17/01/2015

1973 - Hiroshima Latina

Quarenta e dois anos se passaram e pouca coisa mudou. Mas os meus cabelos...
Nem eu acreditei quando vi a fotografia que um colega me enviou.
O terceiro soldadinho em pé da esquerda para a direita sou eu, este blogueiro que agora se vê um pouquinho diferente do que já foi um dia. 
Soldado 706 - Romeu - Pelotão de Apoio - 3ª Cia Operacional (já era operacional naquela época) - 39˚ Batalhão de Infantaria Motorizada - 2ª Divisão do Exército. 
Um franzino branquela, míope do pé chato, teimoso que nem uma peste, como dizia minha mãe, empunhando com os colegas, no melhor estilo cinematográfico, um FAL de verdade. 
Estava na época, "servindo ao meu país", era o termo exigido pelos generais, o qual devíamos prezar com o máximo rigor e fé, isso num batalhão de infantaria baseado em Quitaúna, Osasco, SP. 
Quartel que foi do 6˚ Regimento de Infantaria onde dois anos antes um tal de Capitão Lamarca havia desviado armas se rebelando para combater ao lado de outros desertores, as forças que estavam a serviço do imperialismo ocidental. Se deu mal. 
Se não me falha a memória a fotografia foi feita num campo de treinamento do exército no interior de São Paulo, acho que em Caçapava. 
Em 1973 estávamos no auge do governo militar e já acumulávamos cinco anos de AI-5 que eu mal compreendia do que se tratava. Uns diziam que era coisa boa e outros garantiam tratar-se da mais dura faceta da ditadura e nesse quadro duvidoso já sorvíamos nove anos do golpe de 1964. 
Os soldadinhos eram doutrinados a odiar comunistas soviéticos e cubanos. Dos chineses não nos diziam nada, acho que pressentiam a chegada da máfia da 25 de Março. 
Os Beatles já não mais existiam como banda, embora suas músicas e atitudes exercessem forte influência no mundo ocidental e oriental, mais ainda nos jovens do proibido proibir liberalista. 
O duro foi cortar os cabelos compridos cultivados anos antes para dar aparência rudimentar do melhor estilo militar americano. A guerra do Vietnã fazia a moda, assim como as calças coloridas de boca de sino.
A velha calça Calhambeque e a Jovem Guarda tinham ido para o saco fazia uns cinco anos e o cara dos Secos e Molhados que cantava fininho como mulher estourava no vinil com Sangue Latino e Rosa de Hiroshima.  
Hiroshima, aliás, que fora devastada 28 anos antes por uma bomba revolucionária nada comunista (talvez por falta de oportunidade) em nome da democracia. Cientistas nazistas americanizados carregaram os segredos do Fuhrer para a América após a derrocada do 3˚ Reich, 0 que iria durar mil anos.
E eu, numa boa, curtia Pink Floyd, Emerson, Lake and Palmer, Yes e Martinho da Vila. Gostava do Rock Progressivo e do samba que dizia que a faculdade era particular: 
Particular, ela é particular, particular, ela é particular...
Histórias tão recentes e ao mesmo tempo tão distantes confundem as lembranças, até mesmo de um pequeno burguês como eu.
Mas ainda acredito que não faz sentido dar um fuzil na mão de ninguém, muito menos de uma criança de 18 anos, burguesa ou não e dizer a ela que comunistas comem criancinhas, ou que os últimos banqueiros deverão morrer com as tripas nas gargantas dos últimos capitalistas ou ainda que devemos exterminar os fundamentalistas islâmicos, os judeus, os católicos, os pretos, os amarelos, os brancos, os flamenguistas, corinthianos, palmeirenses, vascaínos e prostitutas. Me parece estupidez num bom estilo Black Block.
FAL - Fuzil Automático Leve 
Hoje os meninos do tráfico ostentam fuzis mais poderosos que os da minha época e não os ouço cantar o Hino Nacional e nem Pink Floyd, EL&P ou Yes, eles urram alguma coisa incompreensível com as meninas balançando suas bundas. E no chão vejo um vermelho intenso, um vermelho escuro da cor de sangue, da cor de sangue latino.
De um ponto distante do universo nada do que temos ou do que vemos, faz sentido. 
Espero que haja alguma razão para a nossa existência. Deve existir alguma razão para a nossa existência. Para existência de toda a vida neste minúsculo planeta que faz parte do universo que parece não ter fim. Espero.


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