crer por crer? Ou esta segunda fica mais próxima do rancor ou da frustração? 
Rosemary, até você?

29/11/2012

Lamento a partida de Joelmir.

Folha de SP - Jornal da Band
Lamento a passagem do jornalista, Joelmir Betting, 75 anos, ocorrida nesta madrugada, às 0h55. Internado no Hospital Albert Einstein desde o dia 22 de outubro, após ter sofrido um AVC. Duvido que não houvesse um que não estivesse torcendo pela sua recuperação. O sujeito era mais que admirado. Era muito querido.
Tive a oportunidade e posso dizer, a honra, de conhece-lo no trabalho durante seis anos na Band. Nos poucos contatos que tivemos na redação ou pelos corredores da emissora, sua presença, me inspirava. A mesa de trabalho próximo à entrada de quem vinha do estúdio 3, vivia repleta de pedaços de papeis com rascunhos de anotações. Entre cinco da tarde até umas seis e meia, por aí, ele redigia seus comentários para o Jornal da Band com a ajuda de uma senhora, acho que era a secretaria e que me parecia ter a tarefa de juntar os cacos para a compilação. O humor sereno dos textos de Joelmir, dava o tom preciso que somente ele sabia fazer. Sem dúvida era a sua marca. Sujeito educadíssimo, claro e, palmeirense, elegantemente dos roxos, para a minha satisfação.
Nos cumprimentávamos e trocávamos breves palavras pelos corredores da rádio e da tv. Confesso que lá, escondido bem dentro de mim, eu ficava todo orgulhoso.
Transcrevo abaixo uma carta lida pelo seu filho, o jornalista, Mauro Betting, exatamente quando  recebia a notícia da partida do pai. Ele apresentava um programa na Rádio Bandeirantes.
Mauro Betting enquanto lia carta ao pai - ao vivo
"Nunca falei com meu pai a respeito depois que o Palmeiras foi rebaixado. Sei que ele soube. Ou imaginou. Só sei que no primeiro domingo depois da queda para a Segunda pela segunda vez, seu Joelmir teve um derrame antes de ver a primeira partida depois do rebaixamento. Ele passou pela tomografia logo pela manhã. Em minutos o médico (corintianíssimo) disse que outro gigante não conseguiria se reerguer mais.
No dia do retorno à segundona dos infernos meu pai começou a ir para o céu. As chances de recuperação de uma doença autoimune já não eram boas. Ficaram quase impossíveis com o que sangrou o cérebro privilegiado. Irrigado e arejado como poucos dos muitos que o conhecem e o reconhecem. Amado e querido pelos não poucos que tiveram o privilégio de conhecê-lo.

Meu pai.

O melhor pai que um jornalista pode ser. O melhor jornalista que um filho pode ter como pai.

Preciso dizer algo mais para o melhor Babbo do mundo que virou o melhor Nonno do Universo?

Preciso. Mas não sei. Normalmente ele sabia tudo. Quando não sabia, inventava com a mesma categoria com que falava sobre o que sabia. Todo pai é assim para o filho. Mas um filho de jornalista que também é jornalista fica ainda mais órfão. Nunca vi meu pai como um super-herói. Apenas como um humano super. Só que jamais imaginei que ele pudesse ficar doente e fraco de carne. Nunca admiti que nós pudéssemos perder quem só nos fez ganhar.

Por isso sempre acreditei no meu pai e no time dele. O nosso.

Ele me ensinou tantas coisas que eu não sei. Uma que ficou é que nem todas as palavras precisam ser ditas. Devem ser apenas pensadas. Quem fala o que pensa não pensa no que fala. Quem sente o que fala nem precisa dizer.

Mas hoje eu preciso agradecer pelos meus 46 anos. Pelos 49 de amor da minha mãe. Pelos 75 dele.

Mais que tudo, pelo carinho das pessoas que o conhecem – logo gostam dele. Especialmente pelas pessoas que não o conhecem – e algumas choraram como se fosse um velho amigo.

Uma coisa aprendi com você, Babbo. Antes de ser um grande jornalista é preciso ser uma grande pessoa. Com ele aprendi que não tenho de trabalhar para ser um grande profissional. Preciso tentar ser uma grande pessoa. Como você fez as duas coisas.

Desculpem, mas não vou chorar. Choro por tudo. Por isso choro sempre pela família, Palmeiras, amores, dores, cores, canções.

Mas não vou chorar por algo mais que tudo que existe no meu mundo que são meus pais. Meus pais (que também deveriam se chamar minhas mães) sempre foram presentes. Um regalo divino. Meu pai nunca me faltou mesmo ausente de tanto que trabalhou. Ele nunca me falta por que teve a mulher maravilhosa que é dona Lucila. Segundo seu Joelmir, a segunda maior coisa da vida dele. Que a primeira sempre foi o amor que ele sentiu por ela desde 1960. Quando se conheceram na rádio 9 de julho. Onde fizeram família. Meu irmão e eu. Filhos do rádio.

Filhos de um jornalista econômico pioneiro e respeitado, de um âncora de TV reconhecido e inovador, de um mestre de comunicação brilhante e trabalhador.

Meu pai.

Eu sempre soube que jamais seria no ofício algo nem perto do que ele foi. Por que raros foram tão bons na área dele. Raríssimos foram tão bons pais como ele. Rarésimos foram tão bons maridos. Rarissíssimos foram tão boas pessoas. E não existe outra palavra inventada para falar quão raro e caro palmeirense ele foi.

(Mas sempre é bom lembrar que palmeirenses não se comparam. Não são mais. Não são menos. São Palmeiras. Basta).

Como ele um dia disse no anúncio da nova arena, em 2007, como esteve escrito no vestiário do Palmeiras no Palestra, de 2008 até a reforma: “Explicar a emoção de ser palmeirense, a um palmeirense, é totalmente desnecessário. E a quem não é palmeirense… É simplesmente impossível!”.

A ausência dele não tem nome. Mas a presença dele ilumina de um modo que eu jamais vou saber descrever. Como jamais saberei escrever o que ele é. Como todo pai de toda pessoa. Mais ainda quando é um pai que sabia em 40 segundos descrever o que era o Brasil. E quase sempre conseguia. Não vou ficar mais 40 frases tentando descrever o que pude sentir por 46 anos.

Explicar quem é Joelmir Beting é desnecessário. Explicar o que é meu pai não estar mais neste mundo é impossível.

Nonno, obrigado por amar a Nonna. Nonna, obrigado por amar o Nonno.

Os filhos desse amor jamais serão órfãos.

Como oficialmente eu soube agora, 1h15 desta quinta-feira, 29 de novembro. 32 anos e uma semana depois da morte de meu Nonno, pai da minha guerreira Lucila.

Joelmir José Beting foi encontrar o Pai da Bola Waldemar Fiume nesta quinta-feira, 0h55."
 

25/11/2012

A Revelação - Comédia em um único ato.

A cidade era pequena, não me lembro o nome dela e nem mesmo o ano do ocorrido, mas não é de muito. Só sei que aconteceu, pois quem me contou jurou de pés juntos tratar-se de fatos reais, bem verdadeiros, ela é muito amiga de uma das envolvidas na história.
As coisas não iam bem no casamento de Vilma e Antonio. Depois de nove anos de matrimônio, sem brigas, sem nada, tempos depois eles mal se falavam. Se toleravam apenas, trocavam poucas palavras entre si e menos ainda manifestavam qualquer tipo de afeição mútua, ao menos quando estavam sós. Se rendiam somente aos impulsos carnais, aqueles inevitáveis de tempo em tempo. Afinal a carne é fraca, como ponderou a amiga relatora.
Eles não compreendiam o que sentiam, se ambos foram feitos um para o outro, como aprenderam desde os tempos de criança, porque então, chegaram a este ponto? Aturdidos, questionavam-se. Sentiam saudades da época da infância e da adolescência. De quando felizes brincavam de médico e matavam aulas, sem que as mães soubessem, para se distraírem no esconde esconde no fundo de suas casas. Tudo era natural, muito gostoso.
Vilma durante o dia ocupava-se com os afazeres do lar e Antonio, prodigioso comerciante, mantinha a loja de calçados, a única da cidade, sempre pronta para as liquidações e últimos lançamentos.
Ela completou 27 anos em janeiro daquele ano e ele, 28 em fevereiro. Nos dias 31 e 1 de cada um daqueles meses. Não comemoram os aniversários, pois a avó dele, a quem ele dedicava muito apresso e que a tempos vinha cambaleando na doença, faleceu e foi enterrada, exatamente por esses dias.
À distância tratava-se de um casal normal levando a vida honestamente. Realmente pareciam ter nascidos um para o outro. Cresceram juntos, foram vizinhos de rua e de muro desde os primeiros engatinhamentos. Estudaram na mesma escola, tiveram as mesmas professoras. Fizeram a primeira comunhão no mesmo dia, na mesma igreja e com o mesmo padre, que também os  batizara anos antes. A mãe dela era madrinha dele e a dele, madrinha dela. Ambos eram órfãos de pai, portanto, num arranjo do padre, tiveram um mesmo padrinho na cerimônia e ao longo da vida, no afeto - seu Francisco, o viuvo, o dono da farmácia e pessoa muito respeitada na cidade.
Em nove anos de casamento não chegaram os filhos, um sequer e pelo jeito nunca os teriam. O que se comentava é que ela era infértil, oca, incapaz de gerar sua própria prole e ele teria que aceitar a situação como estabelecera a graça divina. Adoção em hipótese alguma. O padre não aconselhava, as mães não admitiam sangue diferente na família e nem mesmo crianças para serem adotadas na região existiam.
A vida seguia dia após dia, sem nada de novo para contar. Até mesmo as megeras, as fofoqueiras, as beatas, solteironas e recalcadas que em todo lugar existe, como também os velhos aposentados com suas barrigas enormes que servem de  apoio às mesas de dominó, lá, pouco tinham a observar.
O prefeito mal parava na cidade, dava mais conta de sua fazenda, a maior da região do que ao seu gabinete, reformado depois da eleição e da mesma forma a câmara de vereadores. As reuniões das quartas à noite mal aconteciam.
Aos domingos pela manhã a missa era regra e os passeios à tarde pela praça da matriz, ao som do estridente alto falante que tocava músicas da jovem guarda, era a principal diversão da população.
À noite as ruas ficavam vazias, todos se recolhiam, não se via viva alma perambulando por elas, nem cachorros e nem gatos, pois a semana chegaria logo mais e todos precisariam estar dispostos para ela com a graça de Deus Divino e de Nossa Senhora do Bom Parto. Pelas janelas viam-se as luzes azuladas das televisões ligadas. A música do Fantástico servia de trilha sonora nos finais dos domingos naquela pequena e pacata cidade que ainda não me recordo o nome.
Não teria outro motivo para eu estar aqui contando essa história não fosse o fato de numa quinta feira à noite, segundo a pessoa que me relatou, por volta das nove e quinze, mais ou menos, quando as pessoas preparavam-se ao recolhimento, três tiros se ouviram. Três estampidos agudos, longos e estridentes que provavelmente vieram de uma espingarda de calibre grosso, quebrando o silêncio e provocando um enorme susto na população.
Em pouco tempo uma das duas casas geminadas que ficavam na Rua Dr José Lourenço, dois quarteirões abaixo da Igreja, estava lotada de gente curiosa, dificultando o trabalho da polícia no local.
Lá moravam Vilma e Antonio e lá foram encontrados os corpos com as cabeças esbugalhadas, envoltas em grandes poças de sangue de dona Margarida, dona Maria de Lourdes e de seu Francisco, o farmacêutico conhecido como homem sério. Na ordem do relato, lá estavam: a mãe de Vilma, a mãe de Antonio e o pai dos dois.
O casal desapareceu sem deixar pistas e nunca mais eles foram vistos pelas cercanias. Soube-se pelo vizinho, um padeiro que morava bem em frente ao local do sinistro, que ele, Antonio, fugiu pela direção norte e ela, Vilma, em passos decididos, pegou o caminho oposto. Disse ainda que os viu numa despedida fraterna, num abraço apertado, com beijos acariciados pelos rostos e desejos de um a outro de boa sorte e de felicidades.
Sobre a mesa da cozinha foi encontrada uma carta escrita com letras nervosas de Antonio e assinada por ambos, revelando a descoberta fulgaz e a indignação que os acometera.
Mais abaixo, com as letrinhas de Vilma, leu-se um singelo: hipócritas.