17/03/2012

O anel, o pai e o garoto

Seguia o ano de 1966. Na memória, tudo em preto e branco, embora os sonhos sejam coloridos as lembranças reais não carregam cores. 
O garoto de 12 anos, baixinho e franzino, com um quê de timidez, gostava de jogar bola e sofreu com a campanha pífia do Brasil na Copa do Mundo daquele ano. Até chorou escondido. Fazia quadrados - era assim que se chamavam as pipas na época. Fazia com varetas de bambu, papel de seda e cola feita de farinha e água. Capucheta com folha de jornal que rasgavam facilmente com o vento um pouco mais forte. As vendia nas feiras de sábado e domingo para levantar uma grana. Adorava filmes, assistia a todos pela TV e quando podia ia para as matinês de domingo. Diversão certa nos cines Penha Palace, Penha Príncipe, São Geraldo, Universo, Piratininga e outros tantos. 
Adorava cinema, sonhava ser um dia um grande produtor, diretor de filmes. Escrevia pequenos roteiros para o teatrinho da escola, fazia desenhos em quadrinhos aproveitando folhas do caderno de desenho da escola, com personagens geralmente baseados em pessoas que conhecia - professoras, vizinhos, vizinhas, parentes, amigos e quem mais fosse. Trocava os nomes dos personagens para disfarçar, nada podia ser revelado, se não, a surra era certa. Sua mãe era uma fera, embora alegre e divertida, não perdoava qualquer tipo de desrespeito. Uma vez ele deixou escapar e se deu mal, muito mal. O diretor da escola queria até expulsá-lo. Seu pai, no entanto, era muito calmo, do tipo tranquilo e de poucas palavras e tinha uma inteligência racional fora do comum, muito além da maioria das pessoas. Dado às invenções vivia com um pedaço de papel e um lápis na mão, rascunhando alguma coisa nova. Mecânico de mão cheia, eletricista, pintor. Era muito hábil com as mãos e um contador de piadas sem graça quando bebia um pouco mais. Coitado, acabava virando a própria piada.
Pelo rádio, que ficava ligado o dia todo, o garoto ouvia muita música. Conhecia a programação da maioria das emissoras. Não existia FM e o dial, além do AM, dispunha de ondas curtas que raramente eram sintonizadas. O garoto curioso, de tempo em tempo, arriscava sintonizar alguma coisa, mas o ruído abafava o que se ouvia.
Época da Jovem Guarda de Roberto e Erasmo Carlos, Wanderléia e dos conjuntos. Eram assim chamadas as bandas de rock na década de sessenta. Faziam sucesso os conjuntos brasileiros que vestiam  ternos com paletós sem golas. The Jet Blacks, The Jordans, The Clevers que virou Os Incríveis depois, Renato e seus Blue Caps e as estrangeiros, como se dizia - The Animals, Herman's Hermits, The Rolling Stones e a mais querida por ele, The Beatles. 
Nos álbuns de figurinhas e nas fotos das revistas da época - Intervalo, a que mais lia, confundia, George Harrison com John Lennon, ambos tocavam guitarras elétricas, motivo pelo qual decidiu aprender violão. Achava-os parecidos. Só os identificou melhor no cinema quando assistiu "A Hard day's Night" que no Brasil teve o ridículo nome de "Os Reis do Ie Ie Ie" e depois em "Help", este colorido e com tela grande.
O garoto admirava também o jeito rebelde e anárquico dos Rolling Stones. A guitarra de Keith Richard em Satisfation era delirante e ele queria entender melhor o que eram as drogas e porque falavam delas em tom baixo evitando que as crianças ouvissem. Tomou um porre de caipirinha em casa numa tarde quando estava sozinho. Embriagado rabiscou as paredes da casa e da vizinhança, fez desenhos obscenos por todo canto, pixações sem sentido em todo lugar. 
A surra que levou da mãe foi proporcional ao escândalo repercutido no bairro. De garoto tímido e educado transformou-se num moleque filho da puta. Um pirralho metido a besta.
Deixou o cabelo crescer mesmo sob a repulsa da mãe, das tias e do diretor da escola. Aprendeu o sentido dos palavrões e os incluiu no vocabulário. Começou a fumar escondido roubando cigarros do pai. De excelente aluno, repetiu a segunda série do ginásio de propósito, por entender que assim se tornaria um verdadeiro rebelde, ao menos dentro do pequeno mundo que o cercava e, lá no fundo, também para provocar a atenção de uma menina loira, bonita, de família meio rica. Uma paixão recolhida que jamais recebera nada em troca. Enfim, o garoto se tornou em perfeito idiota, embora julgando-se o máximo. A arrogância e a insegurança estavam escondidas em sua alma de criança.
No filme Help, o baterista do Beatles, Ringo Star era perseguido por bandidos por usar um enorme anel com uma pedra vermelha. Este não saia-lhe do dedo por nada, por mais que os amigos tentassem não conseguiam livrar-se da tal jóia.
O garoto achou a ideia muito boa e lembrou-se de ter visto um anel parecido na gaveta do criado mudo da mãe dele.Ela quase não o usava.
Não deu outra, pegou o anel na segunda feira pela manhã sem que ela percebesse e na escola exibiu a tal peça no dedo da mão direita com orgulho. Mesmo sendo um anel feminino, de ouro com uma pedra que parecia um rubi em destaque, ele ostentava dando uma de machão. Até mesmo sua amada aproximou-se comentando o lindo anel parecido com o do Ringo Star. Finalmente ela o encontrara. 
Foi um sucesso na escola e decidiu repetir a dose nos dias seguintes.
Na própria segunda feira quase na hora do jantar, não se sabe bem a razão, sua mãe foi buscar algo no criado mudo e deu falta do anel. Todos em sua casa negaram o paradeiro com firmeza. Seu pai, seu irmão menor e ele próprio.
A desconfiança do roubo caiu sobre sua tia. A tia Benvinda, que o garoto tinha como uma segunda mãe, a mãe legal, a que se divertia com seu novo jeito de rebelde, a única entre todos que o apoiava. Ela tinha passado o domingo em sua casa com o marido e os filhos e a mãe dele achava a irmã sendo meio doidinha, poderia ter afanado a jóia tão preciosa.
O garoto apavorado ficou sem saber o que fazer. Se contava a verdade, apanharia ali mesmo, se devolvia às escondidas o anel no lugar sem que ninguém o visse, poderia chamar a atenção para si próprio, já que era o maluco da casa, ou continuaria com o sucesso na escola, mantendo a atenção de sua Vênus.
A semana seguiu até sexta feira e o garoto manteve-se calado ouvindo todos os dias as acusações dirigidas a sua tia querida, mas saboreando o sucesso na escola.
Nesses dias, próximo de casa quando retornava da escola, escondia em sua mala o anel, lambia o dedo para tirar a marca deixada por ele, uma vez que este entrava bem justo em seu dedo gordinho. Em casa estava aflito, inseguro, descobrindo-se um covarde.
Tudo iria ser revelado no domingo quando a família se reuniria para o almoço na casa dos avós. a tragédia estava por vir. Anunciada. 
No sábado pela manhã, bem cedo, devia ser umas sete horas, mais ou menos, o irmão procurando um lápis de cor na mala do garoto viu o anel e surpreso acordou a mãe e o pai que ainda dormiam. Coitado, todo orgulhoso. O garoto acordou com as palavras do irmão - Mãe, olha que achei!
O mundo caiu. A mãe aos berros cobrou o filho mais velho.  A verdade revelou-se em menos de 15 segundos e um dia antes do prazo. O pai, o calmo, levantou-se e pela primeira vez perdeu a cabeça, deu uma surra de gente grande no filho a ponto da própria mãe intervir para socorre-lo.
Em meio aos murros o pai dizia - nunca minta, nunca pegue nada o que não seja seu e jamais, jamais envolva outras pessoas em suas trapalhadas.
De rosto ainda inchado e com o corpo todo dolorido o garoto, na segunda feira seguinte foi para a escola sem o anel, sem o sucesso e sem a atenção da menina, obviamente revelada como uma interesseira.
Deixou a rebeldia de lado e até cortou o cabelo. Sentiu-se humilhado, envergonhado de si próprio. As palavras do pai doíam-lhe à alma, muito mais que as dores físicas pelo corpo franzino. Elas permaneceram zumbindo em seus ouvidos - Seja você mesmo, assuma seus erros e não pegue nada que não seja seu. Consiga o que quiser por esforço próprio. Seja forte, não se renda à covardia.
Muitos anos depois, mais de quarenta na verdade, num quarto de hospital, numa cidade do interior de São Paulo, pai e filho cruzaram seus olhares de forma derradeira. O sorriso esboçado pelo pai fez o garoto perceber que ele sentia orgulho do filho. 
O garoto chorou agradecido e o pai, despedindo-se, cerrou os olhos mantendo o sorriso nos lábios.
O zumbido das palavras permanecem nos ouvidos do garoto, hoje de cabelos brancos e mais seguro de si.



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