04/06/2016

Mundial Interclubes 1951

Em uma das eras mais vitoriosas da história alviverde, o Palmeiras encerrou a década de 40 e iniciou os anos 50 com uma sequência de cinco títulos consecutivos, sendo que o último e mais importante deles foi o Mundial Interclubes de 1951. Em dois jogos, o Verdão sagrou-se vitorioso após uma vitória e um empate diante da Juventus de Turim. Com o aval da FIFA, a competição foi organizada pela CBD (atual CBF) e contou com as participações do Estrela Vermelha (da antiga Iugoslávia, atualmente Sérvia), do Áustria Viena (da Áustria), do Nacional (do Uruguai), do Nice (da França), do Sporting (de Portugal) e do Vasco, campeão carioca de 1950, além dos finalistas Palmeiras e Juventus.

O clube já demonstrava sua qualidade uma década antes desta internacional conquista, polarizando o futebol paulista. Rivalizando primeiramente com o tradicional adversário Corinthians e depois com o novato São Paulo, foram raras as temporadas que a torcida palestrina não comemorou algum feito. Em uma época que não existiam torneios de abrangência nacional, o time de Parque Antártica faturou quatro Campeonatos Paulistas (1942, 1944, 1947 e 1950), dois Torneios Início do Campeonato Paulista (1942 e 1946) e três Taças Cidade de São Paulo (1945, 1946 e 1950).

A vitória frente os italianos da Juventus, na tarde do dia 22 de julho de 1951, literalmente coroou uma geração de atletas palmeirenses que, além das conquistas dos anos 40, faturaram os quatro últimos torneios que antecederam a disputa do Mundial, rendendo o honorífico título de Campeão das Cinco Coroas – foram elas a Taça Cidade de São Paulo (1950), o Campeonato Paulista (1950), o Torneio Rio-São Paulo (1951), a Taça Cidade de São Paulo (1951) e o Mundial Interclubes (1951).

Atualmente, a conquista frequentemente é questionada por torcedores rivais, porém tanto a Confederação Brasileira de Desportos quanto a entidade máxima do futebol consideraram à época o embate continental como um verdadeiro encontro entre os mais qualificados times do planeta. O então presidente da FIFA, o francês Jules Rimet, idealizador da primeira Copa do Mundo, nomeou oficialmente o italiano Ottorino Barassi para o comitê organizador da Copa Rio de 51– também conhecida assim, pois foi patrocinada pela prefeitura carioca. Barassi tinha vasta experiência na organização de competições de grande porte, pois já havia atuado nos bastidores da Copa do Mundo de 1934 e de 1950 e, anos mais tarde, seria um dos fundadores da UEFA (União das Associações Europeias de Futebol), além de participar efetivamente da criação de outra célebre e contemporânea competição: a Champions League.

O torneio ocorreu entre os dias 30 de junho e 22 de julho, com jogos em São Paulo, no Estádio do Pacaembu, e no Rio de Janeiro, no Estádio do Maracanã. Na primeira fase, as oito agremiações foram dispostas em duas chaves de quatro equipes, uma sediada na capital paulista (formada por Estrela Vermelha, Juventus, Nice e Palmeiras) e outra na carioca (composta por Áustria Viena, Nacional, Sporting e Vasco). Os times enfrentaram-se em turno único dentro de seus respectivos grupos, sendo que os dois mais bem colocados avançaram às semifinais, que, assim como as finais, foram disputadas em dois jogos.

Os Campeonatos Paulista e Carioca foram paralisados e, assim, tantos palmeirenses quanto vascaínos puderam focar todas as suas atenções no certame continental. A estreia do Palmeiras foi diante do Olympique Nice, campeão francês da temporada de 1950/51. O nervosismo é normal em estreias de campeonatos importantes, e contra os franceses não foi diferente – naquele 30 de junho de 1951, o árbitro austríaco Franz Grill encerrou o primeiro tempo com um persistente 0 a 0 no marcador do Pacaembu. Porém, logo no início da etapa derradeira, o atacante Aquiles converteu pênalti e deu tranquilidade para seus companheiros, tanto que, logo em seguida, Ponce de León ampliou. Para selar de vez a primeira vitória dos comandados de Ventura Cambon, Richard matou o jogo faltando 15 minutos para o término do embate.

30/06/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Fase de grupos (1ª rodada)

Palmeiras 3x0 Nice-FRA
Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
Juiz: Franz Grill (Áustria)
Palmeiras: Oberdan; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Dema; Lima, Aquiles (Richard), Ponce de León, Jair Rosa Pinto (Rodrigues) e Canhotinho. Técnico: Ventura Cambon.
Nice-FRA: Robert Germani; Serge Pedin e Mohamed Firoud; Jean Belver, Cesar Gonzalez e Rossi Leon; Bonifaci Antoine, Bengtsson Per, Yeso Amalfi, Désir Carre e Hjalmars Ake.
Gols: Aquiles (8’ do 2ºT), Ponce de León (11’ do 2ºT) e Richard (30’ do 2ºT)

O confronto seguinte do Verdão foi diante do Estrela Vermelha, campeão da Copa da Iugoslávia de 1950 e que possuía sete atletas na Seleção de seu país (equipe que, inclusive, deu trabalho para o Brasil na primeira fase da Copa do Mundo de 1950). Qualidade comprovada com o título nacional do Estrela, vencedor do Campeonato Iugoslavo de 1951, meses após o término da Copa Rio. Porém, antes de enfrentá-los, os palmeirenses assistiram às vitórias da Juventus frente aos próprios iugoslavos e diante do Nice, ambos por 3 a 2.
Pressionados após os dois triunfos dos rivais italianos, os palmeirenses levaram seu primeiro susto no torneio – Tihomir Ognjanov, atleta da Seleção Iugoslava e que também marcou durante a Copa de 1950, abriu o placar. Ainda na primeira etapa, o veloz Aquiles tranquilizou novamente a torcida palestrina, igualando o marcador. Faltando 15 minutos para o apito final, quando tudo levava a crer que o empate se concretizaria, o atacante Liminha explodiu os palmeirenses presentes no Pacaembu. O Verdão chegou para enfrentar a Vecchia Signora com 100% de aproveitamento.

05/07/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Fase de grupos (2ª rodada)

Palmeiras 2x1 Estrela Vermelha-IUG
Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
Juiz: Gabriel Tordjan (França)
Palmeiras: Oberdan; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme, Luiz Villa e Dema; Lima, Aquiles, Liminha, Jair Rosa Pinto (Canhotinho) e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
Estrela Vermelha: Krivokuca Srboljuc; Tadic e Stankovi Branko; Palfi Bena, Duratinec e M. Disuic; Ognjanov, Mitic Raiko, Tomasevic Kosta, Djajic Predrag e Vukosavljevic Bane. Técnico: Lubisa Brocci.
Gols: Ongjanov (8’ do 1ºT), Aquiles (30’ do 1ºT) e Liminha (35’ do 2ºT)

Juventus e Palmeiras duelaram na tarde de 8 de julho, sendo que um empate bastava para o Verdão garantir-se em primeiro no grupo. O adversário, porém, contava com Giampiero Boniperti em dia inspirado – o futuro artilheiro desta edição da Copa Rio marcou duas vezes antes de o cronômetro atingir a casa dos 20 minutos. O Alviverde não teve forças para se recuperar e assistiu aos dinamarqueses Karl Hansen e Praest ampliarem, totalizando um inesperado 4 a 0. Apesar da derrota, o time se classificou em segundo lugar e enfrentou o adversário mais difícil nas semifinais. Mas a principal sequela daquela partida foi a saída do histórico goleiro Oberdan do time titular – o experiente arqueiro acabou culpado pelos gols sofridos e Fábio Crippa assumiu a titularidade no restante da campanha.

08/07/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Fase de grupos (3ª rodada)

Palmeiras 0x4 Juventus-ITA
Estádio do Pacaembu. São Paulo-SP
Juiz: Edward Graigh (Inglaterra)
Palmeiras: Oberdan; Sarno e Juvenal; Waldemar Fiúme, Túlio e Dema; Lima, Aquiles, (Ponce de León), Liminha, Canhotinho (Jair Rosa Pinto) e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Piccinini; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen (Vivole) e Praest. Técnico: Jesse Carver.
Gols: Boniperti (10’ do 1ºT), Boniperti (18’ do 1ºT), Karl Hansen (3’ do 2ºT) e Praest (35’ do 2ºT)

Na chave sediada no Rio de Janeiro, o Vasco da Gama varreu seus adversários com três vitórias, sendo duas por goleada – 5 a 1 no Sporting, 5 a 1 no Áustria Viena e 2 a 1 no Nacional. Apesar da derrota frente aos cariocas, os austríacos venceram seus outros dois jogos e também avançaram.

Empolgados pela ótima fase inicial, os vascaínos receberam os palmeirenses em um Maracanã lotado. A partida ficou marcada pela contusão de Aquiles, que fraturou a perna em dividida com o goleiro Barbosa, ficando sete meses sem poder atuar. O atacante virou uma espécie de mártir do elenco, que, após o acidente, prometeu conquistar o título de qualquer forma. A primeira vítima foi justamente o Vasco, que saiu derrotado por 2 a 1, com gols de Richard e Liminha; Maneca descontou. Quatro dias depois, os valentes atletas do Palmeiras seguram a base da Seleção Brasileira de 50 e empataram em 0 a 0, classificando-se para a grande final.

11/07/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Semifinal (primeiro jogo)

Palmeiras 2x1 Vasco
Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
Juiz: Edward Graigh (Inglaterra)
Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Waldemar Fiúme (Túlio), Luiz Villa e Dema; Liminha, Aquiles (Ponce de León), Richard, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
Vasco: Barbosa; Augusto e Clarel; Eli, Danilo e Alfredo; Tesourinha, Ipojucan (Vasconcelos), Friaça, Maneca e Djair. Técnico: Oto Glória.
Gols: Richard (24’ do 1ºT), Maneca (1’ do 2ºT) e Liminha (37’ do 2ºT)

15/07/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Semifinal (segundo jogo)

Palmeiras 0x0 Vasco
Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
Juiz: Franz Grill (Áustria)
Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Liminha, Ponce de León, Richard (Lima), Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
Vasco: Barbosa; Augusto e Clarel; Eli, Danilo e Alfredo; Tesourinha, Vasconcelos, Friaça, Maneca e Djair. Técnico: Oto Glória.

Nas finais, o Verdão encarou novamente o ótimo ataque da Juventus, que, além dos dez gols da fase inicial, marcou outros seis nos dois jogos diante do Áustria Viena – 3 a 3 e 3 a 1. Mas após eliminar os vascaínos favoritos ao título, o espírito do time Alviverde era outro – apoiados por uma legião de palmeirenses que invadiram a capital carioca, o atacante Rodrigues garantiu a vitória por 1 a 0 no primeiro embate da finalíssima. O time estava a um empate de conquistar o mundo.

Aos gritos de “Brasil, Brasil”, a tarde do dia 22 de julho entrou para a história do futebol brasileiro, pois, mesmo após os italianos ficarem duas vezes à frente do placar, Liminha decidiu a partida. O dinamarquês Praest abriu o placar logo no início, causando um clima de total apreensão no estádio, quebrado somente quando Rodrigues deixou tudo igual. Mas a comemoração verde durou pouco – Karl Hansen empatou o jogo na etapa final. Quando a derrota parecia iminente, Liminha resolveu chamar a responsabilidade e, em jogada individual, driblou dois marcadores e o goleiro Viola, estufando as redes italianas. O Palmeiras tornava-se, assim, o primeiro campeão do mundo na história do futebol.

18/07/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Final (primeiro jogo)

Palmeiras 1x0 Juventus
Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
Juiz: Franz Grill (Áustria)
Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Lima, Ponce de León, Liminha, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon.
Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Piccinini; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Vivole e Praest. Técnico: Jesse Carver
Gols: Rodrigues (20’ do 1ºT)

22/07/1951
Mundial Interclubes de 1951 – Final (segundo jogo)

Palmeiras 2x2 Juventus
Estádio do Maracanã. Rio de Janeiro-RJ
Juiz: Gabriel Tordjan (França)
Palmeiras: Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luiz Villa e Dema; Lima, Ponce de León (Canhotinho), Liminha, Jair Rosa Pinto e Rodrigues. Técnico: Ventura Cambon
Juventus: Viola; Bertucceli e Manente; Mari, Parola e Bizzoto; Muccinelli, Karl Hansen, Boniperti, Johan Hansen e Praest. Técnico: Jasse Carver
Gols: Praest (18’ do 1ºT), Rodrigues (2’ do 2ºT), Karl Hansen (18’ do 2ºT) e Liminha (32’ do 2ºT)

Depois do apito final, foi arquitetada uma grande festa para a equipe, que desfilou em carro aberto pela cidade carioca. Na chegada a São Paulo, a delegação foi recebida na Estação Roosevelt de trem por uma multidão de aproximadamente 1 milhão de pessoas, que acompanhou os campeões até o Estádio Palestra Itália.


A conquista foi histórica não só para a Sociedade Esportiva Palmeiras, mas para toda a nação brasileira, que ainda estava machucada e desiludida com o futebol por causa na inesperada derrota da Seleção na final da Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã, para o Uruguai. Foi o Palmeiras o responsável por devolver o sorriso ao rosto do torcedor brasileiro e contrapor o “complexo de vira-latas” criado por Nelson Rodrigues um ano antes.
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