15/09/2014

51 Anos Atrás

Imagem disponível na página do Faccebook -  MEMÓRIAS PAULISTANAS.

1963 - Avenida Álvaro Ramos esquina com a Rua Toledo Barbosa no bairro do Belenzinho. Ponto inicial da Linha 24 - Belém / Praça Clóvis Bevilácqua.
Os bondes da CMTC eram vermelhos com listras amarelas. Este da foto não era do modelo chamado "camarão", do tipo fechado e mais imponente.  
O do meu bairro parecia com aqueles bondes de São Francisco, os que sobem e descem as ladeiras que a gente vê nos filmes. Tive oportunidade de conhece-los anos depois e de certa forma me decepcionei pela falta de charme, como tinham os nossos velhos bondinhos. 
O da linha 24 - Belém / Praça Clóvis era aberto e com grandes estribos nas laterais, exatamente para facilitar o acesso dos passageiros. Tinha cortinas de couro nas laterais que eram desenroladas nos dias de chuva. Nos quentes, ficavam recolhidas na parte de cima.  
A gente embarcava no bonde e o cobrador logo se aproximava com o dinheiro dobrado numa das mãos, expondo sem receios nota por nota e todas bem alinhadas. Pagávamos a passagem e ele nos dava um passe, uma espécie de recibo que nada mais era que um pedacinho de papel amarelo com o símbolo da CMTC e um furo num dos lados. O furo era feito na hora e mostrava que você não podia apresentar aquele recibo em outra viagem. 
O motorneiro dava a partida e num solavanco o bonde começava a andar. Consigo ouvir o ruído do motor elétrico e o barulho das rodas de ferro sobre os trilhos. Me recordo da sensação de estar num parque temático toda vez que andava de bonde. Era assim que eu me sentia, uma criança feliz indo passear de bonde. As ruas e as pessoas, os carros, tudo era vitrine para mim. Eu e toda a molecada ficávamos encantados.
Andar de bonde sem pagar era mais gostoso ainda, mas isso passamos a fazer bem depois quando já éramos maiorzinhos. 
Me lembro do percurso: ele saia da Avenida Álvaro Ramos e logo à esquerda  já entrava na Rua Herval para seguir até a Rua Silva Jardim. Nela entrava à direita e depois de uns cem metros alcançava o Largo São José do Belém. No Largo ele contornava a praça até chegar na Rua Belém e nesta seguia até a Av. Celso Garcia. Da Celso que se transformava em Avenida Rangel Pestana, próximo da Eletro-Rádiobras, ele passava pelo Largo da Concórdia, atravessava o viaduto sobre a linha dos trens da Santos-Jundiaí e saia na Rua do Gasômetro e lá pelo meio desta voltava para à Avenida Rangel Pestana e nela, depois de uns dois quilômetros, chegava na Praça Clóvis. Se gastava meia hora de viagem, mais ou menos. 
Para voltar ele fazia praticamente o mesmo percurso. Mas para mim, as calçadas sendo outras, as vitrines também eram outras.
Não me lembro de edifícios pichados, de carros em alta velocidade, de uma imensidão de faróis ou de tanta gente pedindo esmolas pelas esquinas. Talvez isso tudo já existisse e por ser criança não dava atenção para essas coisas. A vida me parecia mais tranquila na época dos bondes.
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