11/02/2012

Tem coisa errada aí.

Estava fazendo umas contas hoje cedo e percebi que gastei cerca de 65 horas na semana somente com o trabalho. Coisa mais ridícula de se fazer, somar quantas horas eu trabalhei, eu sei. Mas fiz isso para dar dimensão à vida congestionada que levo. Não sou o único que trabalha tanto e nem é motivo de se ter orgulho, apesar que hoje em dia as coisas estão assim, orgulha-se dessa coisa. É uma pega pra capar geral.

Continuando nas contas. Vinte e quatro horas por dia de segunda à sexta feira somam 120 horas. Desse tempo, passei mais que a metade só trabalhando, única e exclusivamente, exaustivamente, trabalhando, de baixo de muita pressão, cobranças, de cima, dos lados e de baixo.



Das 55 horas que sobraram, mais ou menos 30, passei dormindo, se é que se pode chamar de dormir a maneira como faço isso e as 25 restantes, gastas no trânsito - 5 horas mais ou menos, até que não é muito, a Marginal do Tietê anda boa depois da reforma e as outras 20 para a vida pessoal - duas horas por dia em média para a família, amigos e lazer. Tem coisa errada aí.
Uma pessoa que diariamente está em pé das seis da manhã até à meia noite ou um pouco mais, portanto, 18 horas acordado, não pode ficar somente com duas horas no dia para a vida pessoal.

Participei esta semana de um seminário sobre administração do tempo e nele, entre outras coisas, fizemos uma pizza - um desenho circular como um relógio, fatiando o dia em horas para cada atividade.
A tarefa era dividir, sem exageros e na média, quanto tempo dedicamos do nosso dia, trabalhando, dormindo, alimentado-se, em deslocamentos no trânsito, família, pessoal e espiritualidade.
Me surpreendi com o resultado, não somente com o meu, mas também com o da maioria das pessoas que estavam ali comigo.
Individualidade, no meu caso específico, praticamente zero de tempo.
Me manifestei ao ser perguntado pelo palestrante sobre o meu resultado, me lembro ter dito que havia me transformado num robô. Principalmente em relação à espiritualidade, deu zero nesse ítem.
Não foi exagero meu e claro que sei que isso é uma média. Mas zero ou próximo a isso na espiritualidade, realmente me deixou preocupado.
É claro também que esses números são relativos, não são absolutos, mas eles serviram para despertar minha atenção,  refletiram bem o modelo de vida que levamos, falo por mim e acho que pela maioria das pessoas, pois sabemos o quanto e cada vez mais estamos nos uniformizando. Quem não está entra na fila para estar, a vida exige isso e ninguém quer estar fora dela. A maioria até fura a fila, sem escrúpulos.
Lá no fundo não me surpreendi, saber eu sabia, mas ver a vida ilustrada num pedaço de papel branco em forma de pizza, medida em tempo de 24 horas, fatiada em pedaços nada saborosos, identificados e, pior, em pedaços assimétricos, mal distribuídos, mexeu com meu estômago que foi parar no cérebro ou este descendo até os intestinos misturando-se ao seu recheio.

As empresas contratam consultorias de RH com o objetivo de treinar seus funcionários, buscando melhor produtividade na fábrica. Nada de mal nisso, aliás, pelo contrário. No nosso caso, o grupo era de gestores, administramos executores, os resultados e a produtividade destes. 
O palestrante, Alexandre Rangel, me permita ele a citação de seu nome aqui, por sorte nossa, considerando que conheci cada um de arrepiar os cabelos, foi muito eficiente. Absolutamente claro, direto e sem rodeios, facilitou a assimilação. E além do primeiro objetivo do seminário que era de orientar como organizar o tempo para um melhor rendimento, peguei a lição também para a minha vida pessoal.
É preciso incluir em nossas vidas mais lazer, mais tempo para nós mesmos, mais descontração para fazermos seja lá o que for, coisas que nos compense a pressão da rotina. A fatia dedicada ao trabalho acho que sempre será a maior, mas as outras, menos a dos deslocamentos, devem ser mais significativas.

Me falta tempo para a espiritualidade, isso ficou claro, deixei-a de lado com frieza obcecada diante da responsabilidade, sem me dar conta do desvio enquanto fatiava a pizza. Este pedaço terá maior atenção de minha parte agora. A fatia das coisas pessoais também terá maior atenção, preciso cortar melhor minha pizza. Quem vai pagar essa conta é o trabalho, o pedaço maior, menos horas vou dedicar a ele. É preferível qualificar esse tempo e organiza-lo melhor, sobrando uma fatia maior para mim mesmo. Não sei ainda como fazer isso, mas tentar ao menos eu vou. Menos frio e mais quente. Enfim, atitude.
De resto a vida continua e preciso terminar a história do Seu Aristides e seu amigo Policarpo. É legal, eu acho.



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