23/05/2015

100 Anos

100 anos de contexto: não se trata de Guerra de Classes 
Por Conrado Cacace, do Resistência 1942UOL - 15 de maio de 2015

O futebol, em seus primórdios, era um esporte amador praticado por membros de clubes de elite, que tinham outras atividades. As primeiras competições tomaram forma; a classe operária formou seus clubes e a popularização foi rápida. Em algum ponto da História, os jogadores passaram a receber gratificações pelas partidas disputadas; ingressos passaram a ser cobrados para que o público assistisse aos jogos.

Com o interesse popular cada vez maior, torneios de seleções foram organizados. Os clubes excursionavam por países da América do Sul. O intercâmbio proporcionou as primeiras transferências de jogadores entre os países, ao mesmo tempo em que o profissionalismo foi instituído no esporte, por pressão dos próprios atletas, que se sentiam explorados. Formou-se, naturalmente, um mercado. E o dinheiro que circulava vinha da cobrança de ingressos.

As tensões políticas globais seguraram a evolução do mercado do futebol por cerca de 15 anos, mas o rádio popularizava o esporte cada vez mais. Quanto mais interesse, mais dinheiro. Os preços dos ingressos, entretanto, seguiam populares: a fórmula para sustentar os custos crescentes foi aumentar a capacidade dos estádios. Vieram o Pacaembu em 1940, o gigantesco Maracanã em 1950, e seguiram-se tantos outros estádios construídos Brasil afora com dinheiro público nas décadas seguintes.

Foi a época de ouro do futebol brasileiro. Entre as décadas de 50 e 70, raros eram os jogadores que se deixavam seduzir pela aventura no exterior; os meios de transporte não eram baratos, os meios de comunicação se limitavam às fronteiras nacionais e as barreiras entre os mercados ainda eram altas. O Brasil desenvolveu uma técnica natural de jogar bola; os melhores jogadores permaneciam por aqui mesmo e o país tinha o melhor futebol do mundo. As gestões amadoras ainda eram suficientes para manter esse mercado, ainda simples, funcionando.

Isso seguiu até o início da década de 80. Foi quando o primeiro grande êxodo de craques aconteceu, impulsionado pela evolução econômica dos mercados de futebol europeus, sobretudo a Itália. A Seleção de 82 tinha seus maiores destaques jogando em times do exterior. E a tendência só aumentou nas Copas seguintes. Os clubes brasileiros já não tinham como competir economicamente com os de fora. E os métodos de gestão de nossos clubes ficaram obsoletos. Vivemos um período de adaptação ao novo cenário.

Surgiram os primeiros patrocínios de camisa, ainda modestos. A TV pagava uma ninharia e os parcos recursos não era repassado aos clubes, apenas cobria o custo da organização. O preço dos ingressos subiu, a média de público caiu vertiginosamente. O público brasileiro só comparecia aos estádios nas fases finais, com grandes jogos proporcionados por fórmulas mirabolantes. O calendário se dividia em jogos para 2 a 5 mil pessoas e megaclássicos para mais de 100 mil, cujo ápice foi a primeira metade da década de 90. Os estádios comportavam quantas pessoas quisessem entrar, os ingressos eram infinitos. Até que houve cachoeira humana na final do Brasileiro de 1992 no Maracanã.
 
Para evitar maiores tragédias, os estádios foram limitados. Já enfiaram mais de 70 mil no Pacaembu, sem o tobogã. No velho Palestra, 40 mil. E no Morumbi, mais de 120 mil. Quase o dobro dos limites de capacidade impostos. Caiu a lotação, caiu a renda. Surgiram novos mercados, como o Japão. O êxodo de atletas para o exterior, em busca de maiores salários, se intensificou. Quem quisesse ter recursos para pagar por bons jogadores teria que desenvolver novos modelos de receita, e para isso, modernizar a gestão.  
O contexto que envolve a atual política de preços tem mais de cem anos, em evolução constante.O contexto de uma questão tão complexa não pode ser uma partida de futebol isolada. O que acontece hoje é resultado de mais de cem anos da existência de futebol no país, inserida em outro cenário mais complicado ainda, que envolve economia e política. A História do Futebol Brasileiro no Século 20, do ponto de vista estrutural, foi pretensiosamente resumida nos sete parágrafos acima, para tentar facilitar a leitura deste ponto de vista: saímos do amadorismo puro para modelos modernos de gestão. De forma análoga, o futebol em outros países também passou por seus acertos em meio a uma série de desacertos – cada um com sua História particular. Observando o processo como um todo, fica mais fácil perceber que o futebol, que hoje é um mercado, globalizado pelo desenvolvimento das comunicações e dos meios de transporte, ainda está vivendo um processo de ajuste.

É óbvio que surge um conflito humano diante de uma diferença tão grande entre o estado inicial e o atual. A paixão que moveu o esporte por muito tempo briga com a frieza do dinheiro. As técnicas de espetacularização, que funcionam bem nos esportes americanos mas que nem sempre casam com a cultura do futebol, são usadas para atender à expectativa deste novo público, já que as bilheterias ainda são uma fatia importante do modelo de receita da maioria dos clubes. Por enquanto, só os maiores expoentes das grandes economias podem se dar ao luxo de abrir mão de cobrar valores pouco acessíveis pelos ingressos por terem construído ao longo dos últimos anos um modelo de gestão sólido que já anda sozinho – por exemplo, Bayern e Dortmund.

O Palmeiras vive esse processo de ajuste. Neste ponto da História, é impensável abrir mão do potencial de receita do Allianz Parque. Se há 30 mil pessoas dispostas a pagar valores acima do que a média da torcida pode, é esse o patamar a ser praticado. Nosso clube viveu por anos sob gestões paupérrimas, muito abaixo das de nossos principais rivais. Isso explica o rendimento tão pobre dentro de campo nas últimas décadas. Foi o preço de ser o mais amador num ambiente cada vez mais profissional.

A casa está sendo arrumada, num passo veloz, graças a uma convergência de ações relacionadas direta ou indiretamente ao Allianz Parque. É possível, dentro de alguns anos, que o clube goze de tal saúde financeira que vai poder voltar a conciliar a raiz popular do esporte com a competitividade do mercado, e poderá então abrir mão da receita potencial das bilheterias em nome da reinclusão das classes menos favorecidas nas arquibancadas, sem perder competitividade econômica.

Neste momento da História em que o clube está optando por usar o potencial econômico da fatia mais abastada da torcida para auxiliar nesse processo de reconstrução, há o risco de transformar o ambiente do estádio em algo frio e sem graça, se essa tendência durar muito. Algumas aberrações acontecem, como os bastões de bate-bate e o telão que fecha closes em torcedores aos 40 do segundo tempo – e os caras acenam e sorriem, quando o momento é de absoluta tensão, pelo menos aos mais afeitos à real atmosfera de um estádio de futebol. Alguns erros são gritantes.

Aparentemente estamos sob o comando de pessoas competentes, que aprendem com seus equívocos. Podemos verificar essa tendência tanto na gestão do futebol, a parte mais aparente, como em detalhes como o preenchimento dos setores laterais do Allianz Parque. Hoje temos um processo de precificação atuante no clube. Os setores Leste e Oeste, antes vazios, já enchem. A estratégia de manter fechado o setor superior em jogos menores está se mostrando acertada, e preços mais acessíveis já puderam ser praticados num jogo de apelo menor.

Não existe um processo de elitização deliberado, muito menos uma "guerra de classes". Existe um movimento gerencial, que eventualmente tem seus efeitos colaterais indesejáveis, mas nem de longe pode ser associado a um desejo higienista ou a uma cultura de ódio. Cada coisa em seu lugar.

O Palmeiras está tentando voltar a dar orgulho a sua imensa torcida, a ser competitivo, está tirando a diferença construída pelos rivais nas últimas décadas, e que tende a ser maior ainda com os recentes e desastrosos acordos com a televisão, firmados há poucos anos. Isso requer sacrifícios – e assumir riscos. Pode até haver outra fórmula para se manter um alto nível de competitividade abrindo mão da hoje importante receita das bilheterias – o espaço dos comentários é todo de vocês.

Estamos inseridos num contexto histórico de mais de cem anos, sob um sistema econômico implacável, e enquanto a regra for essa, não existe mágica. Que o digam a Portuguesa e o Guarani. Mas ainda existe o futebol onde tudo se resolve dentro de campo e no qual o poder econômico não interfere. A várzea ainda pulsa. Cada um vive o futebol como seu coração permitir.


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