31/07/2016

Desconcertante

Desconcertante é saber que parte significativa de sua vida se foi, limitando as expectativas e deixando grande parte dos sonhos para trás. Gostaria de frear o tempo para dar uma respirada, sentado sob a sombra de uma frondosa árvore, observando o dia lindo de sol e ver com muita atenção o álbum da vida, da minha vida.  
Realmente o tempo não pára e se quiser compreender as fotografias deste álbum devo faze-lo com o trem em movimento. Acho que é por isso que acredito num início, num meio e num fim para tudo, o contrário me leva a pensar que estaríamos num caos de lógica.  
O ateísmo se consolidou em mim aos poucos, de crente a descrente foi-se num processo longo para depois se fixar como uma cola instantânea de epox. Aceito espontaneamente que nascemos por consequências biológicas, químicas e físicas, fazemos parte do universo, mesmo na condição de micro-poeiras, mas quando morremos apagamos em definitivo levando a memória junto. O que fizemos de bom ou de ruim fica por aqui para os ainda vivos.  
Não acredito como antes acreditava numa vida após a morte, assim, nem deus, nem diabo e nem santo algum me perturbam mais, estou livre deles.
Não sei quanto tempo de vida ainda me resta, numa boa expectativa uns vinte anos talvez. Se chegar aos oitenta e poucos e se possível com alguma lucidez e sem dores intensas pelo corpo, até que seria bom.
Quando penso em vinte anos olho para trás, faço isso como numa espécie de mecanismo para entender o que significam vinte anos, qual o tamanho de vinte anos. Concluo que é até um tempo razoável e sem dúvida daria pra se fazer algumas coisas. 
Resignação. Sabe quando decidimos pela uma dieta básica para perdermos uns quilinhos e dizemos para nós mesmos que a salada de alface e o filé de frango são as melhores comidas do mundo? Então, é mais ou menos essa a sensação que tenho sobre o tempo que ainda tenho. 
Saber que o melhor já se foi e o que se fez ou deixou de fazer viraram história, deixa a cabeça remoída. É torcer para estarmos errados e acreditarmos que o melhor estar por vir.
Me sinto um idiota nessas horas, a sensação é de ter perdido o melhor da festa por pura bobeira. As oportunidades existiram sem dúvida, afinal, todo mundo as têm, mas se foram rapidamente deixando agora a busca pelo equilíbrio, coisa de quem tem experiência (ou idade), como dizem. Odeio ter experiência e ter que ter o equilíbrio, era melhor quando eu era um cru. 
Depois escrevo o que penso da crueza e do que ela significa, por hoje é só. Paro de reclamar para tentar viver o tempo que ainda me resta.

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