01/10/2011

Não sei se é verdade, só sei que aconteceu.

                                                                                                                                    
Alice
Torcedor fanático do Palestra Itália, antigo nome do hoje conhecido Palmeiras, que, segundo a história, foi fundado por dissidentes do clube rival, Sport Club Corinthians Paulista, seu Giacomo, vizinho, amigo da família, patrício como se diziam os imigrantes italianos, contou à todos ali reunidos num almoço fraterno de domingo, uma história que sinceramente até hoje tenho dúvidas da veracidade. Meu avô morreu afirmando que a história era verdadeira. Talvez a imaginação voraz de imigrantes saudosos da Pátria Mãe, encharcados de vinho tivesse provocado uma alucinação coletiva.
Falando alto, gesticulando muito, seu Giacomo cantava a glória de ser palestrino. Lances de Romeu Pellicciari, Oberdan e outros tantos lhe vinham à boca. Todos aplaudiam compartilhando e complementando com detalhes sempre enaltecendo as histórias fabulosas.
Catarina (Cacá)
Um episódio em especial foi lembrado o qual poucos se recordavam mas, mesmo assim aplaudiram e muitos com lágrimas nos olhos ouviram.
Contou ele: (dispenso o sotaque italiano)


__ Lembram-se do pênalti? Sim aquele cobrado pelo argentino que o Palestra tinha acabado de contratar, o Borrado?
Cerca de vinte pessoas mais ou menos sentados ao redor da mesa colocada no quintal ficaram em silêncio. Que pênalti é esse? pensaram em comum.
__ Não se lembram? Eu estava lá e vi tudo. Jogava o Palestra e o Corinthians, final do campeonato paulista de 38. O jogo estava zero a zero e o empate dava a vitória ao Corinthians.
Silêncio no ambiente.
Gabriela (Bibi)
__ Então, dois minutos de acréscimo, faltando mais um minuto para encerrar a partida - pênalti. Borrado foi derrubado covardemente pelas costas por um lateral esquerdo, Barbosinha, acho, um negro de 1,90 de altura, quando certamente iria fazer o gol da vitória e levaria o Paletra a mais um título. 
Depois de muito bafafá e diz que me diz em campo, o juiz restabeleceu a ordem e o próprio Borrado, jogador argentino de origem italiana se posicionou para cobrar o pênalti. 
Todos olhavam atentos para seu Giacomo ouvindo a história.
__ O estranho meus patrícios é que Borrado ficou de costas para o goleiro corinthiano, de costas para a trave rival para onde deveria dirigir a bola. Até mesmo os jogadores, adversários e parceiros não entenderam o que Borrado estava fazendo.
Distanciou-se aproximando-se do goleiro, este sem compreender manteve-se posicionado, ligeiramente inclinando e saltitando sobre a linha divisória. Silêncio absoluto no estádio. O público presente também não compreendia o que ele estava fazendo.
Na mesa os patrícios ouviam o relato cada vez mais curiosos. Os garrafões de vinho iam esvaziando.
Seguiu seu Giacomo, agora sentindo-se mais dono da atenção dos presentes.
__ O juiz apitou. Borrado deu mais um passo para trás.  Com as mãos na cintura em gesto sereno e concentrado, provocou em seu rosto a expressão de quem faz uma força muscular intensa. Ninguém entendia - de costas para o gol quase ao lado do goleiro adversário. 



Cecília
Ouviu-se então um estrondo gigantesco que ecoou para além dos muros do estádio. O gás fétido exalado de suas entranhas o impulsionou de tal forma que o pé esquerdo alcançou a bola na marca do pênalti e a fez seguir como um raio em direção à trave de seu próprio time. Lá, calculadamente, ela rebateu tão fortemente que curvou os paus devolvendo à esta a direção certeira do gol adversário encontrando a rede que amorteceu a pelota.

Olivia


Não houve fotógrafo que pudesse registrar tal fato diante da rapidez do movimento. 
O juiz apitou. Gol. O final do jogo foi logo após o gol de Borrado. 










Meu avô morreu décadas depois afirmando em suas últimas palavras que estava presente no estádio nesse dia com seu Giacomo e assistiu o Palestra ser campeão naquele ano.
Avô (vô)
Eu pretendo repassar e colorir um pouco mais essa história para as minhas netas. Mudar o nome do jogador - Brad Pitti, talvez. O Palmeiras representando o Brasil numa final de Copa do Mundo, quem sabe.


Afinal, são coisas de avô, ninguém precisa levar a sério, só rir dele.




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