10/04/2016

A Indignação de Pina

A BREVE E CONTUNDENTE HISTÓRIA DE UM HOMEM QUE NÃO SE CURVOU PARA AS ARTIMANHAS DO EGO, NÃO TRAIU OS PRINCÍPIOS HERDADOS DO PAI E DO AVÔ E AINDA PRESERVOU IMACULADO O NOME DA MÃE.
O relato foi baseado em observações estupefatas de um delírio coletivo crescente que se estabeleceu há pouco num povo exótico de um país cujo nome prefiro não mencionar. Posso dizer, no entanto, que esta nação está localizada abaixo da linha do equador, tem dimensões continentais e seu nome começa com a letra B e um detalhe curioso: os nascidos nessa terra afirmam com galhardia que Deus também nasceu por lá, mais ainda após a chegada do Papa argentino. Eles são muito brincalhões.
Imagem - Google
Giuseppe Di Salvio Pina. Carinhosamente chamado, Pina. 
Um brasileiro de 63 anos que tem estatura média, está um pouco acima do peso, tem de cabelos levemente ondulados e grisalhos, nasceu e foi criado na pequena São Roque dos Pinhais, cidade situada no centro do estado do Rio Grande do Sul. 
Dono do Empório Pina, uma vendinha herdada do pai e do avô. Um entreposto bastante conhecido na região onde ainda se compra e vende o feijão e o pão com a cadernetinha na mão. O pagamento da conta é no final do mês. Fiado, sem caderneta, lá não pode.
Pina é casado há 35 anos com Dona Maria de Lourdes Fortes Pina, uma brasileira de 57 anos com quem teve quatro filhos, todos doutores - Pietro, Francisco, Miguel e Paolo. O primeiro é médico de clínica geral, o segundo, veterinário especializado em inseminação artificial em vacas, um engenheiro químico e por último um advogado tributarista. 
Os avós de Pina chegaram ao Brasil como a maioria dos imigrantes, isto é, com uma mão na frente e outra atrás. Vieram de Salerno, mais precisamente de Monte San Giacomo, um povoado que fica ao sul de Nápoles, Itália, isso por volta do final do século XIX. Chegaram com determinação de fazer fortuna no novo mundo.
Pina, após os anos no varejo de onde tirou o sustento da família e com sacrifício o estudo dos meninos, surpreendeu à todos enveredando-se para a política.  
Fez isso não por gosto de família que se manteve arredia à ideia, pois para eles era mais que descabido ver o patriarca metido com politicagem, foi mesmo pela pressão dos amigos, do pessoal do partido e de boa parte da freguesia. Pina se filiou ao partido que o sondava há muito para candidatar-se a uma das cadeiras na Câmara Municipal. Se eleito vereador em São Roque dos Pinhais, mesmo não compreendendo bem o que isso significava, é que lhe venderam a ideia como sendo muito apropriada diante de sua popularidade.  
Pina acreditou que poderia ajudar um pouco mais a cidade que no passado distante acolheu seus avós de braços abertos, lugar onde nasceram seus pais, irmãos, esposa, filhos e ele próprio e com isso poderia melhorar a vida de seus moradores, afinal, pensou ele, estava mais do que na hora de recompensá-los. Além de tudo o pai e o avô iriam se orgulhar dele caso fossem vivos.
Uma coisa Pina pôs na cabeça desde o início das conversações com o pessoal do partido, se isso se concretizasse um dia, dele se tornar um vereador por vontade do povo, jamais iria se dobrar para qualquer tipo de falcatrua, tanto do partido, como da política em geral ou de quem quer que fosse. Por menor que pudesse parecer a tramoia, ele a rechaçaria com todas as forças do mundo, pois com ele o uso indevido do dinheiro público não teria vez, seria pau na cabeça do salafrário, doesse a quem doesse. Reforçou a convicção com a retórica devida na cerimônia de assinatura de filiação.  
Sim, claro, todos concordaram e aplaudiram efusivamente.
No calor da campanha e feliz pela recepção positivíssima das pessoas, Pina foi alimentando sem se dar conta, um doce deleite de um dia, quem sabe, talvez, pudesse se tornar o prefeito de São Roque dos Pinhais. Sim, ele mesmo, Pina, o primogênito de Genaro Di Salvio Pina e neto de Giacomo Di Salvio Pina, alcançando a prefeitura da cidade! Quem diria, heim, Pina, prefeito!
Imaginou-se na cadeira suprema da cidade dando ordens ao delegado, ao pastor, ao padre, ao dono do posto de gasolina, aos vereadores para que iniciem a construção da estrada asfaltada que leve os são-roquenses-pinhalenses,  de forma segura e rápida à capital do Estado e também ao mar. Que construam escolas de tempo integral para a criançada, universidade municipal comparada a qualquer federal, hospitais públicos com médicos e medicamentos em abundância, praças limpas, ruas arborizadas e muito mais.  
Mas isso seria uma coisa para se pensar mais à frente, não agora. Por enquanto nada de revelar pretenções aos familiares, correligionários e muito menos adversários, embora muitos amigos já se manifestam espontaneamente com slogans do tipo: Pina, Prefeito! Pina, Lá! Pina, Já! Pina, no Topo!
Carismático e reconhecidamente de coração mole, até mesmo com os caloteiros do empório, Pina foi eleito com uma quantidade assustadora de votos, número que representou o dobro da soma dos votos de todos os candidatos juntos.  
Pina, um homem forte. Pina, um homem limpo. Pina, um homem sério. Pina é tudo que se poderia desejar de bom para São Roque dos Pinhais, para o Rio Grande do Sul e para o Brasil. 
Pina transformou-se da noite para o dia num ídolo, uma espécie de brazilian idol, um messias, um salvador da pátria, não somente para os de São Roque dos Pinhais, mas também na região. Deixou até a barba crescer.
Pina emanava honestidade e competência. Aliás, esta foi sua plataforma de campanha nas eleições - Ficha Limpa e Competência só Pina tem. 
Porém, mal assentou cadeira e o sonho se desfez num vapt e vupt. Como diria o outro: The Dream is Over! 
Pina de repente viu-se em completa desarmonia psicológica. Concatenou a depressão, agoniou-se, aquietou-se e pode-se dizer, apavorou-se. 
Questionou-se sobre a real possibilidade de manter-se convicto nas promessas de campanha. Entendeu que diante do quadro seria impossível, foi iludido e acabou iludindo a todos, portanto, o estupro seria inevitável e não adiantaria relaxar, pois o parafuso iria alargar a porca sem dó, até o talo.
O ambiente pernóstico da Câmara Municipal e tudo que a envolvia aborreceu Pina profundamente, não somente pelas coisas naturais da política, ou pelas safadezas dos políticos ou por tantas outras mentiras, o que o deixou de fato preocupado foi ver seu santo nome em vão muitas e muitas vezes, diariamente, citado nos noticiários da imprensa nacional e até da internacional, associando o nome Pina às delações da Lava Jato, afirmando que Pina estava atrás do gigantesco desvio de dinheiro público, pelos não sei quantos pagamentos das chamadas pro Pinas. Tudo era pro Pina. Fulano recebeu pro Pina, Beltrano pagou pro Pina sem que ele nunca tivesse recebido um centavo sequer de ninguém, nem mesmo do pintor que há anos deu uma caiada na fachada do empório.
A freguesia, os familiares, os amigos, todos olhavam torto para ele. Sentiu-se envergonhado, mesmo sabendo que não tinha feito nada de errado. 
Melhor mesmo era cair fora dessa bagunça antes da porca torcer o rabo de vez, passar o cargo ao suplente que é do ramo e voltar para o lado certo do balcão onde as coisas são menos assustadoras. 
Concluiu que política não era para ele, pelo menos da forma como viu. Mais limpo seria o empório, lá sim é um lugar pro Pina ter abundância e viver feliz. Aliás, como sempre foi.

Nota do autor: 
Sr. Giuseppe Di Salvio Pina, a gente tem de ser honesto até mesmo dentro de casa, inclusive, até mesmo com pequenas coisas do dia-a-dia. Nem precisamos listar por aqui que coisas são essas, pois todo mundo sabe muito bem do que falamos.
Deixo aqui também o registro de minha admiração por você por ter se recusado em participar de falcatruas, parabéns, a maioria não faz o que você fez.


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