04/02/2012

Seu Aristides e o amigo Policarpo. (parte um de duas)

Estava eu sentado no banco da praça em frente a Igreja da Matriz no sábado passado saboreando afortunadamente uma manhã de descanso. Tranquilo, com os braços abertos apoiados no encosto do banco e de peito aberto, respirava o ar fresco que vinha das montanhas. Deixei o celular em casa pois queria mesmo me desligar, difícil isso acontecer e de relance li as manchetes dos jornais que estavam à mostra na banca do Zé, logo à minha direita - nada dizia de novo, somente repercussões da semana.
Gosto de saborear as manhãs de sábado em Piracaia, ainda mais quando elas são banhadas de sol de forma generosa. A luz das nove e meia, dez, dez e meia no máximo, deixa o céu com um azul, simplesmente, maravilhoso. As melhores fotos são obtidas nesses horários, ficam mais nítidas e as cores ficam naturais. 
Os jardins com seus contornos protegidos pelos pequenos arcos de ferro curvados e pintados de branco, estavam com o gramado com um verde esmeralda intenso e as flores distribuídas ao longo do  campo, estavam com as cores magníficas. Vivas, alegres e pareciam agradecidas pela abundância da luminosidade. Fiquei com a impressão de que todas sorriam para mim. 
O meu tique nervoso, para quem me conhece, sabe que é a perna direita saltitar sem parar sobre o calcanhar e este apoiado pela planta do pé provoca um sobe e desce compulsivo, chega ser irritante para quem vê. Quando estou muito tenso a esquerda faz a mesma coisa. Vira um samba do crioulo doido e saem todos de perto. Mas estava tão calmo nesta manhã que as duas pernas descansavam sobre seus calcanhares e ainda deixavam as pontas dos pés para cima como em contemplação ao firmamento. Me sentia o dono do mundo que aos poucos fui me esparramando naquele banco. Ninguém me pedindo nada, ninguém me cobrando nada, só olhava para os lados, não olhando nada, sem pensar em nada, quando muito dava atenção ao movimento das pessoas caminhando para algum destino ou simplesmente, como eu, curtindo um tempo de paz. Quão distantes eram da vida urbana intensa, acelerada e muitas vezes desafeta da minha cidade.

Tudo ia bem até quando me dei conta da aproximação do Seu Aristides. Não que não goste dele ou de ouvir suas histórias longas, não se trata disso, mas naquela hora queria mesmo é ficar sozinho, no sossego.
Veio em minha direção como quem não quer nada, mas evidente que de longe já tinha me avistado. Sujeito curioso esse Seu Aristides, parece um personagem dos quadrinhos. Todo alinhado, engomadinho, no capricho. Vestia uma calça de linho num corte social de cor beje e a camisa branca de mangas longas, finamente  passada pela dona Esperança, sua esposa a quase 40 anos. Os cabelos grisalhos, cada vez mais ralos, eram penteados para o lado direito, mas por serem de fios tão finos, mesmo com ventos suaves, escorriam para todos os lados se contrapondo com a seriedade do semblante.

_ Bom dia Seu Aristides!
_ Bom dia, doutor! Como está o senhor?

Acomodou-se ao meu lado com delicadeza. Respirei fundo e o recebi com cortesia, como bons e velhos amigos.


Depois de no máximo cinco minutos de introdução, falando sobre o dia lindo, que talvez fosse chover de tarde, pois quando o céu está muito limpo é sinal de chuva forte chegando, ele mencionou um tal de Policarpo, seu amigo de infância e de como ambos se livraram de uma tremenda encrenca. Mas essa, deixo para a próxima postagem.


Piracaia é assim. Aprazível, calma e ao mesmo tempo com jeito de cidade grande. Nos seus contáveis quarteirões a população caminha apressada, parecendo que estão numa avenida paulistana. Carros, charretes, motos, cavalos e cavaleiros convivem em perfeita harmonia, parecendo todos personagens de uma história de realidade fantástica, inclusive eu.
Inspiradora.





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