21/10/2013

A confiança.

Ando irritado, impaciente ao extremo. Intolerante, amargo e sem brilho. Preciso me acalmar para buscar mais confiança. Encher a cara não dá, não suporto beber pra ficar alterado. Pura ilusão, já bebi muito e sei bem o que é ser inconveniente. O dia seguinte é um porre. Beber somente até onde o prazer permite e coisa leve, bem suave. Por isso, viva os sucos e as águas minerais com gás, gelo e limão.Não uso drogas. Por elas em si e pelos traficantes. Esses eu queria vê-los mortos, ardendo vivos até o último suspiro.Deixei de acreditar em Deus. Nesse mito que os hipócritas, os crentes verdadeiros e os idiotas vangloriam. Me irritam os crentes nos seus acessos, os hipócritas, falsos como notas de dois e meio e os idiotas que nascem sem ideias. Joguei o crucifixo fora um tempo atrás. Antes tarde do que nunca, pois me sentia um pateta carregando aquela coisa no pescoço por anos e mais anos. 
A confiança está dentro da gente. Se manifesta de tempo em tempo ou não.  
De resto, tudo é balela.  

12/10/2013

Deus e o Diabo na Terra da Garoa.


Nome de batismo: Deus. 
Nome completo no registro: Deus Amado do Céu. 

O Do Céu, Deus herdou do pai que se chamava Angelo, um devoto de São Vito que só não foi padre porque conheceu Maria, mãe de Deus e que jamais perdera uma missa aos domingos. 

Angelo recebeu o sobrenome do avô, Giacomo Santicielo numa provável desdenhagem do escrivão do 8˚ Cartório de Registro Civil que deliberadamente traduziu o Santicielo para um sem sentido, Do Céu, não se importando com a história e nem tampouco com as tradições que os nomes de família carregam. Muito menos ele teve consideração com o imigrante recém chegado e que mal falava a língua verde-amarela. Tempos pré-nacionalistas aqueles.

__ Dopo tutto, perché per lavarsi i denti? Io non mangio merda!

Giacomo Santicielo, um homem de estatura mediana era um rechonchudo espalhafatoso que em nada lembrava um beato, fazia o tipo do bonachão engraçado. Diferente da mulher, Dona Santina, uma italiana de Salerno que jamais faltou a uma missa aos domingos, quando fazia com que a prole obediente a seguissem - Angelo, Giuseppe, Pio e Giovanna.
O vinho e a polenta eram fartos num dos casarões mais antigos da boa e velha Mooca. Ao seu modo os imigrantes irradiavam felicidade.

Deus do Céu, filho de Angelo e Maria e neto de Giacomo e Santina cresceu ouvindo seu nome em vão. Nas manhãs, nas tardes e pelas noites era Deus pra todo lado.

Deus me ajude! Deus me proteja! Que Deus me perdoe. Dio mio. Deus, per favore. Deus, dai-me forças. Graças a Deus! 

Deus do Céu se confundia com o nome até descobrir que um outro Deus existia. Esse outro é que era o verdadeiro, um magnânimo e supremo. Vivia nas alturas mas estava em todos os lugares ao mesmo tempo e por não ter o que fazer, pois o mundo Ele já havia criado, agora passava as horas observando as pessoas, seus filhos, até os pensamentos, Dele não escapavam.
Segundo as palavras do pai, Deus lá de cima é poderoso demais e a Ele devemos nos entregar, de corpo e alma, seguindo seus desígnios sem contestação. Jamais confrontá-lo, pois a desobediência levaria o infiel à pena capital.
O menino Deus compreendeu que o outro Deus era mais amado e mais forte que ele, querido e temido ao mesmo tempo e de certo, pelo que diziam, absolutamente centralizador e implacável, mandava em tudo, olhava tudo e todos o tempo todo e ai daquele que não seguisse sua ordem, este teria o inferno como destino e por lá arderia em chamas por toda a eternidade. Um destino muito cruel, portanto.

A ideia do bem e do mal convivendo numa só entidade confundia o garoto. Ele se perguntava todas as noites ao deitar-se, logo após as orações, como poderia existir alguém tão bom e ao mesmo tempo tão intransigente a ponto de querer vingar-se de quem o contradissesse.
Deus do Céu dormia resignando-se ao perdão pelos pensamentos mais do que pagãos.
Acostumou-se com a ideia de ser um cover, um Deus de mentira, um do tipo “me engana que eu gosto”, pois o outro, o poderoso, esse que era o de verdade.

Com este nome a infância de Deus Amado do Céu não foi nada fácil. Não existia o termo bullying, mas ele já sofria com os assédios jocosos da turma. Na escola, na rua e por onde fosse, cobriam-lhe de gozações. Deus sentia-se intimidado e ainda, sabendo que estava sendo observado pelo dono da marca, nem ameaçava reagir. O que Ele pensaria? Era o destino de um filho de beatos.

Aos 10 anos Deus apaixonou-se pela quarta vez. Todo ano ele se deixava levar pela mesma coisa, envolvia-se pela eterna carência. Deus era um romântico inveterado.
Dessa vez foi pela professora do quarto ano do grupo escolar, Dona Esmeralda, que não era tão bonita assim, aliás, ela, aos quarenta e poucos, tinha uma cara de brava que assustava muita gente, mas em compensação possuía um par de seios tão grandes, tão volumosos que deixavam Deus do Céu mais confuso do que normalmente era. Para ele, Deus estava no céu e Esmeralda na terra. O resto comia-se com salame.
Pelas manhãs, logo no Bom Dia classe! Como passaram a noite, dormiram bem? Prontos para a prova oral? 
A resposta vinha automática num canto gregoriano: Sim professora, dormimos bem! 
Deus se derretia com a voz de Dona Esmeralda. Era o único que não respondia em coro. Em sua cabeça a frase chegava veloz, tal como um tigre faminto correndo atrás de um veado amedrontado pelas savanas. 

...Dormi. Mas se tivesse dormido entre seus peitos, sua gostosa, teria sido muito melhor

Dona Esmeralda fez a cabeça de Deus e nunca se deu conta disso, pelo contrário, ela acreditava tratar-se somente de um retardado. Ainda mais com um nome desses:

__ Deus do Céu, isso é nome? Que coisa mais patética.

E assim foi durante o ano letivo de 1964. Deus do Céu carregando o peso do amor secreto e cheio de ideias progressistas que provocavam aparecimentos constrangedores de espinhas pelo rosto. 
Tal como foram os letivos anteriores, talvez menos intensos, porém, cáusticos, cujas musas encarnavam as figuras de Dona Clarice - a professora do terceiro ano, Dona Ruth, a do segundo e de Liberta a mais nova dentre elas, sua primeira professora e primeira paixão.

Liberta foi quem ensinou Deus a escrever e ler o abecedário pela cartilha Caminho Suave. Letras maiúsculas e minúsculas, parágrafos, o C de cebola e o Z de zabumba e ainda foi ela quem conduziu Deus a dar as primeiras pedaladas na bicicleta que ganhara no natal e sem as rodinhas laterais, aquelas que servem de apoio aos equilibristas bêbados.

Além da escola, Liberta e Deus, por morarem na mesma rua, portanto, vizinhos, se viam sempre depois das aulas. 
Ela era a filha mais nova do Seu Luciano e de Dona Maria, os proprietários da casa onde Deus do Céu morava com os pais e irmãos.
Liberta fez com que Deus, aos sete anos de idade percebesse a diferença entre os gêneros masculino e feminino. Deus deu-se conta que era um homem e Liberta uma mulher. Certo que ainda dos pequenos, mas soube desde então que era totalmente masculino. Liberta mexia com os impulsos de uma criança e nem de longe imaginava tal processo.

Tempos depois, já com doze pra treze anos, Deus conheceu um novo amor. Ele havia se decepcionado com Liberta quando soube que esta iria se casar com Abílio, um playboy sem graça, de topete Elvis Presley que com sua lambreta branca de laterais vermelhas, fazia acrobacias farolentas pela rua. Deus o imitava com sua bicicleta e nem sempre se dava bem, os joelhos e os cotovelos viviam ralados.

Este novo amor, agora mais avassalador, vinha tirando o sono de Deus. Uma menina de cabelos escuros, magra e com o sorriso farto, dando sinais de adolescência e que não passava dos treze anos, entorpeceu o cérebro do rapazinho. 
Ela havia se mudado com a família há pouco para a rua Cônego José Norberto. Os pais, um irmão mais novo e ela ocuparam a casa amarela recém construída que ficava quase de esquina, bem do lado oposto onde Liberta morava. A construção era tida na vizinhança como a mais bonita da rua.
Deus achava estranho o fato do pai ser um japonês. Pais não costumam ter olhos puxados e cabelos espetados que nem Glostora fixava, ele pensava. E ela não demonstrava ter traços de origens nipônicas, era tudo muito estranho aquilo. 
O japonês tinha um tipo sisudo, meio fechadão e só falava baixo e usava frases curtas quando se dirigia a alguém. Olhava de rabo de olho e raramente sorria. 
Ele tinha um defeito na perna esquerda que o fazia caminhar de forma engraçada, arrastava a perna e em seguida a jogava pelo ar até cair ao chão, lembrando um “deixa que eu chuto”. 
O tal japonês nunca soube, mas ele era alvo das chacotas da molecada e até dos adultos.

Também estranha era o jeito da mãe. Uma espanhola truculenta, gorda e com os cabelos negros que viviam presos por um coque. Parecia uma chaminé.
Seu nome era Conchita e isso soava a Deus como nome de personagem de filme. Era sem dúvida bem esquisitona essa Dona Conchita. 
Usava vestidos estampados e bem coloridos quase sempre e em dias de chuva, alternava para vestimentas pretas, num luto execrável. 
Falava tão alto que preocupava quem estivesse por perto. Cada vez que abria a boca para explicar alguma coisa, parecia que estava brigando com a pessoa com quem conversava.

Deus do Céu soube dos nomes deles logo nos primeiros dias. Seu Tanaka, Dona Conchita e do irmãozinho fedelho de 7 anos, Demétrios. Esse menino era meio diferente, um tanto quanto delicado e só olhava para os outros com as mãos na cintura. 
Deus soube dos seus nomes pelas conversas que ouvia em casa, mas o da menina, da moreninha que perturbava seu coração, não conseguia descobrir de jeito nenhum.
Podia ser Rosa, Vera ou Maria Aparecida, Cidinha. Quem sabe Nancy ou Miriam, Dirce ou até Terezinha. Ele não se atrevia a perguntar, poderiam desconfiar do seu súbito interesse. 

Tempos depois, Deus do Céu descobriu, meio que por acaso, logo quando entrava em casa chegando da escola, quando viu e ouviu o fedelho correndo pelas ruas, gritando e fugindo da mãe desesperadamente. 

__ Foi a Lucia, mãe, não fui eu! Juro, juro mesmo! Foi a minha irmã!

Pronto, finalmente ela tinha um nome e este soou aos ouvidos de Deus como música tocada em igrejas em dias de casamento. Um nome de princesa, de donzela, que, presa, aguardava aflita a salvação por um príncipe, no caso ele, montado em um enorme cavalo branco. 
Somente depois de quase nove meses é que Deus pôde chama-la pelo verdadeiro nome em seus sonhos e não mais por um outro imaginário. Deus aboliu oTânia para sempre.

Deus, além de um romântico inveterado mostrava-se bastante criativo.

Convicto de ser a personificação da mentira, certo de que por toda a vida carregaria a cruz de ser um falso Deus e que seria eternamente o negativo de algo tão positivo, Deus do Céu resignou-se e seguiu pela vida de cabeça baixa na paz do todo poderoso. Agora mais apaixonado que nunca.

As piadas não mais espantariam seu sono e nem a missa dos domingos ele não mais as veria como um martírio obrigatório. Pelo contrário, essas se tornariam esperadas com ansiedade por toda a semana, exclusivamente pela oportunidade de encontrar-se com Lucia. 
Dona Conchita também mostrava-se uma temente fervorosa e fazia dos filhos seus discípulos. 
O pequeno Demétrios e Lucia acompanhavam a mãe na liturgia sempre bem alinhados. Ele com o terninho cáqui de calças curtas, camisa branca engomada, gravatinha borboleta e sapatos bem engraxados e ela num vestido rosa com leves estampas verdes em forma de flores, com um laço branco prendendo os cabelos e sapatos também brancos. Eram os uniformes dos domingos para que, religiosamente, pudessem mostrar a língua ao padre, enquanto que o pai mantinha-se às tradições, rogando os sinos e as fragrâncias de ervas finas ao Buda.

Os domingos eram dias de missas, sinos e de Lucia ficar mais próxima de Deus. 
Melhores ainda eram aqueles quando, após às cerimônias, as mães convidavam o padre para o almoço. 
Era uma festa sem fim. Dividiam o macarrão, a paela e o vinho, sem falar do arroz branco para o japonês manco. Todos brincavam e cantavam no quintal da família Do Céu - os brasileiros, o japonês, a espanhola, o padre e os italianos.

A felicidade era eterna enquanto durou. Os Do Céu mudaram-se para um outro bairro no ano seguinte onde Seu Angelo contruíu a própria casa. Dali em diante não mais pagariam aluguel. Graças a Deus!
Deus amaldiçoou os pais, os filhos e os espíritos nada santos. Rogou pragas das mais infames. Xingou a Virgem, os avós, as professoras e esbravejou palavrões de toda natureza. Mas, impotente diante da situação, mudou-se calado, triste, longe de Lucia e jamais a veria.

“Deus escreve certo por linhas tortas, meu filho” 

Deus do Céu lembrou-se da frase que desde pequeno ouvia do pai e com ela buscou a aceitação. E mais uma vez as professoras poderiam ajuda-lo.
Porém, parecia que nada mais fazia Deus sentir-se feliz. Ninguém mais ocuparia seu coração. Viveria até o último segundo da vida num completo celibato. Depois de Lucia não existiria mais ninguém.

Com quatorze anos, ainda amargurado, Deus pensou que não restaria outra alternativa senão concordar com os anseios dos pais. Atenderia seus desejos e seguiria a vida num seminário. Se tornaria um padre, um frei ou um cônego. Quem sabe com uma forcinha lá de cima, Deus não seria um bispo, um cardeal e porque não, um papa. 

__ Já pensou?  Papa Deus do Céu! Minha nossa, um brasileiro, neto de italianos no Vaticano e palmeirense ainda por cima! Que orgulho você daria aos seus pais, meu filho.  

Teria ele a vocação? Não, de certo que não, nenhuma. A vida eclesiástica, a Deus do Céu parecia coisa do capeta. Não tinha o menor interesse nas questões da igreja. Deus gostava mesmo é das mulheres. Nasceu homem e ninguém o transformaria num sem-sexo e definitivamente abandonou a ideia.

Anos depois, após outras tantas desilusões (Maria Angélica, Cleidinha, Cida, Lourdinha, Marta, Ivone), Deus conheceu Deusa. 
Deusa Maria de Jesus. Uma jovem de vinte e quatro anos, linda, de cabelos lisos soltos pelas costas até a cintura. Toda delicada, de boa formação e com atributos físicos que nem mesmo os vestidos mais comportados escondiam a leveza de seu corpo. Deusa deixou Deus atordoado. 

Esta sim, seria a derradeira, a imaculada a ser maculada por ele, a eterna, a mais que mulher de sua vida. Consagrou Deus do Céu na convicção da constatação.

Deus Amado do Céu agora com vinte e oito anos, sentia-se um homem feito, mais maduro e escolado pela vida.
A morte prematura dos pais e dos irmãos num grave acidente de ônibus na Via Dutra, cinco anos antes, quando estes retornavam de Aparecida num feriado de 12 de Outubro, deixaram Deus mais cético do que nunca. 
Agora sim é que Deus tinha motivos para não acreditar em divindade alguma. 

Vão todos pra aquele lugar!  

Passou a beber, fumar maconha e traficar cocaína e pedras de crack. Tudo num esquema muito seguro garantido pelo delegado da seccional. 
Mas Deus sentia-se mal. Conheceu a solidão, a amargura e o medo. Vivia pelas sarjetas da vida, pelos bares, pelas madrugadas. Um boêmio sem rumo cercado de prostitutas. Deus tornou-se a própria escória humana.

No entanto, quando conheceu Deusa tudo mudou. Deus voltou-se ao Deus verdadeiro e ao seu filho ilustre e reconheceu neles uma única entidade como afirmava o homem do terno azul. A fé o encontrou de forma abundante e libertadora. 
Ele tomou a igreja e bebeu da verdade, dizimou ao pastor e se redimiu de todo o mal. O capeta afugentou-se com o um covarde mesquinho.
Tornou-se um fervoroso. Deus do Céu agora fazia parte da mesma congregação de Deusa. Claro, era ela a verdadeira motivadora.

Tanto que fez que Deus do Céu cativou a confiança e o coração da moça, que de início mantinha-se arredia aos cortejos do galanteador, mas com o tempo acabou cedendo e ambos se casaram num sábado de lua cheia. 
Isso depois de três anos de namoro bem acompanhado e um ano e meio de um noivado mais rígido ainda. Uniram-se perante à graça do Senhor e com a benção do pastor, Edinelson e da bispa Selena, a união foi consagrada sob aplausos pela irmandade.

Deus do Céu encontrou finalmente a paz. 

Não, ainda não foi dessa vez.

Embora compreendesse Deus que Deusa fosse pura e casta e que essa castidade seria maculada somente nas núpcias do casal, ele se enganou redondamente. 
O susto não foi somente pela não castidade da moça, mas, principalmente, pelo conjunto das revelações que ela fez.

No quarto, depois de muito choro e gritarias, ela abriu o coração. Confessou ao marido o segredo que manteve por sete chaves pelos últimos anos. 

Deusa foi um dia Demétrios, um filho renegado de um japonês manco com uma espanhola doida que queria fazer dele a qualquer preço, uma freira. Mas ele sendo um menino, jamais a abnegada mãe alcançaria tal graça. 
Ela poderia ter dado esse o destino à filha mais velha, mas, segundo os desígnios supremos, era o menino quem deveria cumprir o mandato, o filho é quem deveria atender a ordem do Pai celestial.
A mãe então separada em casamento, fazia um pouco mais de um ano, decidiu por uma cirurgia transexual. 
Conheceu um médico, um paraguaio desnaturado que só pensava em dinheiro, que foa recomendado por uma pessoa amiga e que cobrou os olhos da cara, mas ele foi brilhante com o bisturi. Um notório escultor e remodelador de formas humanas.

Aos dezoito anos, já num corpo de mulher e agora como Deusa e não mais como Demétrios, ela fugiu do convento,ainda noviça, cansada da vida reclusa e dos constantes assédios da madre superiora. 
Entregou-se ao padeiro da vila mais próxima por um pedaço de pão e um jarro de água e com ele ficou até conhecer sua nova mãe, a de fé no presbitério. A que a encaminhou para uma nova verdade.

Deus Amado do Céu calou-se. Inibiu-se e conteve a explosão embriagado pelo ódio. Ficou perplexo, irado e muito confuso. Permaneceu mudo por mais meia hora, sem saber o que pensar e o que fazer. Buscou forças para ainda perguntar sobre o que teria acontecido com Lucia. 
Deusa explicou que nunca mais vira a irmã. Quando seus pais se separam ela optou por morar com o pai e soube depois que eles se mudaram para o Japão e que Lucia no ano seguinte havia se casado com um rico empresário japonês e que hoje vive na Califórnia com o marido.

__ E dona Conchita?

__ Continua a mesma, acho que pior. Soube que é a beata mais respeitada da paróquia. E agora só se veste de preto.

Deus do Céu pensou em fugir, sair correndo, gritar, chorar. Pensou em acabar com a vida de Deusa, com a vida da mãe de sangue dela e da mãe de fé também e porque não, com a sua própria. Basta, chega! 

“Deus escreve certo por linhas tortas, meu filho”

Deus sabia bem o que era resignação. Precisou dela novamente, talvez mais do que nunca neste momento tão inédito.

Não. Se esta seria a vontade de Deus, o verdadeiro, se é de seus sábios desígnios que devemos nos manter unidos, ela e eu, ela que já foi ele um dia, que assim seja. Não devemos questionar, devemos sim é aceitar as coisas como elas são. É isso e pronto.

Respirou fundo, ergueu-se e tomou a bíblia como toma o cavaleiro sua espada em tempos de guerra. Leu um versículo em voz baixa por alguns minutos e em seguida abriu a voz dirigindo-se a Deusa em tom solene:

__ Deusa, seremos um só corpo, um só sangue, um só destino. Deus e Deusa num composto de mentiras e verdades numa única entidade, pois, assim Ele nos fez, seguindo sua própria imagem. Deus sabe o que faz e você agora é minha mulher. Minha Deusinha gostosa.

Jogou a bíblia na cama e chamegou a esposinha: 

__ Vem cá, minha deliciazinha!

Deus Amado do Céu e Deusa Maria de Jesus do Céu, finalmente renderam-se aos aos prazeres da carne e dessa forma encontraram a paz para, agora sim, serem felizes para sempre. E foram, ao seu modo.

Não tiveram filhos, pois Deus, o poderoso, não queria que eles os tivessem. E quem haveria mais de querer, o capeta? Sai pra lá buzanfan. Coisa torta.

30/09/2013

Galinha Pintadinha

Pena a TV Cultura não exibir mais o TV COCORICÓ diário. Parece que agora é somente aos sábados e ainda só até dezembro. 
Devem ter suas razões. 
Em homenagem a esse fato lamentável mando um vídeo bem legalzinho também. 
A Galinha Pintadinha.

Bom outubro pra todo mundo. 

23/09/2013

Chácara dos Cabritos

Mando outro videozinho que postei no you tube. Fomos neste domingo almoçar num lugar super legal em Itaquaquecetuba, uns quarenta minutos da capital pela Ayrton Sena. É a Chácara das Cabritas e Cordeiros. O lugar é bacana, simples e a comida é muito boa. E ainda, nada caro.
O forte deles é o carneiro, mas tem de tudo, de frango a boi e até arroz e feijão.

Mesmo num domingo feião de chove e não molha, mas que molha, deu pra gente relaxar.



Se quiser ver os outros vídeos que postei, vai lá. No You Tube coloque meu nome e quando aparecer o meu canal, click e escolha.

Abraços.

22/09/2013

Preocupações burguesas, dissimuladas.


Nomes de pessoas caem em desuso e se tornam antiquados muito rapidamente. Isso é sabido, não fui eu que inventei essa estória, somente comento por aqui.

No mundo ocidental, principalmente, a validade das coisas é sempre para um período bem curto. Tudo tem que ser contemporâneo. Coisa velha é diferente, serve para ficar na estante como objeto de decoração, sugerindo que o dono tem gosto refinado.

Imaginem um adolescente em 2013, no auge da sua tenra idade com o nome de Arquibaldo, Evilásio, Antenor, Maria Estela, Conceição, Neide, por exemplo.

Difícil imaginar um bebezinho nascendo hoje recebendo dos pais orgulhosos o nome de Esperança.

__ Já sabem se vai ser menino ou menina? Menina?!?... que linda! Já escolheram o nome? 
__ Esperança ou Escolástica, estamos em dúvida.
Se a cena pudesse ser fotografada o espectador sentiria vergonha alheia.
__ Diferente, né?
Pessoalmente acho esses nomes muito bonitos, personalizados e cheios de charme. Adoro nomes assim, mas confesso que se tivesse um filho ou uma filha hoje, jamais colocaria um nome desses. Mesmo que quisesse, acho que não me deixariam. Danilo, Bruno, Guilherme, Sofia e até Helena seriam a bola da vez.

Onde estão os Joãos, Paulos, Josés e Franciscos? Marias, Sônias (com circunflexo) e Glórias? Voltarão, talvez, se a moda permitir.

Salvo, claro, àqueles que pensam de forma diferente. Os que tem um pezinho no universo riponga.

Preconceito? Acho que é. Mas pode ser medo. Sim, medo. Medo de que a criança possa sofrer bullyng na escola, na rua e até mesmo dentro de casa. Isso pelo menos até a maturidade dela, daí pra frente ela se vira. Mas até lá  o pau pode comer.
Pode ser também vergonha dos próprios pais em assumir a intenção de dar nomes singelos.

Conheço alguns Antonios que se rebatizaram de Tonys. Judiths e Joanas que insistem em se apresentar como Ju e assim vai.
Sem contar que a gente mesmo, numa situação dessas, teria algum receio de dizer o nome do próprio filho sabendo que a malhação viria em seguida.

Tenho duas tias com nomes bem personalizados - Assucena e Benvida. Quando nasceram lá pelos anos 40 do século XX meu avô teve essa liberdade e elas nunca sofreram qualquer tipo de gozação.

Parece que o mundo era mais livre antes, não existia com tamanha propriedade o conceito de ocidente e oriente, pelo menos da forma como conhecemos hoje e nem tampouco, do novo e do velho, menos ainda de fundamentalistas e coxinhas.

Cada um estava na sua.

Será que isso é evolução da espécie?

19/09/2013

Os 12 Condenados

Na boa! Alguém tem esperança no Brasil?

Oh! Sim, claro! Que pergunta mais sem sentido.

O Brasil é o país do futuro! No Brasil não tem guerra, não tem terremoto, o povo é pacífico, tem boa educação e bons serviços públicos. Tudo de primeira. 
O Brasil é penta-campeão, tem praias, mulher pra caramba. Tem cerveja gelada e com jeitinho, por aqui, tudo se resolve. 

Além do mais, Deus é brasileiro e vive entre nós curtindo um estado absolutamente democrático. 

Bla… bla… bla…

Dá vontade de vomitar. Mentiras safadas.

O sistema, meu camarada, é mais forte que esse Deus nacionalizado. Esse que foi inventado pelo próprio Sistema para ser como doses homeopáticas de cocaína que depois, mais em conta, virou crack.

Em junho passado até ameacei a acreditar numa revolução. Vi pessoas andando pelas ruas indignadas, berrando palavras de ordem. Pensei que as coisas pudessem mudar na essência, que nada. Fui idiota mais uma vez. Acho que pelo desejo de mudanças verdadeiras me deixei ser envolvido. Nem bem acabou a Copa das Confederações a turma esqueceu e os ratos voltaram à cena.

Não tem jeito.

Esperança mesmo era o nome da minha professora no 4˚ ano do Grupo Escolar Julio Ribeiro, lá na Vila Moraes. Ela sim, foi uma revolucionária. O resto é balela.

Aos doze condenados, meus parabéns! Agora vocês são ex. A Justiça brasileira, pressionada, reviu a decisão anterior. E só em 2014 vocês serão julgados novamente. 
Mas relaxem, tudo indica que serão absolvidos ou, quando muito, penalizados com distribuição de cestas básicas. O partido pagará a conta, não se preocupem.

Deverá acontecer imediatamente após a Copa do Mundo onde a seleção da TV Globo provavelmente será mais uma vez campeã. 

O país estará vivendo um período de muita felicidade e os brasileiros estarão na mesma de sempre - duros, espionados, mas felizes com seu Deus no coração e reelegendo todo mundo.

E viva o sistema! 

18/09/2013

O Conto que eu conto.

Não sei de onde sai tanta bobagem, mas de vez em quando me pego escrevendo compulsivamente, incontrolavelmente, abusivamente, que nem me lembro como e quando comecei. Só me deixo levar nessas horas, escrevo sem me prender a nada e exatamente o que me vem à cabeça. Sem censuras, sem nada.

Gosto de contos e através deles coloco algumas ideias e bem ou mal eles acabam saindo.
Pra quem tiver paciência, confesso que acho que eu mesmo não a teria, segue mais um deles. Ao menos guarde para ler mais tarde. 

O CONTO QUE EU CONTO
por Romeu Paris

O encontro foi marcado na terça-feira para a noite de sexta da mesma semana. E seria por volta das nove e meia. 
O local foi definido para o Restaurante Fuji-Katawa que fica na esquina da Avenida 11 de Agosto com a Rua Joaquim Pinto de Macedo na Penha, zona leste de São Paulo.

Por que lá? Porque foi sob a marquise do prédio que abriga este restaurante onde eles se conheceram três anos antes. 

O local pareceu aos dois uma zona neutra e assim pudessem esclarecer dúvidas de forma natural.

Explico.

Juliano e Fabiana se protegiam da chuva forte num início de noite de uma quarta-feira, logo após saírem do trabalho, quando ele tomava rumo de casa e ela da faculdade. 

Ele um homem de meia idade e ela uma estudante de zootecnia.

Depois de alguns olhares e sorrisos fortuitos se apresentaram e deram início a uma conversa que durou mais de uma hora. Parecia um encontro de velhos amigos tamanha a afinidade que despertou entre os dois. 

Tempos depois reconheceram o intenso magnetismo que os prendeu, desde o primeiro instante quando se viram. Coisa inexplicável para quem busca razão em tudo. Não tente.

Marcaram um encontro com a intenção de esclarecer de corpo e alma lavada, coisas que por telefone ou pelas mensagens diretas no Face não teriam condições de faze-las, para definitivamente dirimir as dúvidas e os mal entendidos que fustigaram mágoas um ao outro quando, num dia de outono, abruptamente, não se falaram mais. Isso depois dos nove meses de um quase namoro, pois de certo, quem os vissem conversando julgaria de pronto tratar-se de namorados em conluio. 

Quase um namoro, como assim? 

Explico novamente. 

Eles na verdade nunca foram namorados e nem se quer cogitavam qualquer coisa desse tipo, pelo menos da forma convencional, um namoro clássico como conhecemos. 
Consideravam-se bons amigos. Se diziam verdadeiros amigos, se protegiam de maior aproximação convencendo-se de que eram amigos de verdade, nada mais. 
Tornaram-se confidentes, cada vez mais um confiava no outro. Jamais trocaram abraços nos encontros diários lá no ponto do ônibus. No máximo se cumprimentavam e se despediam com beijinhos no rosto ou com apertos de mãos dos mais comuns. Escondiam sim, sem dúvida, olhares intensos que ameaçavam seus segredos inconfessáveis. 
De vez em quando, por duas ou três vezes, combinaram almoços, aliás, nesse mesmo restaurante. Afinal, que mal tem? Amigos também almoçam juntos.

Se queriam bem, isso era fato. Gostariam de se ver mais vezes, eles adoravam os encontros do final do dia, não escondiam isso um do outro e esses, aos poucos, deixavam de ser casuais. Contavam os minutos do dia para que a noitinha chegasse e sabiam que teriam pouco tempo, mas também sabiam que seriam plenos. 
Trocavam emails e  mensagens pelo celular ou eventualmente conversavam por telefone, uma ou outra vez, inclusive, nos finais de semana. Esses carregavam palavras de carinho de forma, pode-se dizer, codificada, atrás de cada frase, de cada palavra havia sempre muita ternura. 
Curtiam-se muito e nem compreendiam a razão para tanta curtição. Confundiam-se às vezes no afeto, ficavam constrangidos.
Talvez já escondessem de si mesmos sentimentos que lhes pareciam totalmente inconvenientes. O que o mundo iria dizer? Isso seria loucura!

As circunstâncias, essas eram bem claras a ambos, não deixavam nenhum rastro para qualquer possibilidade de uma aproximação mais íntima, mais profunda, uma daquelas totalmente reveladoras. Nem ele e nem ela se manifestavam por esse caminho, ao menos de forma declarada. Havia um bloqueio nesse sentido e, pior, ambos sabiam e bem o quanto eram comprometidos em suas vidas pessoais - ele casado e ela praticamente noiva.

De forma inesperada se afastaram e tudo indicava que seria para sempre, jamais se veriam novamente. Foi tudo muito rápido e incompreensível. Ficou uma lacuna no ar, um hiato. Uma brecha de tempo que nenhum deles conseguia esquecer.

Embora não tivessem trocado uma única palavra durante o tempo em que estiveram distantes, período que durou pouco mais de dois anos, mantiveram-se conectados no pensamento, somente eles sabiam disso e por um fio tênue, frágil como uma linha de algodão, ligados pela rede social. Não se atreveram depois da separação a bloquear a amizade virtual. Esse cordão precisava ser mantido.
A atração que sentiram um pelo outro realmente não tinha explicação, pareceu eterna, beirando a transgressão da ordem natural. Não havia lógica.

Ele tomou a iniciativa depois de muito relutar e provocou a moça utilizando-se do recurso tacanho do cutucar da rede social. 
Juliano sempre foi um sujeito criativo, mas para as questões inexplicáveis, nitidamente, revelava-se um zero a esquerda. Ele sempre foi assim.
Depois de cinco dias de notar que foi cutucada por Juliano, Fabiana finalmente tomou coragem e num ímpeto de despojo do orgulho ferido e da mágoa guardada pela sensação de abandono de dois anos antes, respondeu cutucando Juliano.

Algumas cutucadas se seguiram e essas se deram com intervalos cada vez menores. Pareciam se medir. Até quando ele tomou coragem e postou um OI na caixa de mensagem dela. 
A resposta não foi imediata como ele esperava. Juliano pensou que teria abusado do relaxamento de Fabiana. Ela não se conteve, ruborizou, praguejou, lacrimejou e até se perguntou do porquê do mal-caráter ter procurado ela depois de tanto tempo. O que ele está querendo comigo agora? Canalha, covarde, filho da puta!
Contudo, duas semanas depois, com o mesmo despojo de antes, somado a uma boa dose de coragem e resignação, ela respondeu e enviou um OI a ele. 

E assim se desenhou o encontro. Na verdade um reencontro. 

Esse encontro ou reencontro ainda não aconteceu, acontecerá. Mas quando Juliano e Fabiana estiverem juntos para conversarem, numa sexta feira qualquer, ou mesmo num outro dia, sei lá, eu conto aqui no meu conto, como o Conto que eu Conto termina de verdade. O final será surpreendente.

Por hora, torço por eles. E você?

16/09/2013

O Pouso da Garça

Ela pousa e posa para o mundo como que dele nada pretendesse. 
O véu que carrega a faz parecer uma noiva. 
Ela está serena e aparentemente sem qualquer interesse.  
A natureza lhe deu esse atributo. A natureza nos deu esse atributo.


Mas ela tem planos. Esconde um desejo. Nós todos temos planos, vivemos de desejos.
Sábia, não revela - por que deveria faze-lo? Somente a ela interessa suas vontades. 
O mundo não precisa saber. Ninguém precisa saber. O desejo é só dela.


Astuta, parte para o ataque decidida. 
O alvo não percebe. Sempre existe um alvo.






Satisfeita, parte para outra. E a vida segue.


Em todo canto a natureza se manifesta.

11/09/2013

Constrangimentos dos outros nos constrangem também.

Quem nunca passou por uma situação embaraçosa como a da repórter da TV? Nem precisaria ser diante de uma câmera ao vivo em rede nacional, bastaria um público de não mais que duas ou três pessoas. O mico mata a gente de vergonha.
Duvido quem não tenha sentido na pele, pelo menos uma única vez na vida, um calafrio inesperado, um do tipo que dá vontade de sair correndo e não olhar pra trás. Daqueles que a barriga gela, o suor congela e a gente perde o rebolado, além do fôlego e da lucidez. 
Até mesmo as pessoas mais tranquilas quando se percebem diante de um branco, pensam no pai, no filho e no espírito santo, menos no que precisaria dizer ou fazer de verdade.
O pior é que quando nos deparamos com constrangimentos dos outros, os chamados "alheios", também nos constrangemos. A gente quer se esconder de nós mesmos, ficamos morrendo de vergonha sem termos culpa no cartório - Ai se fosse comigo! Acho que por isso que criticamos quem está pagando o mico. Talvez pelo susto que ele nos tenha provocado.
Sem críticas, todo mundo erra e eu já me dei conta que quando não tem jeito mesmo, quando o leite derramou pelo fogão, digo pra mim mesmo - Foda-se! Na próxima eu acerto. Dá um alívio na hora. 

05/09/2013

Pluralidade dos Sonhos

Levantou-se cedo como de hábito, dez minutos depois estava na cozinha tomando um café. De licença médica por uma semana, Edinelson ainda reclamava das fortes dores pelas costas. Mais quatro dias estaria de volta ao trabalho.

De sua mochila sacou o laptop e logo estava On Line. O WiFi instalado há pouco fazia com que ele se sentisse mais prático.
Sabia bem o que ia buscar - o resultado da Megasena divulgado na noite anterior. Apostou no jogo mínimo numa sequência de números que fazia todo sentido para ele. Sonhava com esses números todas as noites, desde muito jovem.

Conferiu uma vez, duas e três. Na quarta começou a acreditar. Imediatamente abaixo dos números sorteados vinha a informação de que um único cartão havia conferido o prêmio. E o valor deste ultrapassava os dezoito milhões. E a cidade do ganhador era a mesma que a sua.

Após um desmaio rápido, recuperou-se. Levantou-se, conferiu novamente a tela do computador e cartão de aposta e foi até o seu quarto para comunicar a patroa - aos berros, pois os gritos ela teria ouvido minutos antes.

Dois meses e meio depois os três filhos do casal ganharam dos pais, cada um deles, uma linda e confortável casa própria. Filhos, genro e noras estavam felizes. Dois netos também.

Edinelson e Marlene finalmente conheceram um SPA. Perder vinte quilos, ele e trinta e oito, ela eram as metas. Entraram num avião a jato da GOL com as passagens compradas com cartão de crédito e o Rio de Janeiro e Foz do Iguaçu colocaram os pés e os olhos logo de cara. Deslumbraram-se com o hotel quatro estrelas.

Todos os carnês foram quitados, inclusive o financiamento da casa. Mais 15 anos aguardavam o desfecho. A TV HD 3D foi uma das primeiras compras.
Montou seu próprio negócio - uma papelaria, coisa pequena, mas com certeza iria dar bons lucros todo mês.

Tudo isso sem contar a reparação nos dentes. Tanto Edinelson como Marlene implantariam dentes novos. E com pagamento à vista sem mendigar descontos ao doutor.

Da noite para o dia a vida mudou. Se sentiam plenos de felicidade e agradeciam a Deus pelas graças concedidas.


De novo.

Levantou-se cedo como de hábito, dez minutos depois estava na cozinha tomando um café. De licença médica por uma semana, Edinelson ainda reclamava das fortes dores pelas costas. Mais quatro dias estaria de volta ao trabalho. 

De sua mochila sacou o laptop e logo estava On Line. O WiFi instalado há pouco fazia com que ele se sentisse mais prático.

Sabia bem o que ia buscar: o resultado da Megasena divulgado na noite anterior. Apostou no jogo mínimo numa sequência de números que fazia todo sentido para ele. Sonhava com esses números todas as noites, desde muito jovem.

Conferiu uma vez, duas e três. Na quarta desistiu. Mais uma vez passou longe, sequer um número acertou.

Edinelson e Marlene são de classe média ascendida. Ele torneiro mecânico na pequena metalúrgica do cunhado com mais cinco anos para se aposentar. Ela trabalha de segunda a sábado no controle de estoque do Magazine 2 Irmãos. Foi funcionária do mês, este mês.