14/02/2015

O CRIME DO EDIFÍCIO CONDESSA DE PIRAJÁ - Parte final

Do capítulo anterior: 
Dr Décio fechou o jornal de súbito. Deixou o charuto apoiado no cinzeiro, levantou-se e por um bom tempo manteve-se em silêncio, pensativo e certamente, perplexo. Olhava fixamente paras as bromélias, hortênsias e crisântemos do simpático jardim do casarão da Rua Independência. 
__ Apartamento, 812 do Condessa de Pirajá na Benjamim Constant? __ Ontem? Não é possível! 
continua… 
Apesar das pernas longas ele caminhou a passos lentos até a sala de estar onde se encontravam a esposa e as meninas, Martha e Márcia. Elas riam de alguma coisa que a mãe dizia. Maria de Lourdes sempre foi carinhosa com as filhas. 
O riso das meninas de certa forma o irritava, no entanto, manteve-se calado.
Olhou para elas, esboçou um sorriso de pai, sentou-se na poltrona ao lado do sofá onde estavam a esposa e as filhas e dois minutos e meio depois iniciou a conversa dando à prosa o ar descontraído que lhe convinha naquela momento.
 
__ Darling, você me disse que esteve na cidade ontem. O que foi fazer por lá? 
__ Ah Décio, lembra que eu falei? Fui até a Cassio Muniz para ver aquela máquina de costura do reclame. Linda, adorei! Ela faz até cerzidos. Depois fui ver as novidades no centro, vi cada tecido lindo na R. Monteiro. Pensei em você! 
__ Foi pela manhã? Protegeu-se do frio, pelo menos?
__ Ah sim, querido! Saí de casa, acho que eram umas dez e meia e voltei lá pelas duas e quinze, mais ou menos. A cidade estava cheia, parecia natal, mesmo com esse frio. Eu estava com aquele meu casado bege, sabe? Parece que teve algum acidente com bondes, acho que na Avenida da Liberdade, sei lá… Ouviu falar alguma coisa, meu bem? Tive até que tomar o 21 na Praça Clóvis. Nem almocei. 
Procurando ser convincente. 
__ Sim, ouvi dizer! Um choque entre bondes que descarrilaram. Mas não foi nada demais.Amenizou, Décio.
__ A Cassio Muniz é na Benjamim Constant, não é? Perguntou ainda. 
Breve silêncio. 
__ Sabe que eu não sei o nome da rua, Décio. Acho que sim, não sei direito. Você sabe que eu tenho dificuldades com essas coisas de nomes de ruas. 
Falava com o marido penteando os cabelos das gêmeas. 
Dissimulada. Pensou Dr Décio sobre a esposa. 
Depois de um minuto pergunto a ela: 
__ Encontrou o que procurava, Darling? 
__ Ah! Não, não, querido. Não comprei nada. Anda tudo tão caro por esses tempos, não é mesmo, querido? Deixei para depois, talvez aproveite alguma liquidação! 
Dr Décio levou a mão direita ao bigode como num cacoete inconsciente. Alisou os fios de um canto, alinhou os do outro. Lentamente,  pensativo, olhando para a estante de imbuia à sua frente, cercando cada detalhe dos objetos de decoração dispostos nele. 
O porta retrato, ligeiramente fora de centro o incomodava. Exibia em preto e branco e nuances de cinza, a felicidade de uma família estruturada, de bem: os Rodrigues e Alves. Sentados, um pai austero ao centro, a mãe dedicada, submissa e feliz, pelo lado direito deste e as duas filhas que não esboçavam naturalidade nos sorrisos, ambas em pé, imediatamente atrás do casal. Martha apoiava a mão esquerda no ombro direito do pai e Márcia, a mais nova, fazia o mesmo e com um pouco mais de carinho, no ombro da mãe. 
O carrilhão sustentava o relógio Herweg, cujo som cadenciado e de mecanismo absolutamente preciso, estabelecia um compasso sereno ao ambiente que se fazia apreensivo sem que se dessem conta desta condição sonora.
O silêncio de dois ou três minutos foi interrompido quando Dr Décio levantou-se dizendo:
 
__ Vamos! Vamos ao Parque Dom Pedro, esposa e filhas. Vamos aproveitar o ar fresco da manhã deste inverno que se faz rigoroso, mas bastante saudável aos pulmões.


III
 

Domingo, 19 de agosto de 1952
 
Oito horas e dezessete minutos de uma manhã cuja temperatura apontava 11˚C. 
__ Vamos! Vamos à missa, esposa e filhas. Padre Conde nos espera, não podemos atrasar. 
Maria de Lourdes, tenta ser natural mas demonstra certa apreensão, ainda mais quando percebe o olhar do marido que para ela já parecia desconfiado.  
Na verdade Dr Décio há dias vinha observando a esposa muito ansiosa e nitidamente um pouco mais, desde sexta-feira última. Os olhares cruzados foram raros desde então e muito rápidos. 
Nunca foi assim! Disse para si mesmo, Dr Décio. 
Ela conduz as filhas até o automóvel, um Ford modelo 1948 todo preto, de quatro portas, de parachoques, retrovisores e adornos, tão bem cromados que mais pareciam espelhos reluzentes. A placa amarela estampava a data do casamento do casal: 12-01-39. Polido ao extremo e estacionado de forma rigorosamente alinhado à calçada em frente ao número, 17 - portão de entrada do casarão da Rua Independência. 
Dr Décio com as chaves na mão direita, deu a volta por trás do automóvel até alcançar a porta do motorista. Maria de Lourdes, mãe atenta e preocupada com a segurança das filhas, as leva ao assento do banco trazeiro, pensando que deveriam inventar cintos de segurança para crianças em carros, assim como existem para adultos nos aviões. Trava a porta e em seguida acomoda-se no banco da frente, ao lado do esposo que já aquecia o motor. 
A família no conforto do veículo segue o percurso de quase três quilômetros pelas ruas de paralelepípedos do bairro, no mais absoluto silêncio, porém, garantindo aos olhares de observadores, sorrisos que endossavam que a vida era boa para quem fosse de bem. 
E assim foram por cerca de dez minutos até chegarem à Igreja Nossa Senhora do Sion na Avenida Dr Gentil de Moura, onde Padre Conde, amigos e familiares  regularmente se encontram nas  missas do domingo. 
Dr Décio dirigia com sorriso nos lábios, mas com agonia e perplexidade no coração. Lembrou do que lera no Diário da Noite naquela manhã a respeito do crime do Edifício Condessa de Pirajá. 
ASSASSINATO NO CENTRO DA CIDADE

"REPERCUSSÃO DO CRIME”
A polícia já tem o nome da pessoa encontrada morta com sete facadas na última sexta-feira, no Edifício Condessa de Pirajá, no centro da cidade. Trata-se de Antonio Carlos do Nascimento, vulgo, Tripé, homem pardo, solteiro, de 42 anos, motorista particular e natural de São Carlos do Pinhal, interior do Estado. 
Sabe-se que ele estava desempregado há dois meses pelos documentos encontrados em seu apartamento, o mesmo que havia alugado da prima que fora Miss São Carlos do Pinhal do ano de 1950. 
Suspeita-se de crime passional, pois uma mulher de boa aparência, vestindo um elegante casaco de gabardine bege, usando óculos escuros, foi vista saindo pela porta dos fundos do edifício de forma bastante estranha. 
O porteiro José Venâncio Soares, foi quem encontrou o corpo de Antonio no apartamento 812, passando em seguida as informações à polícia.  
Dr Décio, não tinha dúvidas, a esposa estava envolvida até o pescoço na morte do motorista que ele havia demitido dois meses antes. 
Fez isso quando soube, através de uma carta anônima, claramente escrita por uma mulher irada, que Antonio, o maldito sedutor, era um aproveitador e desviador de caráter de senhoras bem casadas, distintas e comprometidas com a moral e os bons costumes. Que ele, Antonio, havia fugido de sua cidade natal por conta de juras de morte feitas por maridos traídos de lá. Deixando a mulher e cinco filhos desamparados. Que ele deveria ficar muito atento pois Maria de Lourdes andava frequentando o apartamento dele no Edifício Condessa de Pirajá. 
Dr Décio até então desconfiava de alguma, mas não sabia exatamente do que. Descobriu na espreita, embora não tivesse se manifestado com ela e muito menos com ninguém, que sua linda esposa o traia nas suas barbas, mas provavelmente porque fora ludibriada pelo motorista salafrário, enquanto fazia o seu trabalho. Ele conhecia bem ela e sabia de sua fidelidade. 
__ O que diriam os vizinhos, os amigos, os parentes se soubessem de tudo aquilo? 
Foi um período de indecisões e lamentações aquele. Dr Décio, inconformado, surpreso, magoado, guardou para si toda a ira de homem traído, e agora um corno. Um irremediável corno. 
A vergonha cobria sua alma, roía as vísceras, esmagava o fígado, mas ninguém poderia saber de nada. A vida tinha que seguir como sempre foi: sem vestígios.  
Absteve-se de qualquer ação violenta em prol da família e de sua imagem. Afinal, como os mais próximos diziam: ele era um doce de pessoa. 
A imagem própria e o sucesso familiar era tudo para Décio Rodrigues e Alves, por isso decidiu que bastaria demitir o motorista para ficar tudo resolvido e esquecido, pois, além de não conhecer a cidade como deveria,  Antonio não cuidava do polimento do automóvel, portanto: rua e ponto final. 
Maria de Lourdes, dividida entre a família e a paixão secreta que a levava à loucuras, sabia que se envolvera com empregado num lapso de razão, e já não mais sabia o que pensar. 
Às vezes acreditava que o esposo descobrira seu romance fortuito, mas ao mesmo tempo achava impossível imaginar que ele pudesse saber e se calar concordando com tamanha vulgaridade. 
__ Ainda mais ele! 
Outras vezes ela acreditava que o marido nada sabia de verdade, tentava se convencer disso. Que era coisa da cabeça dela, que só podia ser. 
__ Nunca, jamais! 
O ruído no assoalho naquela tarde chuvosa e em seguida o vaso de porcelana chinês caído ao chão do nada, enquanto ela e o amante estavam em paixões no quarto do casal Rodrigues e Alves, não havia sido provocado, sem querer, pelo marido perplexo, espreitando o inimaginável. E nem o ronco do motor que ouviram num outro dia, seria de um taxi que trazia eventualmente o marido desconfiado até sua casa em horário rigorosamente de trabalho com intuito de um flagrante destruidor.
Coisas da cabeça! Pensou ela.
A missa do Padre Conde transcorreu normalmente. O tema abordado naquela manhã fria de domingo pelo pastor dirigido ao rebanho foi, curiosamente, sobre a fidelidade. Fidelidade, que segundo ele, era a base da confiança nas relações entre os filhos do Pai: entre a família, entre o esposo e a esposa, entre os filhos, os irmãos, amigos, parentes e, principalmente, a quem devemos temer acima de tudo: Ele, o Pai. 
Nenhum um pio entre os fervorosos. Todos muito compenetrados nos pensamentos, ouvindo o sermão com atenção. 
Tenho comigo que se pudesse alguém entrar em cada uma daquelas cabeças e ler os pensamentos de cada um deles, talvez se surpreendesse com o que encontraria. 
A única voz que ecoava na enorme igreja era a do padre Conde, e o castelhano do frade confundia as crianças e os idosos. 
Onze e dez. Fim da missa seguido dos cumprimentos, despedidas e desejos de boa semana, trocados por todos com aparente afeto. 
A noite deste mesmo domingo chegou. O dia se passou com poucas palavras trocadas entre Dr Décio e Maria de Lourdes. As meninas adoraram o passeio e o almoço em São Bernardo do Campo fez sucesso. 
__ O frango com polenta estava uma delícia, né mamãe? Disse, Márcia. 
__ Mas o doce no Gato-Que-Ri estava mais gostoso ainda, né papai? Martha observou. 
Noite, dez e vinte e três. A família se recolheu nessa hora. 
No casarão não se via nenhum ambiente iluminado, exceto o jardim de inverno. 
Dr Décio sentou-se no sofá de sua preferência, enquanto que Maria de Lourdes virava-se de um lado para outro nos cobertores quentinhos e lençóis macios da cama de pena de ganso.  
Ele, apreensivo também baforava no charuto cubano reservado para as horas de reflexão. Folheava as páginas de sua agenda e para segunda-feira, dia seguinte, dia vinte, logo pela manhã, anotou o compromisso principal do dia: procurar e ter uma boa conversa com o Dr Cardoso. 
Dr Duílio Cardoso de Moraes era o delegado-chefe da Central de Investigações da Polícia Civil do Estado de São Paulo e ele, por coincidência, era primo legítimo, de primeiro grau, quase irmão, de Dr Décio. Eles cresceram e foram criados juntos, sempre muito próximos.  Amigos mesmo.
De certo, nele, Dr Décio poderia confiar e mais ainda, poderia contar. Isso ele não tinha dúvidas.  

IV 
(Parte final)  
Terça-feira, 20 de agosto de 1.953 - Um ano depois.  
Apesar do inverno o dia amanheceu quente. Desde cedo os raios de sol se infiltraram pelos janelões iluminando e aquecendo o casarão da Rua da Independência, número 17 no bairro do Ipiranga. 
Dr Décio, depois do café e da leitura matinal dos jornais, se preparava para mais um dia de trabalho. As filhas bem arrumadinhas e cuidadas pela mãe já tinham ido para o Ateneu, embarcaram no ônibus escolar, sempre pontual, às seis e quarenta e cinco da manhã. 
E Maria de Lourdes, naquele dia estava radiante, pois lá pelas dez iria até a cidade comprar uns metros de tecidos para fazer um novo vestido. Cantarolava pela casa toda alegre.  
O casamento de Cristina Albuquerque de Mendonça, amiga que conhecera seis meses antes num baile de carnaval no Clube Ipiranga, estava chegando e portanto, precisava preparar um novo vestido para o evento.
__ Casamento chique, Décio! Esse não podemos perder por nada! 
Dr Décio seguiu para a Livraria Rodrigues e Alves na rua XV de Novembro, no centro da cidade como sempre fez, desde os tempos de criança quando acompanhava o pai. Estava feliz também, tudo parecia normal, como deveria e sempre tivera sido. 
O Ford 1948 todo preto estava bem lustrado, era conduzido por Jonas Luiz, o novo motorista da família. Este sim, nascido e criado em São Paulo, portanto, conhecedor da cidade como ninguém e muito cuidadoso com o polimento do veículo. 
__ Dr Décio não gosta de ver sequer uma manchinha no automóvel da família! 
O patrão o orientou para que depois retornasse ao casarão para levar Dona Maria de Lourdes às lojas de sua preferência e para que desse toda atenção a ela no que precisasse. E no final da tarde, cinco e quarenta e cinco, em ponto, estivesse em frente a livraria para que pudesse traze-lo de volta para casa. Eram essas as tarefas de Jonas Luiz, o novo motorista para aquele dia de agosto de 1953. 
No caso do crime do Edifício Condessa de Pirajá, ocorrido um ano antes, a polícia chegou na conclusão que não procedia a história do porteiro, José Venâncio Soares. Não convenceu o delegado-chefe, Dr Cardoso que havia tomado o comando do caso.   ...que ele vira alguém estranho saindo pelos fundos do prédio e foi logo subindo no apartamento da vítima. Não cheirava bem, não convencia ninguém. Segundo os altos, não existiu essa tal mulher elegante de capa de gabardine bege e óculos escuros. Era tudo balela.
Somente o porteiro tinha a chave do apartamento, além da própria vítima, é claro… Portanto…
 
Como suspeitou-se de envolvimento emocional entre dois homens, constatado pela desarrumação da cama - conclusão do inquérito, a polícia entendeu por bem em não divulgar a verdadeira causa para a imprensa, preferiu a hipótese de cobrança de marido traído. José Venâncio concordou em assinar a confissão nesses termos. 
__ Melhor do que se passá por bicha, né Dotô? (sic) Corno, ainda vai… mas viado, não, né? (sic)
Somente Décio Rodrigues e Alves e Maria de Lourdes Rodrigues e Alves sabiam do verdadeiro motivo do crime do Edifício Condessa de Pirajá. 
Dr Décio acreditava piamente que a esposa, arrependida, queria encerrar o caso extra-conjugal, enquanto que o amante não permitia, ameaçando ela de revelar tudo ao marido. 
E ela, Maria de Lourdes, sabia que o verdadeiro motivo do crime foi o desgosto da traição do amante, quando descobriu que ele mantinha um caso com uma Miss de São Carlos do Pinhal, dez anos mais jovem que ela.
Nem Décio e nem Maria de Lourdes ousaram tocar no assunto do crime do Edifício Condessa de Pirajá. Nunca, em nenhum momento, jamais. 
Dr Cardoso, soube da história pelo primo Décio que havia solicitado ajuda, mas ele não conta. Além do que, seis meses depois do caso resolvido, Dr Cardoso veio a falecer, foi assassinado numa emboscada da bandidagem na baixada do Glicério, próximo ao Parque Xangai.
E assim foi. 




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