05/07/2015

Diário de Bordo

Rua Belém - 1960 - Facebook/Memórias Paulistanas
Data estelar: 05.07.2015 - centésimo, octagésimo sexto dia, um domingo. 
Já nos primeiros indícios de luz percebemos que teríamos uma manhã fria e úmida, assim como foram o dia anterior e seu anterior, dias sem sal e sem açucar. 
Depois de navegarmos seis décadas do calendário terráqueo, por turbulentas regiões deste curioso planeta cor de anil, quando deixamos para trás nossa cidade natal, a cosmopolita São Paulo. 
Decidimos, minha amada esposa e eu nos transferirmos para a pequena e progressista cidade de Atibaia, 60 quilômetros do nosso ponto inicial. E é daqui que escrevo para saldar os homens e mulheres da Terra que por ventura estejam lendo essas minguadas linhas em algum canto do cosmos. 
Temos um laço de afeto com a Estância, há mais de trinta anos estelares, meu pai comprou uma gleba de terra num lugar chamado Jardim Imperial e construiu sua moradia onde depois alguns anos depois transferiu-se com minha mãe - de São Paulo seguiram para Atibaia, cansados de lá e esperançosos daqui. 
Sabia que em questão de tempo estaria eu fazendo a mesma viagem.  Assim como meu pai.
A gente sabe do futuro, a gente é que não quer falar sobre ele. 
Vida longa e próspera para todos daí, daqui e de lá. 
Bom dia!

31/05/2015

Foda meu! Épol ou Sansungue?

Tô nu barato de tê um aifoni seis da épol. Dus grandi ainda. Aquele que é cheio de gigabaiti. Parece que é Pluis. 
Qui seis acha? Qual é melhó pra céufi?
Tem um foda da sansungui que é curvadinho dos ladu. Já viu? Esse é bacana também. Maió chouzaço.
Pô meu, to na maió dúvida agora. Foda meu! 
Que caraiu é esse tal de rechitégui?

Colírio Moura Brasil - Celly Campello e Carlos José

Domingando

Desligando pra Curtir este admirável mundo antigo.

No meio do deserto há um monumento que impressiona todos
www.chiadomagazine.com 
A Arábia Saudita é conhecida por toda a história e cultura que tem. Território das primeiras civilizações, existem centenas de monumentos e marcos importantes para a história do mundo. 
Há um local que pela sua magnitude e beleza tem cativado muitos visitantes e levantado muitas questões. O túmulo Qasr al-Farid, que significa "castelo solitário", foi construído no século primeiro e fica localizado em Mada'in Saleh. 
Nesta zona existem centenas de construções idênticas, mas Qasr al-Farid é a maior e mais fascinante. Olhando para a estrutura faz lembrar a cidade antiga de Petra, que era a capital do reino dos Nabateus. Situada na segunda maior cidade do reino, Mada'in Saleh, esta construção é um túmulo cravado numa estrutura de pedra maciça. O túmulo ficou inacabado, mas devido a essa característica foi possível saber como eram construídos, sempre de cima para baixo. 
Quanto maior era o túmulo, mais importante era pessoa que lá seria sepultada. Apesar da antiguidade desta estrutura, o clima seco da região conservou-a. Veja as fotos da imponência deste túmulo.






23/05/2015

Este mundo da injustiça globalizada

Texto lido na cerimônia de encerramento do Fórum Social Mundial 2002
José Saramago - 18.03.2002 
  
Começarei por vos contar em brevíssimas palavras um facto notável da vida camponesa ocorrido numa aldeia dos arredores de Florença há mais de quatrocentos anos. Permito-me pedir toda a vossa atenção para este importante acontecimento histórico porque, ao contrário do que é corrente, a lição moral extraível do episódio não terá de esperar o fim do relato, saltar-vos-á ao rosto não tarda.
Estavam os habitantes nas suas casas ou a trabalhar nos cultivos, entregue cada um aos seus afazeres e cuidados, quando de súbito se ouviu soar o sino da igreja. Naqueles piedosos tempos (estamos a falar de algo sucedido no século XVI) os sinos tocavam várias vezes ao longo do dia, e por esse lado não deveria haver motivo de estranheza, porém aquele sino dobrava melancolicamente a finados, e isso, sim, era surpreendente, uma vez que não constava que alguém da aldeia se encontrasse em vias de passamento. Saíram portanto as mulheres à rua, juntaram-se as crianças, deixaram os homens as lavouras e os mesteres, e em pouco tempo estavam todos reunidos no adro da igreja, à espera de que lhes dissessem a quem deveriam chorar. O sino ainda tocou por alguns minutos mais, finalmente calou-se. Instantes depois a porta abria-se e um camponês aparecia no limiar. Ora, não sendo este o homem encarregado de tocar habitualmente o sino, compreende-se que os vizinhos lhe tenham perguntado onde se encontrava o sineiro e quem era o morto. "O sineiro não está aqui, eu é que toquei o sino", foi a resposta do camponês. "Mas então não morreu ninguém?", tornaram os vizinhos, e o camponês respondeu: "Ninguém que tivesse nome e figura de gente, toquei a finados pela Justiça porque a Justiça está morta." 
Que acontecera? Acontecera que o ganancioso senhor do lugar (algum conde ou marquês sem escrúpulos) andava desde há tempos a mudar de sítio os marcos das estremas das suas terras, metendo-os para dentro da pequena parcela do camponês, mais e mais reduzida a cada avançada. O lesado tinha começado por protestar e reclamar, depois implorou compaixão, e finalmente resolveu queixar-se às autoridades e acolher-se à protecção da justiça. Tudo sem resultado, a expoliação continuou. Então,
desesperado, decidiu anunciar urbi et orbi (uma aldeia tem o exacto tamanho do mundo para quem sempre nela viveu) a morte da Justiça. Talvez pensasse que o seu gesto de exaltada indignação lograria comover e pôr a tocar todos os sinos do universo, sem diferença de raças, credos e costumes, que todos eles, sem excepção, o acompanhariam no dobre a finados pela morte da Justiça, e não se calariam até que ela fosse ressuscitada. Um clamor tal, voando de casa em casa, de aldeia em aldeia, de cidade em cidade, saltando por cima das fronteiras, lançando pontes sonoras sobre os rios e os mares, por força haveria de acordar o mundo adormecido... Não sei o que sucedeu depois, não sei se o braço popular foi ajudar o camponês a repor as estremas nos seus sítios, ou se os vizinhos, uma vez que a Justiça havia sido declarada defunta, regressaram resignados, de cabeça baixa e alma sucumbida, à triste vida de todos os dias. É bem certo que a História nunca nos conta tudo...
 
Suponho ter sido esta a única vez que, em qualquer parte do mundo, um sino, uma campânula de bronze inerte, depois de tanto haver dobrado pela morte de seres humanos, chorou a morte da Justiça. Nunca mais tornou a ouvir-se aquele fúnebre dobre da aldeia de Florença, mas a Justiça continuou e continua a morrer todos os dias. Agora mesmo, neste instante em que vos falo, longe ou aqui ao lado, à porta da nossa casa, alguém a está matando. De cada vez que morre, é como se afinal nunca tivesse existido para aqueles que nela tinham confiado, para aqueles que dela esperavam o que da Justiça todos temos o direito de esperar: justiça, simplesmente justiça. Não a que se envolve em túnicas de teatro e nos confunde com flores de vã retórica judicialista, não a que permitiu que lhe vendassem os olhos e viciassem os pesos da balança, não a da espada que sempre corta mais para um lado que para o outro, mas uma justiça pedestre, uma justiça companheira quotidiana dos homens, uma justiça para quem o justo seria o mais exacto e rigoroso sinónimo do ético, uma justiça que chegasse a ser tão indispensável à felicidade do espírito como indispensável à vida é o alimento do corpo. Uma justiça exercida pelos tribunais, sem dúvida, sempre que a isso os determinasse a lei, mas também, e sobretudo, uma justiça que fosse a emanação espontânea da própria sociedade em acção, uma justiça em que se manifestasse, como um iniludível imperativo moral, o respeito pelo direito a ser que a cada ser humano assiste. 
Mas os sinos, felizmente, não tocavam apenas para planger aqueles que morriam. Tocavam também para assinalar as horas do dia e da noite, para chamar à festa ou à devoção dos crentes, e houve um tempo, não tão distante assim, em que o seu toque a rebate era o que convocava o povo para acudir às catástrofes, às cheias e aos incêndios, aos desastres, a qualquer perigo que ameaçasse a comunidade. Hoje, o papel social dos sinos encontra-se limitado ao cumprimento das obrigações rituais e o gesto iluminado do camponês de Florença seria visto como obra desatinada de um louco ou, pior ainda, como simples caso de polícia. Outros e diferentes são os sinos que hoje defendem e afirmam a possibilidade, enfim, da implantação no mundo daquela justiça companheira dos homens, daquela justiça que é condição da felicidade do espírito e até, por mais surpreendente que possa parecer-nos, condição do próprio alimento do corpo. Houvesse essa justiça, e nem um só ser humano mais morreria de fome ou de tantas doenças que são curáveis para uns, mas não para outros. Houvesse essa justiça, e a existência não seria, para mais de metade da humanidade, a condenação terrível que objectivamente tem sido. 
Esses sinos novos cuja voz se vem espalhando, cada vez mais forte, por todo o mundo são os múltiplos movimentos de resistência e acção social que pugnam pelo estabelecimento de uma nova justiça distributiva e comutativa que todos os seres humanos possam chegar a reconhecer como intrinsecamente sua, uma justiça protectora da liberdade e do direito, não de nenhuma das suas negações. Tenho dito que para essa justiça dispomos já de um código de aplicação prática ao alcance de qualquer compreensão, e que esse código se encontra consignado desde há cinquenta anos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, aquelas trinta direitos básicos e essenciais de que hoje só vagamente se fala, quando não sistematicamente se silencia, mais desprezados e conspurcados nestes dias do que o foram, há quatrocentos anos, a propriedade e a liberdade do camponês de Florença. E também tenho dito que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, tal qual se encontra redigida, e sem necessidade de lhe alterar sequer uma vírgula, poderia substituir com vantagem, no que respeita a rectidão de princípios e clareza de objectivos, os programas de todos os partidos políticos do orbe, nomeadamente os da denominada esquerda, anquilosados em fórmulas caducas, alheios ou impotentes para enfrentar as realidades brutais do mundo actual, fechando os olhos às já evidentes e temíveis ameaças que o futuro está a preparar contra aquela dignidade racional e sensível que imaginávamos ser a suprema aspiração dos seres humanos. 
Acrescentarei que as mesmas razões que me levam a referir-me nestes termos aos partidos políticos em geral, as aplico por igual aos sindicatos locais, e, em consequência, ao movimento sindical internacional no seu conjunto. De um modo consciente ou inconsciente, o dócil e burocratizado sindicalismo que hoje nos resta é, em grande parte, responsável pelo adormecimento social decorrente do processo de globalização económica em curso. Não me alegra dizê-lo, mas não poderia calá-lo. E, ainda, se me autorizam a acrescentar algo da minha lavra particular às fábulas de La Fontaine, então direi que, se não interviermos a tempo, isto é, já, o rato dos direitos humanos acabará por ser implacavelmente devorado pelo gato da globalização económica. 
E a democracia, esse milenário invento de uns atenienses ingénuos para quem ela significaria, nas circunstâncias sociais e políticas específicas do tempo, e segundo a expressão consagrada, um governo do povo, pelo povo e para o povo? Ouço muitas vezes argumentar a pessoas sinceras, de boa fé comprovada, e a outras que essa aparência de benignidade têm interesse em simular, que, sendo embora uma evidência indesmentível o estado de catástrofe em que se encontra a maior parte do planeta, será precisamente no quadro de um sistema democrático geral que mais probabilidades teremos de chegar à consecução plena ou ao menos satisfatória dos direitos humanos. Nada mais certo, sob condição de que fosse efectivamente democrático o sistema de governo e de gestão da sociedade a que actualmente vimos chamando democracia. E não o é. É verdade que podemos votar, é verdade que podemos, por delegação da partícula de soberania que se nos reconhece como cidadãos eleitores e normalmente por via partidária, escolher os nossos representantes no parlamento, é verdade, enfim, que da relevância numérica de tais representações e das combinações políticas que a necessidade de uma maioria vier a impor sempre resultará um governo. Tudo isto é verdade, mas é igualmente verdade que a possibilidade de acção democrática começa e acaba aí.  
O eleitor poderá tirar do poder um governo que não lhe agrade e pôr outro no seu lugar, mas o seu voto não teve, não tem, nem nunca terá qualquer efeito visível sobre a única e real força que governa o mundo, e portanto o seu país e a sua pessoa: refiro-me, obviamente, ao poder económico, em particular à parte dele, sempre em aumento, gerida pelas empresas multinacionais de acordo com estratégias de domínio que nada têm que ver com aquele bem comum a que, por definição, a democracia aspira. Todos sabemos que é assim, e contudo, por uma espécie de automatismo verbal e mental que não nos deixa ver a nudez crua dos factos, continuamos a falar de democracia como se se tratasse de algo vivo e actuante, quando dela pouco mais nos resta que um conjunto de formas ritualizadas, os inócuos passes e os gestos de uma espécie de missa laica. E não nos apercebemos, como se para isso não bastasse ter olhos, de que os nossos governos, esses que para o bem ou para o mal elegemos e de que somos portanto os primeiros responsáveis, se vão tornando cada vez mais em meros "comissários políticos" do poder económico, com a objectiva missão de produzirem as leis que a esse poder convierem, para depois, envolvidas no açúcares da publicidade oficial e particular interessada, serem introduzidas no mercado social sem suscitar demasiados protestos, salvo os certas conhecidas minorias eternamente descontentes... 
Que fazer? Da literatura à ecologia, da fuga das galáxias ao efeito de estufa, do tratamento do lixo às congestões do tráfego, tudo se discute neste nosso mundo. Mas o sistema democrático, como se de um dado definitivamente adquirido se tratasse, intocável por natureza até à consumação dos séculos, esse não se discute. Ora, se não estou em erro, se não sou incapaz de somar dois e dois, então, entre tantas outras discussões necessárias ou indispensáveis, é urgente, antes que se nos torne demasiado tarde, promover um debate mundial sobre a democracia e as causas da sua decadência, sobre a intervenção dos cidadãos na vida política e social, sobre as relações entre os Estados e o poder económico e financeiro mundial, sobre aquilo que afirma e aquilo que nega a democracia, sobre o direito à felicidade e a uma existência digna, sobre as misérias e as esperanças da humanidade, ou, falando com menos retórica, dos simples seres humanos que a compõem, um por um e todos juntos. Não há pior engano do que o daquele que a si mesmo se engana. E assim é que estamos vivendo. 
Não tenho mais que dizer. Ou sim, apenas uma palavra para pedir um instante de silêncio. O camponês de Florença acaba de subir uma vez mais à torre da igreja, o sino vai tocar. Ouçamo-lo, por favor.

100 Anos

100 anos de contexto: não se trata de Guerra de Classes 
Por Conrado Cacace, do Resistência 1942UOL - 15 de maio de 2015

O futebol, em seus primórdios, era um esporte amador praticado por membros de clubes de elite, que tinham outras atividades. As primeiras competições tomaram forma; a classe operária formou seus clubes e a popularização foi rápida. Em algum ponto da História, os jogadores passaram a receber gratificações pelas partidas disputadas; ingressos passaram a ser cobrados para que o público assistisse aos jogos.

Com o interesse popular cada vez maior, torneios de seleções foram organizados. Os clubes excursionavam por países da América do Sul. O intercâmbio proporcionou as primeiras transferências de jogadores entre os países, ao mesmo tempo em que o profissionalismo foi instituído no esporte, por pressão dos próprios atletas, que se sentiam explorados. Formou-se, naturalmente, um mercado. E o dinheiro que circulava vinha da cobrança de ingressos.

As tensões políticas globais seguraram a evolução do mercado do futebol por cerca de 15 anos, mas o rádio popularizava o esporte cada vez mais. Quanto mais interesse, mais dinheiro. Os preços dos ingressos, entretanto, seguiam populares: a fórmula para sustentar os custos crescentes foi aumentar a capacidade dos estádios. Vieram o Pacaembu em 1940, o gigantesco Maracanã em 1950, e seguiram-se tantos outros estádios construídos Brasil afora com dinheiro público nas décadas seguintes.

Foi a época de ouro do futebol brasileiro. Entre as décadas de 50 e 70, raros eram os jogadores que se deixavam seduzir pela aventura no exterior; os meios de transporte não eram baratos, os meios de comunicação se limitavam às fronteiras nacionais e as barreiras entre os mercados ainda eram altas. O Brasil desenvolveu uma técnica natural de jogar bola; os melhores jogadores permaneciam por aqui mesmo e o país tinha o melhor futebol do mundo. As gestões amadoras ainda eram suficientes para manter esse mercado, ainda simples, funcionando.

Isso seguiu até o início da década de 80. Foi quando o primeiro grande êxodo de craques aconteceu, impulsionado pela evolução econômica dos mercados de futebol europeus, sobretudo a Itália. A Seleção de 82 tinha seus maiores destaques jogando em times do exterior. E a tendência só aumentou nas Copas seguintes. Os clubes brasileiros já não tinham como competir economicamente com os de fora. E os métodos de gestão de nossos clubes ficaram obsoletos. Vivemos um período de adaptação ao novo cenário.

Surgiram os primeiros patrocínios de camisa, ainda modestos. A TV pagava uma ninharia e os parcos recursos não era repassado aos clubes, apenas cobria o custo da organização. O preço dos ingressos subiu, a média de público caiu vertiginosamente. O público brasileiro só comparecia aos estádios nas fases finais, com grandes jogos proporcionados por fórmulas mirabolantes. O calendário se dividia em jogos para 2 a 5 mil pessoas e megaclássicos para mais de 100 mil, cujo ápice foi a primeira metade da década de 90. Os estádios comportavam quantas pessoas quisessem entrar, os ingressos eram infinitos. Até que houve cachoeira humana na final do Brasileiro de 1992 no Maracanã.
 
Para evitar maiores tragédias, os estádios foram limitados. Já enfiaram mais de 70 mil no Pacaembu, sem o tobogã. No velho Palestra, 40 mil. E no Morumbi, mais de 120 mil. Quase o dobro dos limites de capacidade impostos. Caiu a lotação, caiu a renda. Surgiram novos mercados, como o Japão. O êxodo de atletas para o exterior, em busca de maiores salários, se intensificou. Quem quisesse ter recursos para pagar por bons jogadores teria que desenvolver novos modelos de receita, e para isso, modernizar a gestão.  
O contexto que envolve a atual política de preços tem mais de cem anos, em evolução constante.O contexto de uma questão tão complexa não pode ser uma partida de futebol isolada. O que acontece hoje é resultado de mais de cem anos da existência de futebol no país, inserida em outro cenário mais complicado ainda, que envolve economia e política. A História do Futebol Brasileiro no Século 20, do ponto de vista estrutural, foi pretensiosamente resumida nos sete parágrafos acima, para tentar facilitar a leitura deste ponto de vista: saímos do amadorismo puro para modelos modernos de gestão. De forma análoga, o futebol em outros países também passou por seus acertos em meio a uma série de desacertos – cada um com sua História particular. Observando o processo como um todo, fica mais fácil perceber que o futebol, que hoje é um mercado, globalizado pelo desenvolvimento das comunicações e dos meios de transporte, ainda está vivendo um processo de ajuste.

É óbvio que surge um conflito humano diante de uma diferença tão grande entre o estado inicial e o atual. A paixão que moveu o esporte por muito tempo briga com a frieza do dinheiro. As técnicas de espetacularização, que funcionam bem nos esportes americanos mas que nem sempre casam com a cultura do futebol, são usadas para atender à expectativa deste novo público, já que as bilheterias ainda são uma fatia importante do modelo de receita da maioria dos clubes. Por enquanto, só os maiores expoentes das grandes economias podem se dar ao luxo de abrir mão de cobrar valores pouco acessíveis pelos ingressos por terem construído ao longo dos últimos anos um modelo de gestão sólido que já anda sozinho – por exemplo, Bayern e Dortmund.

O Palmeiras vive esse processo de ajuste. Neste ponto da História, é impensável abrir mão do potencial de receita do Allianz Parque. Se há 30 mil pessoas dispostas a pagar valores acima do que a média da torcida pode, é esse o patamar a ser praticado. Nosso clube viveu por anos sob gestões paupérrimas, muito abaixo das de nossos principais rivais. Isso explica o rendimento tão pobre dentro de campo nas últimas décadas. Foi o preço de ser o mais amador num ambiente cada vez mais profissional.

A casa está sendo arrumada, num passo veloz, graças a uma convergência de ações relacionadas direta ou indiretamente ao Allianz Parque. É possível, dentro de alguns anos, que o clube goze de tal saúde financeira que vai poder voltar a conciliar a raiz popular do esporte com a competitividade do mercado, e poderá então abrir mão da receita potencial das bilheterias em nome da reinclusão das classes menos favorecidas nas arquibancadas, sem perder competitividade econômica.

Neste momento da História em que o clube está optando por usar o potencial econômico da fatia mais abastada da torcida para auxiliar nesse processo de reconstrução, há o risco de transformar o ambiente do estádio em algo frio e sem graça, se essa tendência durar muito. Algumas aberrações acontecem, como os bastões de bate-bate e o telão que fecha closes em torcedores aos 40 do segundo tempo – e os caras acenam e sorriem, quando o momento é de absoluta tensão, pelo menos aos mais afeitos à real atmosfera de um estádio de futebol. Alguns erros são gritantes.

Aparentemente estamos sob o comando de pessoas competentes, que aprendem com seus equívocos. Podemos verificar essa tendência tanto na gestão do futebol, a parte mais aparente, como em detalhes como o preenchimento dos setores laterais do Allianz Parque. Hoje temos um processo de precificação atuante no clube. Os setores Leste e Oeste, antes vazios, já enchem. A estratégia de manter fechado o setor superior em jogos menores está se mostrando acertada, e preços mais acessíveis já puderam ser praticados num jogo de apelo menor.

Não existe um processo de elitização deliberado, muito menos uma "guerra de classes". Existe um movimento gerencial, que eventualmente tem seus efeitos colaterais indesejáveis, mas nem de longe pode ser associado a um desejo higienista ou a uma cultura de ódio. Cada coisa em seu lugar.

O Palmeiras está tentando voltar a dar orgulho a sua imensa torcida, a ser competitivo, está tirando a diferença construída pelos rivais nas últimas décadas, e que tende a ser maior ainda com os recentes e desastrosos acordos com a televisão, firmados há poucos anos. Isso requer sacrifícios – e assumir riscos. Pode até haver outra fórmula para se manter um alto nível de competitividade abrindo mão da hoje importante receita das bilheterias – o espaço dos comentários é todo de vocês.

Estamos inseridos num contexto histórico de mais de cem anos, sob um sistema econômico implacável, e enquanto a regra for essa, não existe mágica. Que o digam a Portuguesa e o Guarani. Mas ainda existe o futebol onde tudo se resolve dentro de campo e no qual o poder econômico não interfere. A várzea ainda pulsa. Cada um vive o futebol como seu coração permitir.