15/01/2014

Lapsos - Sala de Espera

Não saberia dizer se era meio dia ou meia noite, seis da manhã ou seis da tarde. Nem se chovia lá fora ou mesmo se me encontrava do lado de dentro de algum lugar. Nada sabia, não percebia que havia despertado de um profundo e longo sono.
Só sei que me encontrava num lugar relativamente escuro, uma penumbra assustadora. Vidros foscos se perfilavam no alto de uma parede ao fundo da sala. Mesas e camas hospitalares se misturavam às pessoas vestidas de branco, todas apressadas. Um lugar dos mais estranhos por onde tivesse passado um dia, grande, enorme às vezes e pequeno em outros, não sei precisar. Tudo se movia. 
Uma névoa intensa dificultava a visão, não conseguia definir as coisas, era por dedução, parecia que tudo estava sem foco e, mais estranho ainda, nada por ali tinha cor, o lugar era assombroso e eu fazia parte do filme em preto e branco de 1928. 
Ouvia vozes, algumas mais distantes e outras mais próximas, entre as mais definidas reconheci uma, era a voz da Rita, minha mulher. Alívio. 
Ela sorria para mim e dizia alguma coisa que eu não compreendia. Acho que me perguntava se eu estava bem, devia ser isso. 
Ao seu lado uma de minhas filhas, a caçula dos três primeiros filhos, Denise. Ela também sorria, mas eu notava seus olhos encharcados de lágrimas. Tudo estava muito confuso.
Outras pessoas que não pude identificar se movimentavam ao meu redor acenando, gesticulando, dizendo coisas que mal compreendia e eu me sentindo cada vez mais distante delas, flutuava no ar como um astronauta, como se não existisse gravidade naquele lugar. 
Queria interagir, falar, gritar, perguntar onde estávamos e o que fazíamos naquele lugar que mais parecia o umbral. Não conseguia, alguma coisa na minha boca impedia que eu soltasse a voz. Cada vez que eu tentava levar a mão até ela eu sentia uns tubos emborrachados que me entravam pela garganta e as pessoas  dizendo para que eu não mexesse naqueles tubos. 
O que era aquilo tudo? Onde eu estava? O que aconteceu?
Me lembro ter pensado: eu morri, só pode ser isso e é assim que a gente se sente quando morre. 
Continuei a absurda conclusão: acho que todos aqui estão mortos e provavelmente fomos vítimas de um grande acidente, um tsunami com ondas de 100 metros, um terremoto de 9.2 na escala Hichter ou até queda de um avião de grande porte que explodiu em plena avenida Paulista matando milhares de pessoas. 
E estamos agora numa espécie de sala de espera, antes de seguirmos rumo ao céu ou ao inferno.
Não sentia dor e nem medo, nem calor ou calafrios. Não pensava em nada a não ser na ideia de que realmente estávamos mortos aguardando alguma coisa acontecer.
Nada sentia até o instante em que notei que as minhas vísceras estavam sendo puxadas para fora, arrancadas abruptamente do meu corpo. Alguém sorrindo sadicamente à minha frente pedia para eu ter calma e dizia isso enfiando as mãos pelas minhas goelas, remexendo minhas as tripas. 
De certo o capeta cobrava o pedágio e lá iam meus pulmões, meu fígado, meus rins, intestinos e meu coração. 
Este foi o momento da retirada dos tubos o qual compreendi somente depois quando de fato acordei. 
Em seguida adormeci me sentindo sozinho naquela sala escura que chamavam de UTI ao som dos ruídos de laboratório, enfermagens e apitos eletrônicos certeiros de máquinas que insistiam em me manter vivo. 
Todos sumiram de cena, inclusive eu.

(Continua)
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