07/08/2011

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Sentado num banco de cimento quase gelado numa pracinha em Piracaia - 90 quilômettos de São Paulo, neste último sábado olhando a movimentação dos transeuntes me dei conta que bem em frente a mim do outro lado da rua estava ela vestida de branco e azul e engraçando-se toda comigo - Lotérica Piracaia.

Sem ter nada o que fazer numa manhã quente onde o sol batia forte e muito fria onde a luz se escondia, passei a observar o entra e sai das pessoas na pequena loja de porta de aço recolhida e enrolada bem abaixo do cartaz onde anunciava o nome do estabelecimento.

Carros disputavam espaços próximos a agência e deles desciam pessoas um tanto quanto apressadas.
Gente com chapéu de palha e botinas marrons e pretas,  outras mais moderninhas, idosos e gente de meia idade. Homens, mulheres e crianças acompanhadas de adultos.
Alguns carros com lama ressecada nos pneus contrastando com os cinzas, amarelos, verdes e azuis das carrocerias dos fusquinhas, Brasílias e outros carrões mais modernos como também algumas motos 125cc.

Pra mim eram sitiantes na maioria e em dia de meia folga cumprindo o ritual da fé e como na quarta feira  ninguém ganhou o prêmio máximo, anunciava-se que o valor acumulado estava em torno de 32 milhões - quem sabe alguém tire a sorte grande neste dia e por isso valia a pena " uma fezinha" em Nossa Senhora dos Esperançosos.

Nas quase duas horas que fiquei ali sentado distraindo-me com toda aquela movimentação vi entrar na pequena casa da sorte pelo menos umas duzentas pessoas - uma estimativa pois talvez pudesse ser até um pouco mais.
Claro que mantive a discrição até mesmo pra não chamar atenção de quem pudesse estar me observando - o que olha aquele tiozinho xereta de São Paulo balançando a cabeça com um conta-gente na mão?
Na tentativa da dissimulação olhava virava a cabeça para outras coisas também mesmo sem muitas opções - moças bonitas, senhoras bem vestidas à moda interiorana, bom dia daqui e dali e assim seguia.
A cidade estava bem movimentada neste sábado com um quezinho de alegria no ar.
Carros, motos, cães e gente. Iam e vinham de todos os lugares, um dia bem agitado para uma pacata cidade do interior.
Notei que todos que entravam na loja esboçavam sorrisos que me pareciam estranhos, indefiníveis. Aparentavam determinação rumo à mudança definitiva em suas vidas. Semblantes como dos guerreiros medievais. Bravos guerreiros. Quando saiam da loja essa característica ficava mais evidente. O inimigo fora atingido no alvo, agora era só esperar.
E eu ali sentado no banco da praça curtindo o meu dia de folga assistindo o ritual do povo piracaiense e porque não dizer talvez de muitos brasileiros que faziam a mesma coisa naquele momento.
Pensei então o que faria eu com 32 milhões na conta bancária - coisa de quem não tinha mais nada pra fazer mesmo.

Registro os meus pensamentos que acho duraram alguns minutos - pareceram horas - imaginei depois como deveria estar com cara de paisagem enquanto sonhava.

__ Nossa, é muita grana! Deixaria de trabalhar do jeito que trabalho na mesma hora e mandaria muita gente à merda!

__ Faria isso e aquilo… relacionei umas cinquenta coisas pelo menos.

__ Não falaria pra ninguém sobre a fortuna. Ficaria na minha…

E meio que escondendo um remorso repentino pela tamanha soberba, numa espécie de complexo de culpa enrrustida, complacente, proclamei:

__ Ajudaria muita gente. Meus filhos, meus genros e nora e minhas netas. Os amigos mais necessitados não seriam esquecidos. E porque não montar uma creche, um asilo e quem sabe um orfanato?
Sim, faria isso tudo e com eterno agradecimento pela graça recebida, estaria de bem com Ele. (Quem sabe Ele percebesse agora esses meus nobres pensamentos e me desse uma forcinha com o prêmio - que profundeza de pensamentos diante de eu me apropriar dos 32 milhões acumulados).

Mesmo sem chapéu de palha e com jeitão de caipira paulistano pedi pra minha mulher que naquele momento vinha ao meu encontro, que fizesse um jogo pra mim - evito agências bancárias, supermercados ou qualquer outra situação onde tenha que encarar filas. Não suporto esperar.
Ela foi gentil aos meus apelos, atravessou a rua com os números sugeridos nas mãos e encarou a fila com sábia paciência. Fez a minha aposta com fé enquanto eu, do outro lado da rua sentado no banco de cimento, continuava a olhar as moças bonitas que passavam pela rua e a contar o número de pessoas que atravessavam a Porta da Esperança.

Hoje um domingo com sol de inverno em São Paulo, diante do meu novo computador leio no site o resultado da Mega-Sena de ontem:

Um ganhador  -  07 10 32 43 47 54 

Sem creches, sem asilos e orfanatos e na mesma os parentes e amigos ficarão. Acho que Ele preferiu assim.

E pior, não mandarei ninguém à merda. Ao menos por enquanto.

Bom domingo.
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